O “puxadinho” mais rico do Brasil
O empresário Eike Batista já desdenhou o Fasano do Rio, comparando-o a um cômodo de barraco. Opinião diferente têm Madonna, Lenny Kravitz e várias outras celebridades que, depois de muitos romances, brigas e festas, transformaram o local no hotel mais badalado da América Latina

Parecia um baile de almas bem-aventuradas em pleno paraíso. Com água até a cintura, roupas de linho off-white, duas dezenas de modelos levavam os olhos aos céus durante uma festa para comemorar o sucesso de um desfile da Calvin Klein no Rio de Janeiro em outubro do ano passado. Os abençoados encontravam-se mergulhados na piscina com fundo infinito no terraço do hotel Fasano, de onde se avista o mar de Ipanema, o Arpoador e o Morro Dois Irmãos. Naquele dia, um banho divino. Em outro, um discreto namoro, sem testemunhas, depois das 10 da noite, horário em que o local não é habitualmente aberto. A cortesia foi concedida ao cantor Lenny Kravitz, que curtiu o momento com uma top model inglesa. Mais comportado foi o show particular da jazzista canadense Diana Krall. Ao poente, brindou os hóspedes que passavam pela cobertura cantando Corcovado, acompanhada pelo violão de Carlos Lyra. Encontros de negócios também acontecem ali. No começo do ano, por exemplo, duas mulheres elegantíssimas acertavam no mesmo terraço suas iniciativas benemerentes para as favelas cariocas: a bilionária francesa Betty Lagardère e a primeira-dama do Catar, a sheika Mozah Bint Nasser al Missned.
No hotel Fasano, tudo pode acontecer. E acontece. Mesmo numa cidade onde as pessoas estão acostumadas a trombar com o galã da novela das 8 no calçadão da praia, o burburinho criado pelo hotel chama a atenção. A presença de estrelas atrai com frequência hordas de paparazzi às calçadas diante do prédio na esquina da Avenida Vieira Souto com a Rua Joaquim Nabuco, o “filé-mignon” do mercado imobiliário da cidade. Num bom dia de trabalho, os fotógrafos saem de lá com o registro de cenas como a da cantora Beyoncé desfilando de pijama e sem maquiagem na sacada, material que rende notas para as colunas dos jornais cariocas num volume como há muito tempo não se via.
No espaço de apenas três anos, o Fasano do Rio virou o hotel mais badalado da América Latina, combinando a localização perfeita com um equipamento impecável. A arquitetura do prédio de oito andares é assinada pelo arquiteto francês Philippe Stark. Espalhadas pelos quartos e ambientes do hotel, misturam-se peças criadas por Stark, como os espelhos que lembram uma gota d’água, e peças de Sérgio Rodrigues e outros premiados designers brasileiros. Os apartamentos são decorados para os hóspedes, que pagam sem pestanejar diárias de 7 100 reais na suíte de luxo, com direito a flores, chocolates Les Amants, cafeteira Nespresso e um frigobar recheado de bebidas e champanhes franceses. Os quartos de frente possuem varanda e chaises e, nas suítes, uma cortina diáfana separa o living do quarto. Para não criar um clima impessoal, os apartamentos não têm número no alto da porta — e sim perto do chão. Nenhum hóspede é incomodado pelo serviço de arrumação. As arrumadeiras não empurram carrinhos, carregam cestinhas. E dessa forma silenciosa se comportam os 280 funcionários do hotel, a alma da tranquilidade dos hóspedes. “O Fasano tem o charme indefinível que apenas hotéis muito especiais possuem”, diz Gabriela Erbetta, redatora-chefe do Guia Quatro Rodas.
Na happy hour ou à noite, os hóspedes se aboletam no bar do hotel, o Londra, a versão do Fasano para um pub inglês, com poltronas de couro cor de uísque, paredes decoradas com uma versão da bandeira britânica com as cores da Itália. As festas ocorridas no Londra contribuíram com muitos capítulos para a crônica da mundanidade. Encontros históricos? Que tal Madonna e o modelo brasileiro Jesus se conhecendo ali, em 2008, numa festa e já engatando uma dança caliente no meio do pub? E as celebridades que gostam de atacar de DJ? Durante sua estadia no Fasano em 2009, o ator Chris Noth, o Mr. Big de Sex and the City, reclamou da música ambiente do pub e, na mesma hora, ganhou o direito de assumir o som, colocando os presentes para dançar com Kiss, de Prince.
Com tanta gente estrelada ocupando seus apartamentos, quando ocorre algum barraco por lá os protagonistas são sempre vips. Um dos mais comentados ocorreu no ano passado, numa festa no terraço do Fasano, tendo como contendores o ex-governador Aécio Neves e sua namorada de então, a modelo loura Letícia Weber. O episódio começou a ser comentado quando o jornalista Juca Kfouri publicou em seu blog que Aécio, em meio a um bate-boca com Letícia, extrapolou e sapecou-lhe um tapa. “Foi um constrangimento geral”, escreveu. Aécio e Letícia negaram veementemente o quiproquó. Do episódio ficou apenas a certeza de que nem tudo são flores nos jardins suspensos do Fasano.
A saga do “Principado de Ipanema” começou há quatro anos, quando o empresário Rogério Fasano vislumbrou no bairro a construção do prédio no último terreno restante à beira-mar, no início da praia. O projeto era de um hotel que seria operado pela empresa argentina Faena. Depois de um tempo, o empresário descobriu que os hermanos haviam começado a bater em retirada, espantados com a crise de 2007. Fasano propôs substituí-los. Conversa vai, conversa vem, selaram o acordo. Segundo o contrato, Rogério administra o estabelecimento e, em troca, fica com 5% do faturamento mais a receita do restaurante do hotel, o Al Mare. De acordo com cálculos de especialistas do mercado de hotelaria, o Fasano obtém uma receita anual próximo a 100 milhões de reais, o que deixaria para Rogério algo em torno de 5 milhões de reais a cada 12 meses.
Na montagem de seu castelo carioca, o empresário não poupou esforços. Isso incluiu uma longa briga com Philippe Stark. Detalhista e centralizador ao extremo, Rogério não se conformou em fazer o mero papel de gerente do negócio, sem intervir no trabalho do designer francês. Exemplo disso foi a construção da piscina. Stark queria a todo custo um parapeito de alumínio. Rogério batalhou para trocá-lo por blindex, deixando as águas da piscina juntarem-se às do mar, verde mar. Estava criado o impasse. Pessoas próximas ao empresário dizem que a discussão teria terminado quando a equipe de Stark recebeu do staff de Fasano a informação de que a prefeitura havia vetado o parapeito de alumínio. Perguntado sobre o final da história, Rogério apenas sorri, sem confirmá-la.
O empresário, de 48 anos, é da terceira geração do clã que, depois de chegar a São Paulo, transformou o nome da família na cidade em sinônimo de luxo e de bom gosto, numa saga iniciada com restaurantes e, posteriormente, ampliada para o ramo da hotelaria (o Fasano São Paulo, fundado em 2003, amealhou em outubro o 14º lugar na lista dos melhores do mundo, segundo a revista americana Condé Nast Traveler). Não bastasse ser um paulistano reconhecível a mais de 1 quilômetro, Rogério não é do tipo que faz média com o público. “Não quero fingir que sou carioca”, diz ele. “Sou apaixonado pelo Rio. No dia em que Deus criou esta cidade, estava excepcionalmente inspirado. Mas, confesso, não consigo ficar aqui mais que uma semana seguida. Sinto falta da feiura paulistana. O Rio para mim é paixão, mas é balneário”, afirma.
Pelo menos um empresário local aproveitou o perfil de Rogério para fazer uma provocação com um tempero bairrista. Quem abriu fogo contra ele foi o onipresente bilionário Eike Batista, que comprou o decadente Hotel Glória em 2008 e promete deixá-lo novinho em folha até o final de 2011. Numa palestra na Casa do Saber na Lagoa, perguntado sobre o prédio do Fasano, Eike ironizou: “Perto do meu, aquilo lá é um puxadinho”. Rogério não achou muita graça na história, e amigos comuns entraram em operação para aparar as arestas entre os dois. Depois de um tempo, sinais de fumaça branca começaram a aparecer.
O “puxadinho” de Rogério incomoda também outro monumento da hotelaria carioca, o Copacabana Palace, de quem o Fasano vem roubando boa parte do público. Rogério não acha elegante falar do concorrente, mas acaba falando. “O Copa até hoje é um ícone da hotelaria brasileira, mas foi traído pelo desenvolvimento urbano do Rio”, diz. Ao ser construído, nos idos de 1920, o lendário Copa ajudou a colocar a cidade na rota do turismo internacional e nas colunas de gossip de Louella Parsons, de Hollywood. Tudo no Rio girava em torno dele. À medida que os anos passaram, porém, a ressaca imobiliária de Copacabana fustigou os alicerces do templo da hotelaria.
Outro golpe duro veio com a troca de guarda no comando, com a saída da família Guinle para dar lugar à cadeia Orient Express, em 1989. “O Copa sempre foi um hotelzão, mas com Octávio Guinle, seu dono, sua alma, sempre circulando pelos corredores, almoçando na pérgula, sempre à frente dos eventos”, afirma Rogério. Segundo ele, hoje o Copa continua sendo um grande hotel, mas da cadeia Orient Express. “Mas a alma e a personalidade dos proprietários são apenas jurídicas”, afirma, sem resistir ainda a discorrer sobre o que considera um último pecado mortal do Copa. “A piscina só recebe sol entre meio-dia e 1da tarde”, conta. Em seguida, abre os braços e exibe a cobertura do Fasano. “Aqui a gente vê o sol nascer e se pôr. E ainda tem a lua…”, diz. Do terraço de seu hotel, assestado para o infinito verde onde as ondas do mar se encontram com o céu azul, ele sabe que não há no Brasil, nem no mundo, um puxadinho igual ao seu.











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5 comentários
Nossa! ainda não tive a oportunidade de conhecer um hotel 5 estrela, mas faria qualquer coisa pra passar um dia neste puxadinho!
parabéns.
[...] viram a última edição da ALFA? A minha chegou no correio hoje, e fui logo ler a matéria sobre o Fasano Rio, assunto que sempre me interessa. Ainda mais porque dei longa entrevista pro autor do texto, e [...]
[...] // A Revista Alfa (que tem se mostrado a melhor revista masculina nas bancas) tem em seu site uma matéria de novembro de 2010 com algumas curiosidades sobre um dos hotéis mais chiques da cidade e que qualquer carioca [...]
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