A quem apelar?
Muita bobagem é dita a respeito da tecnologia, da alimentação saudável e da preservação das árvores. mas cuidado antes de afirmar que isso ou aquilo lhe parece esquisito: você corre o risco de ouvir que não está entendendo nada

Tempos atrás foi publicado em diversos órgãos da imprensa internacional um anúncio de página inteira no qual se podia ver, em dramático isolamento, uma árvore solitária, no meio de uma planície coberta de relva até onde os olhos conseguiam alcançar. A responsável pela publicação era uma entidade privada de presença mundial, dedicada à promoção do convívio entre pessoas e à execução de obras meritórias; o objetivo do anúncio era festejar os bons resultados obtidos recentemente pelas ações de combate à paralisia infantil promovidas pela organização. Graças a elas, informava o texto, está ocorrendo um importante avanço na luta pela preservação da natureza. O sucesso das campanhas de vacinação contra a poliomielite realizadas mundo afora tem ocasionado a redução do número de muletas – e menos muletas significa menos árvores cortadas para a obtenção da madeira necessária à sua confecção. Seria isso mesmo que estava escrito? Sim: o interessante, segundo o anúncio, era o excelente efeito da vacinação antipólio sobre o mundo vegetal. Quer dizer que a grande vantagem desses esforços não era, em primeiro lugar, libertar as crianças da paralisia infantil? Não, não era. Era reduzir a produção de muletas e, assim, salvar árvores como aquela bela espécie exibida na foto.
Vivemos, como se pode ver por aí, num mundo que vai ficando cada vez mais curioso. Até não muito tempo atrás, é provável que um anúncio como esse não sobrevivesse à primeira conversa da equipe de criação. Alguém, em algum momento, iria dizer algo assim: “Espera um pouco; isso aqui é um disparate”. Não mais, nestes dias em que tanta gente vive em estado de crescente ansiedade para demonstrar uma consciência moderna. Cuidado, portanto: antes de dizer que isso ou aquilo lhe parece esquisito, é bom pensar duas vezes e, depois de ter pensado, o melhor talvez seja não falar nada.
Do contrário, o cidadão corre o risco de ouvir que não está entendendo o que acontece ao seu redor; só pessoas incapazes de se conectar com o século 21 continuam insistindo em recorrer, como no caso das ponderações quanto à va- cina pró-verde, a um tipo de lógica quadrada, obsoleta e provavelmente preconceituosa.
O que dizer, por exemplo, do Dia da Escuridão, ou algo assim, celebrado recentemente em escala mundial? A ideia era apagar todas as luzes por uma hora, durante a noite, em testemunho de respeito ao meio ambiente. O impulso natural, como na história das muletas, é estranhar. Ficar no escuro? Como uma coisa dessas poderia ser positiva? Afinal, imagina-se que a luz elétrica tenha sido uma bela conquista do ser humano – tão boa, possivelmente, quanto a descoberta do fogo, quando nos livramos, pela primeira vez, dos terrores e da cegueira da noite. De mais a mais, o que adianta apagar a luz só durante uma hora? Se ninguém está disposto a viver sem eletricidade, porque ninguém quer viver sem televisão, elevador ou banho quente, e nem habitar um mundo sem máquinas, vai ser preciso acender tudo outra vez. De novo, não é aconselhável vir com esse tipo de raciocínio convencional. Quem argumenta assim obviamente não tem consciência do planeta em que está vivendo; não entende a importância de se chamar a atenção para o fato de que preciosos recursos naturais estão sendo consumidos na mera produção de eletricidade etc., etc. Da próxima vez, portanto, apague a luz da sua casa e dê-se por muito satisfeito por poder acendê-la de volta.
Armadilhas semelhantes estão espalhadas por toda parte. A área da alimentação, particularmente, é uma das que exigem mais atenção de quem pretende estar conectado com o estilo de vida que se recomenda para a hora atual. É muito provável, antes de mais nada, que o cidadão comum esteja fazendo uma alimentação ultrapassada. É uma pena, realmente, pois
há toda uma alimentação moderna ao seu alcance, à qual ele não recorre porque imagina, após ter vivido uma certa quantidade de anos, que sabe alguma coisa a respeito de comida, por experiência e observação próprias. Mas aí é que está: ele não sabe. Acha, em sua inconsciência, que pelo simples fato de ter aprendido a gostar de umas coisas e não gostar de outras está no direito de ir comendo tudo o que lhe parece gostoso e nunca lhe fez mal nenhum; mas agindo assim está a caminho de tornar-se tristemente desatualizado a respeito do que é melhor para ele. Quem sabe disso são os (e, muito mais frequentemente, as) nutricionistas, personal trainers, jornalistas das revistas de boa forma física, boa saúde, boa postura, bom astral, bem estar e similares, chefs antenados, modelos, celebridades, esportistas de sucesso, autores de rótulos de produtos alimentícios, médicos de dietas para gente famosa, químicos (sim, químicos, cada vez mais) e por aí afora. O certo, para todos que pretendem alimentar-se como pessoas integradas à nossa era, é ouvir o que estão dizendo. A alimentação moderna é cheia de surpresas; só mesmo perguntando a quem sabe. Vão lhe dizer as coisas mais alarmantes e lhe recomendar comida muito ruim; em compensação, você estará se alimentando bem.
A verdade é que as coisas já não são mais tão simples como geralmente se pensa. Houve um tempo, por exemplo, em que um pão era um pão e um queijo era um queijo; havia até a expressão “pão, pão, queijo, queijo” para designar uma situação clara ou uma pessoa objetiva, franca e honesta. Hoje o pão pode ser um assustador hospedeiro de glúten, substância que, segundo as severas advertências de todos aqueles especialistas citados acima, é um perigo em potencial – seria capaz até de matar. O queijo não tem glúten, mas vem do leite – e o leite tem lactose, por trás da qual se esconde todo um mundo de maldade. E quem passou a vida inteira tomando café com leite e pão com manteiga na primeira refeição do dia, sem jamais suspeitar de nada? Aí fica pior ainda, pois ao glúten e à lactose esse infeliz está acrescentando café e manteiga, produtos notoriamente criminosos; uma boa dose de formicida talvez não apresentasse tantos riscos. A carne é outro problemaço. Em qualquer academia de ginástica (ou de “treino”, como se diz hoje), vão lhe dizer que a carne carrega ácido aracdônico – e quem poderia se sentir tranquilo ingerindo um negócio desses? A alimentação contemporânea oferece como alternativa o consumo de produtos que contêm soja; neles você encontrará fitatos, saponinas e inibidores de protease, que exercem uma ação antioxidante. A lista de recomendações vai longe. É preciso combater os radicais livres e incentivar o colágeno – ou seria o contrário? Fique de olho nas oportunidades oferecidas pelo ômega 3; você pode estar precisando de ácido alfalinolênico, um carboxílico poli-insaturado que, como todo mundo sabe, é o que há. Ser “alimentarmente correto” dá trabalho, mas ainda não é o suficiente; é indispensável, também, cuidar do seu “corpo”. Não se esqueça, por exemplo, que sonoforese tripolar parece ser bom. Faça 300 abdominais por dia. “Treine.”
Acima de tudo, conecte-se – a modernidade é uma senhora exigente, e não se contenta com gente que se limita a cumprir seus deveres ecológicos, energéticos ou alimentares. O caminho mais simples para ser deixado em paz é manifestar, a cada oportunidade que apareça, uma admiração automática por toda e qualquer novidade lançada no mundo da comunicação digital, seja ela online, off line, via iPhone, via iPad e tudo o mais que lhe soar parecido com essas coisas. Se possível, aprenda algo a respeito e faça de conta que está entendendo o que lhe dizem sobre isso tudo. O que se desaconselha, mesmo, é qualquer comentário que possa levantar algum tipo de dúvida quanto às virtudes revolucionárias da conectividade sem limites em que vivemos atualmente. Por exemplo: utilizar menos e menos palavras, como se requer no twitter, seria realmente um avanço sem precedentes para o ser humano? O homem das cavernas sabia bem poucas palavras e se comunicava com ruídos muito parecidos às abreviações que aparecem na telinha dos celulares. Tudo bem? Talvez não seja, mas é melhor deixar de lado comentários desse tipo. Também não se recomenda fazer restrições ao Facebook, que torna possível às pessoas ter amigos sem se encontrar fisicamente com eles, nem sequer lhes dizer um alô ao telefone. O sujeito tem 150 amigos, mas nunca falou com nenhum – será de fato uma vantagem extraordinária? Dez entre dez conectados lhe dirão que é.
É discutível, do ponto de vista das relações humanas, achar que estamos fazendo um progresso espetacular na comunicação entre os seres humanos quando se verifica que a tecnologia, quanto mais conecta, mais desconecta; como diz o escritor inglês Jonathan Coe, a humanidade tornou-se muito inventiva em descobrir novas maneiras de evitar que as pessoas falem umas com as outras. Com o GPS, não é mais necessário falar com ninguém para perguntar o caminho. Mensagens em texto dispensam a necessidade de conversar ao telefone. Em vez de encontrar um amigo, recorre-se ao Facebook. Os Nintendo DS deixam as crianças entretidas, mas os pais já não podem mais falar com elas direito. Casais e grupos de amigos vão ao restaurante ou bar e passam o tempo checando seus celulares para ver se têm mensagens, ou rolando o visor em busca de alguma coisa, ou digitando isso e mais aquilo. Ainda conversam entre si – mas conversam metade do tempo que conversavam antes. Não fica muito claro de que modo isso eleva a qualidade de vida, ou melhora qualquer relacionamento – mas pensar nesses termos é pensar pequeno e, sobretudo, pensar velho. Há muito pouca paciência, hoje em dia, com quem raciocina assim.
A preservação das árvores, a poupança de energia, a alimentação saudável e a tecnologia da informação são coisas certamente muito boas, entre outras tantas. Mas não são sagradas. Não deveriam ter adoradores, nem ser objeto de culto. E, mais do que tudo, não há nenhuma necessidade de se dizer tanta bobagem a seu respeito.











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