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O escritor brasileiro Paulo Coelho tem sido o centro de uma discussão literária internacional. Em recente entrevista ao  jornal Folha de São Paulo, fazendo o trabalho de divulgação do livro recém lançado “Manuscrito Encontrado em Accra”, Paulo Coelho criticou  Ulysses, obra do escritor irlandês James Joyce: “É só estilo. Não tem nada ali. Se você disseca Ulysses, dá um tuíte.”

A reação foi imediata. Alguns críticos internacionais se revoltaram com a ousadia do escritor brasileiro e ocuparam espaço em jornais nobres, como o inglês The Guardian, para rebater o brasileiro.

Paulo Coelho já vendeu 100 milhões de livros em mais de 150 países e é, sem dúvida, o escritor brasileiro que mais fez sucesso, dentro e fora do país. Seus temas populares, com tom de filosofia rasa e narrativas revestidas de sabedoria discutível, atraem um público que não é constituído de leitores frequentes — e faz sucesso em todo o mundo.  Mas, apesar de sua respeitabilidade internacional, Paulo Coelho arriscou todo o seu cacife para criticar  uma das maiores referências da literatura moderna.

Ulysses é um livro de leitura difícil, com estilo sofisticado e muitas vezes impenetrável. Por esse motivo, Paulo Coelho afirma que se trata de uma obra para agradar escritores e não leitores — um livro só de estilo, sem conteúdo.

A literatura, no entanto, não vive de conteúdo, mas sim da forma. E Ulysses é um marco literário não porque tenha sido um sucesso de vendas, mas porque abriu perspectivas para a literatura, apresentando uma nova forma de narrativa, uma dinâmica literária própria e uma ousadia que não se praticava então — começo do século 20. E o mais importante é que perpetuou personagens, cumprindo a primeira e mais importante missão de um romance.

Assim, Paulo Coelho tem até razão em suas críticas.  Mas transformar essas características em aspectos negativos é um erro de abordagem. Que não vale mais do que um “tuíte”.