Imortal, entende?
Com uma nova biografia na praça e o cargo de embaixador da Copa, o maior mito do esporte mundial vive, hoje, sua melhor fase. A bola está, outra vez, com Pelé
Quando todo mundo parece envelhecer, Pelé rejuvenesce. Quando tudo está difícil, ele vira uma solução. No terceiro tempo de sua existência, está mais ativo do que nunca. A gente sabe que no fim das contas tudo vai dar certo porque o rei está aí e sua simples presença é um indicador de que as coisas vão funcionar. É nosso melhor garoto-propaganda e avalista. A Copa do Mundo do Brasil, em 2014, por exemplo: vai acontecer porque Pelé é seu embaixador honorário, nomeado pela presidente Dilma Rousseff. É o compromisso de alguém que nunca perdeu nada e que sempre ganhou com naturalidade. “Fui para lá e assumi essa responsabilidade, sem qualquer remuneração”, disse, enquanto posavapara o fotógrafo Bob Wolfenson na suíte presidencial do hotel Lowry, em Manchester, na Inglaterra. “A presidente me chamou, pedindo ajuda no meio da briga pela definição do estádio de abertura da Copa, e não podia dizer que não ia trabalhar”, contou. “O que quero mesmo — e por isso aceitei o cargo — é acabar com as animosidades e, daqui para frente, fazer as coisas acontecerem.”
Veja fotos das fases da vida de Pelé
Pelé estava apressado — e também alegre, entusiasmado e cheio de vitalidade. Vestido com calça cinza chumbo e camisa de crepe da mesma cor, ele era a estrela do relançamento internacional do New York Cosmos, clube em que jogou e que ajudou a promover entre 1975 e 1977 e do qual, agora, é presidente honorário. ALFA foi o único veículo a dispor de uma entrevista exclusiva. “O Cosmos foi um time muito bem sucedido, e sua história é a história do futebol dos Estados Unidos de uma maneira geral”, diz. “Enquanto durou, deu muito certo”. Os negócios do futebol agora são muito mais complexos, profissionais e milionários, mas Pelé continua por cima, fazendo gols. Neste mês, sai o volume 1 de sua biografia, Primeiro Tempo, escrita pelo teledramaturgo Benedito Ruy Barbosa. Há dois anos, decidiu ceder sua marca para administração da empresa brasileira Prime, que vai gerenciá-la pelos próximos 20 anos com opção de prorrogação por mais 20. Segundo a Prime, o valor da marca Pelé supera os 600 milhões de reais. Ele promove o Brasil, o Cosmos, a Umbro, bancos, produtos de consumo e não entra em uma campanha por menos de 2 milhões de reais — se for no exterior, o número dobra. Em 2011, no Brasil, Pelé apareceu, até agora, em 649 inserções de anúncios de empresas como Rede Globo, Mastercard, Vivo, Caixa Econômica Federal e também da Bovespa e do Ministério do Esporte, segundo o instituto de pesquisas Controle da Concorrência. Em 2010, ano de seu aniversário de 70 anos, o rei teve 1 560 inserções publicitárias. A esta altura, sua imagem é indestrutível, e sua remuneração só tende a aumentar, na medida em que esquentam as turbinas da Copa do Mundo. Se estivesse nos campos, seria hoje um dos mais bem remunerados atletas do mundo só com o que ganha com publicidade. Ele não confirma seus vencimentos, mas esse número gira hoje em torno de 18 milhões de dólares por ano ou 1,5 por mês. É mais do que qualquer jogador em atividade no Brasil (Ronaldinho Gaúcho ganha cerca de 1 milhão de reais por mês no Flamengo. Neymar está na casa de 1,3 milhão de reais).
Isso aí é uma grande responsabilidade. Sou uma pessoa normal como todas as outras e um ser humano que pode errar. Só peço a Deus que me dê força para que eu não desaponte”, afirma. “Veja bem: já é a quinta geração de torcedores que me acompanha. A molecadinha de hoje me conhece. Acho que, depois de tanto tempo, minha popularidade com os jovens não mudou nada. Quando a gente viaja, de vez em quando, eu até ponho um bonezinho. Com o bonezinho, ainda consi go passar no aeroporto. Mas quando eu tiro o boné, qualquer criança me reconhece na hora. Acho que é o topete”, afirma. “Estou brincando. Isso é um presente de Deus, não tem explicação, é coisa de Deus.” Caçadores profissionais de autógrafos cercam todos os eventos de que ele participa. Uma assinatura do rei em uma fotografia ou um livro vale hoje cerca de 200 dólares. E é um autógrafo de grande liquidez, embora Pelé não se poupe em dar atenção a qualquer um, do mais humilde ao mais rico. Depois de sua coletiva em Manchester, com pelo menos 50 jornalistas internacionais e duração de menos de 30 minutos, apareceram caçadores de autógrafos por todos os lados. Sua relação com as empresas costuma ser de longo prazo. A própria Umbro é uma parceira antiga. Foi Pelé que aproximou a empresa do Santos, no final dos anos 1990, e conseguiu o contrato de fornecimento de material esportivo que vigora até hoje.
Pelé tem enorme cuidado com sua imagem e não entra em roubadas. Não faz propaganda de bebidas e cigarros, por exemplo. E não por acaso ele descarta entrar em campo para jogar com a camisa do Santos em alguma partida do Mundial de Interclubes, que acontece no mês que vem, em Tóquio, no Japão. Mesmo que seja só para bater um penâlti. O que ele menos quer é ser responsabilizado por uma derrota. “O presidente Luis Álvaro Ribeiro falou que tinha um negócio espetacular para mim: você treina um pouquinho, entra lá, nem que for para jogar só dez minutos, dar só um chute na bola. Já pensou que curto. E isso acontece porque o atleta não se cuida. Ele começou a jogar, já acha que é o cobra e começa a ir em balada. O que segurou Pelé por 20 anos nos campos não foi o dom que Deus me deu para jogar futebol, mas o treinamento e o condicionamento físico. Sempre treinei com dedicação. É isso que segura o jogador”, declara. “Infelizmente, os jogadores aparecem e, em um ano ou dois, acabam”.
Pelé é ácido em relação à seleção brasileira. Acha que a safra de jogadores é boa, mas muitos precisam amadurecer. Uma passagem no exterior será útil a Neymar, ele acredita. O rei é ainda mais necessário num tempo em que o futebol virou um esporte dominado por cartolas inescrupulosos e jogadores que ganham dinheiro demais para se importar com coisas comezinhas como a seleção nacional. Não à toa a audiência dos jogos do escrete canarinho caiu. É um time que não empolga porque os atletas não empolgam. Ok. O mundo mudou. Como exigir coisas fora de moda, como comprometimento e amor à camisa, de adolescentes que saem, em questão de meses, da pobreza para salários sem pé na realidade? Pelé acha
também que os craques estão mais raros e o jogo ficou mais difícil. “Como não há muitos talentos, o físico prevalece”, comenta. No seu tempo, cada grande time brasileiro, como Cruzeiro, Santos, Palmeiras ou Botafogo, tinha três ou quatro jogadores bons, mas agora há menos destaques. “O Cruzeiro tinha Dirceu Lopes, Tostão, Piazza, Valdo; o Santos tinha Pelé, Pagão, Zito, Coutinho. E agora? Com quem você pode comparar o Neymar?”, pergunta.
Seu trabalho com o governo não tem nada a ver com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de Ricardo Teixeira, com quem sempre manteve uma relação tensa, para dizer o mínimo. “O Ricardo tem seu trabalho para fazer, e meu papel no governo não tem nada a ver com a CBF. A Dilma me chamou para ajudar a Copa a acontecer”, afirma. Pelé diz que Teixeira lhe procurou e ofereceu um outro trabalho remunerado na CBF, com um contrato profissional. “Mas, como assumi um compromisso com o governo, não sei se vou ter tempo” Sua principal ocupação será, mesmo, fazer o meio de campo entre os diversos interesses em conflito na realização do torneio esportivo mais importante do planeta (sorry, Olimpíadas). “Gosto dessa coisa de apaziguar os ânimos”, diz ele. “Quero pedir para 190 milhões de brasileiros trabalharem pensando no futuro do Brasil, não só no campo, mas no que vem depois. Quero trabalhar pelo legado da Copa do Mundo.” Como era inevitável, durante nossa conversa, sobrou para o desafeto Maradona. Contou o rei que, certo dia, o jogador argentino estava em um aeroporto, quando encontrou uma famosa atriz que havia passado uns tempos em uma clínica de recuperação. Ao vê-la, Maradona a cumprimentou:
– Como vai, minha heroína?
E a atriz:
– Muito bem, meu crack.
Entende?











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