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“Só não mostra meu joelho direito, por favor”, pede a jogadora de vôlei Jaqueline Carvalho, 28 anos, ao fotógrafo Marlos Bakker, enquanto posa, muito sexy, sentada no feno. Ela quer esconder uma cicatriz de cerca de 5 centímetros, consequência de duas cirurgias feitas em 2002. “OK, o resto todo pode?”, ele pergunta. “Pode”, responde segura a pernambucana. A equipe, acostumada a ataques de pudor das beldades (“diminui o decote, não quero parecer vulgar” está entre as falas mais comuns), sorri aliviada. “O Murilo [Endres, 30 anos, seu marido e jogador da Seleção de Bernardinho] vê você maravilhosa assim de vez em quando?”, questiona a editora de moda, Kika Brandão. “Não muito, mas ele vai ver na revista”, diz Jaque num tom de mulher que quer provocar.

Meia hora antes, durante a maquiagem, a atleta falava de sua relação de amor e ódio com o video game do marido. Se por um lado Jaque dá graças a Deus porque Murilo não quer saber de balada ou barzinho com os amigos, por outro irrita-se por ter de disputar sua atenção com os jogos. “Entro em casa e digo: ‘oi, amor, cheguei!’ E ele está lá: tec, tec, tec, matando bichos. Tenho de gritar pra ele desligar e vir falar comigo.” Um dia, promete, vai jogar o aparelho pela varanda. O casal está junto desde 1999, quando ela tinha 14 e ele 16 anos. “Murilo foi o primeiro e único homem da minha vida. E eu, a primeira e única mulher da vida dele.”

Dentro de casa (um apartamento no bairro Vila Leopoldina, em São Paulo), não se fala em vôlei. “É algo natural, porque quando um critica o outro acabamos brigando”, entrega ela. Jaque treina de segunda a segunda, cerca de seis horas por dia. Também viaja quase toda semana para jogar (além da Seleção, ela está no Sollys/Nestlé). No tempo livre, gosta de ouvir músicas evangélicas e jogar Angry Birds (e “outros jogos de criancinha”) no iPad. Por causa da agenda atribulada, o sonho de casar na Igreja foi adiado. Fizeram, em um intervalo de treinos, uma união no civil há três anos. “Naquela noite, jantamos pão com queijo e café com leite. Na manhã seguinte eu joguei”, lembra. Lua de mel? Só aconteceu em dezembro de 2011, quando o casal conseguiu uma semana de férias e partiu para Fortaleza.

Foi um respiro merecido após um ano dramático: em maio, a jogadora sofreu um aborto na sexta semana de uma gravidez inesperada (mas comemorada pelo casal) e, em outubro, bateu de cabeça com uma colega em quadra e fraturou duas vértebras, o que a deixou fora dos Jogos Pan-americanos de Guadalajara. “Poderia ter ficado paraplégica”, conta. Por sorte, Jaque voltou a jogar no mês seguinte, sem sequelas. Não foi o primeiro revés em sua carreira: depois de ser eleita a melhor jogadora juvenil do mundo, em 2001, aos 17 anos, sofreu uma trombose no braço direito e ouviu do médico que talvez precisasse amputá-lo. Recuperou-se em três meses, mas, na primeira partida após sua volta, machucou o joelho e fez as duas cirurgias que resultaram na cicatriz que tanto a incomoda. Ao todo, ficou dois anos parada. “Não imaginava que voltaria à Seleção algum dia, mas o Bernardinho (técnico na época) me fez ficar melhor do que eu era”, diz.

Apesar de tantos sustos, foi só depois da cabeçada do ano passado que ela decidiu mudar sua relação com o vôlei, quando chegou à conclusão de que vivia para o esporte. “Sofria, me culpava por tudo. Vou me matar pelo vôlei? Não, quero é viver para minha família. Agora, jogo por prazer”, afirma. Em julho, embarca para a Olimpíada de Londres, em busca do bicampeonato, mais tranquila do que nunca: “Já conquistei tudo o que queria”, diz. De fato, foram 26 títulos – dos principais só falta um Mundial com a Seleção. Isso significa que irá se poupar? “Imagina! Corpo é para usar, não tenho medo de cair, de me jogar. O que tiver de acontecer vai acontecer. Eu quebro tudo, vou pra cima, principalmente das cubanas. Elas merecem!”

E depois da Olimpíada? Jaque adiou os planos para ter filhos e nega pensar em aposentadoria, mas conta que não se imagina como treinadora. Sonha em abrir um spa e trabalhar com moda e beleza. Logo mais poderemos ter uma prévia desses novos rumos: Jaque aparecerá ao lado da top Gisele Bündchen no comercial de uma marca de xampu. Ela mostra no celular uma foto dos bastidores da gravação em que a modelo aparece em pé em um banquinho de madeira para fazer frente ao 1,86 metro da atleta. Bonita de cara lavada, ela não dispensa maquiagem leve para entrar em quadra. “Ainda mais quando sei que vai passar na TV aberta. Tem de ficar gatinha, né?”, brinca.

Jaqueline reconhece que o rótulo de musa atrapalha o relacionamento com algumas colegas. Quando ela aparece na mídia ou ganha algum prêmio, poucas chegam para comentar ou elogiar. A vida da jogadora ficou mais fácil depois que ela passou a dividir o quarto, há cerca de seis anos, com Fabíola, que é pastora no tempo livre. “Mulher é bicho ruim. Eu queria ter nascido homem”, desabafa, carregando no sotaque pernambucano. Mas nem todas implicam com Jaque – as lésbicas a veneram. “Tenho uns 50 fã clubes só com mulher.” Ela leva na boa, diverte-se com as declarações de amor. “Levam faixas, dizem que querem casar comigo e me perguntam o que eu enxerguei no Murilo… eu explico que eu vi um negócio bem bonito”, brinca mostrando com as mãos que ele seria bem-dotado. Pergunto sobre o assédio ao marido, também considerado “muso” da Seleção. A atleta explica que não tem ciúmes da gritaria das fãs dele, mas é taxativa: “Ele sabe que se eu descobrir alguma coisa, eu o mato. Mato mesmo”. Pensando bem, talvez seja uma questão de segurança o Murilo ter o video game no topo da sua lista de hobbies.

Editora assistente Ana Morbach
Styling Miki Shimosakai
Beleza  Fábio Nogueira (Capa MGT)
Produção executiva Gregório Souza
Produção de moda Gabriella Kalil
Manicure Mundial Impala (esmalte cor Ploc)
Assistente de fotografia Victor Juliano
Agradecimento especial Hípica Santa Hedwiges (www.hipicash.com.br e 11-7806-4315)

Matéria publicada na Revista ALFA de março de 2012.