Menina de circo
Tem gente que sairia correndo ao ver uma cobra albina de 2 metros. Nosso editor VICENTE VILARDAGA, por exemplo. Mas não Tainá Müller, que domou o bicho e mostra, aqui, seus inúmeros talentos no picadeiro

Vejo Tainá Müller assim que cruzo a arquibancada do circo Stankowich, montado no Tatuapé, bairro da zona Leste de São Paulo. No centro do picadeiro, sentada em uma cadeira a mais ou menos 3 metros de altura, ela usa um colant de veludo roxo e meia arrastão. Um malabarista profissional a sustenta lá no alto. A cena é desafiadora. Há alguma tensão no ar, e a equipe de produção de ALFA está preocupada. Eu, que acabo de chegar, também acho aquilo perigoso. Por alguns instantes, a fisionomia de Tainá revela apreensão. O barulho da chuva batendo na lona do circo aumenta o suspense. Percebe-se, às vezes, no movimento das mãos, uma pequena insegurança. Mas ela mantém o controle, rapidamente se apruma e recompõe a pose e o sorriso. Aquela mulher esplêndida corre risco, mas não se deixa tomar pelo medo. Fica 15 minutos parada no ar, com aparência desprotegida, e mergulha na magia circense.
“Você não tem medo, Tainá?”, pergunto, no intervalo para os retoques na maquiagem. “Tenho medo de altura e não sou tão corajosa assim”, responde com doçura. “Para fazer coisas difíceis, crio uma fantasia, entro em uma história e consigo superar meus temores.” Agora sua fantasia é ser artista de circo. Mais precisamente, a Adele do filme francês A Mulher e o Atirador de Facas. “Gosto disso, do limite do erotismo com o perigo e com a sensação de morte”, comenta enquanto ajeita, na coxa, seu colant. “Eros e Tânatos?”, questiono, lembrando as aulas de mitologia grega. “É isso aí, Vicente. Você já assistiu a esse filme?”
Assisti há muito tempo e refresquei a memória no YouTube. A certa altura, ouço o atirador de facas consolando sua musa, interpretada por Vanessa Paradis: “Tenho fé na sua sorte”. O filme é uma grande história de amor em que a morte sempre se insinua. Tem um charme decadente que fascina Tainá. “É uma coisa meio subversiva, um pouco freak, que eu gosto. Gosto desse glamour marginal. Para mim, além de referência estética, é uma forma de fugir do politicamente correto”, diz. Estamos no limite da transgressão, algo que, na arte, interessa muito a Tainá. Por algumas horas, ela se envolve nesse mundo burlesco, em um cenário cheio de carros velhos, bichos esquisitos, trailers e varais cheios de roupas. É uma tarde modorrenta, e o que se vê pelo circo são homens fazendo trabalhos braçais e carregando suas tralhas para lá e para cá e mulheres pintando as unhas e escutando rádio. Ao longe, ouve-se música. Parece sertanejo universitário. Acho que é Michel Teló.
Na hora em que a cobra Toth chega dentro de uma caixa, Tainá se aproxima cautelosa. No início, olha desconfiada e observa o comportamento do bicho. Trata-se de um macho albino da espécie piton, com manchas amarelas e mais de 2 metros de comprimento. Parece manso, mas impressiona. Tainá observa curiosa e vai se aproximando aos poucos. Primeiro toca de leve a pele fria do ofídio e depois se arrisca a segurá-lo com as duas mãos. Pede detalhes para a tratadora: “Como posso pegá-la melhor?”, pergunta. Também quer saber se a cobra pode ter uma reação inesperada se ela fizer um movimento brusco. Suavemente, a piton se enrola em seu pescoço e Tainá começa a se divertir, fica à vontade. Encarna uma Luz del Fuego moderninha e quase perde o pudor. Feliz, Toth vibra sua língua bifurcada. Tainá usa um diáfano vestido de seda bege. Deita no picadeiro e a cobra percorre seu corpo. Ficamos boquiabertos.
Tainá testa seus talentos. Quando vai para o pêndulo, onde só se espera dela movimentos simples e óbvios, extrapola e dá cambalhotas. Ela é forte e flexível. Gira em torno do próprio corpo e fica parada por vários segundos, se alonga, sorri e faz uma pose. Sobe e desce com facilidade, e o aplique de cabelo negro se move suavemente. Veste um maiô metalizado e suas curvas se expõem. “Nessa hora as aulas de pilates fazem diferença”, comemora. “Antes, era movida a cerveja e churrasco, mas hoje tenho uma boa alimentação”. Tainá conta que dançou balé durante muito tempo e sempre teve uma consciência corporal legal.
Ela admira os artistas mais desprendidos, que têm disponibilidade total para criar e não estão nem aí com a grana. A preocupação com a subsistência, porém, é algo que atrapalha seu desenvolvimento. Embora seu foco não seja o dinheiro, busca estabilidade e segurança e está muito contente de ter assinado um contrato longo com a TV Globo. “Quando me tornei atriz, eu pensava: só não quero parar debaixo da ponte. Estava cansada de não ter estabilidade. Entrei em uma fase em que posso escolher melhor meus projetos e não tenho a ansiedade de conseguir as coisas básicas para sobreviver”, afirma.
Seu desafio agora é conciliar televisão e cinema. Na TV, participará da próxima novela das 7, com nome provisório Marias do Lar, na qual fará o papel de uma marchand. No cinema, negocia um contrato para atuar em um novo filme, mas por enquanto prefere não falar no assunto. Em 2010, fez um papel em Tropa de Elite 2 e no ano passado filmou sua primeira comédia, E aí… Comeu?, baseada na peça de Marcelo Rubens Paiva. Aos 29 anos, é uma profissional experiente, que viajou pelo mundo e testou vários ofícios. Gaúcha, nascida em Porto Alegre, já foi jornalista, apresentadora da MTV e modelo. Hoje vive em São Paulo, “a cidade que escolhi”. Ficou feliz com as fotos de Daniel Aratangy. Muito feliz. Quando viu algumas delas na própria câmera do fotógrafo, as lágrimas inundaram seus olhos. “Ficou bonito isso aqui… Essa coruja é maravilhosa… Sua luz é muito boa, você me deixa gata… Ah, gente, o cabelo é tudo… Quero muito voltar a ter cabelo comprido… A bundinha…. Eita, como gosta de uma bunda esse Brasil”, disse. Ficou emocionada, Tainá? “Fiquei. Foi muito legal.”
Nós também achamos.
“Você não tem medo, Tainá?”, pergunto, no intervalo para os retoques na maquiagem. “Tenho medo de altura e não sou tão corajosa assim”, responde com doçura. “Para fazer coisas difíceis, crio uma fantasia, entro em uma história e consigo superar meus temores.” Agora sua fantasia é ser artista de circo.












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