Eu não consigo pensar em nenhuma necessidade tão forte, na infância, quanto a da proteção de um pai. – Sigmund Freud

Pai, você foi meu herói, meu bandido. – Fabio Junior

Bzzzzzz… Blam! Demonstrando toda a destreza, reflexos e coordenação motora, Neymar sorri enquanto corta o chão do estúdio fotográfico com um carrinho de controle remoto. Ele domina o brinquedo instantaneamente. Sentado ao lado, seu pai, que também se chama Neymar, esforça-se para entender como funciona um carrinho semelhante. O brinquedo do filho dá um cavalo de pau e derrapa até brecar. O do pai anda um pouco e para. O carro de Neymar encosta e começa a bater repetidamente no outro carro, como quem faz uma provocação. “Aaaai, caramba”, resmunga o senhor. “Agora você está feliz, né?” É a imagem emblemática de um relacionamento complexo: Neymar, um dos mais talentosos jogadores do mundo, está dando voltas em torno do pai, um ex-futebolista que mal consegue mover seu próprio veículo. É esse o homem que dirige sua carreira. “Ele controla tudo”, diz. “Eu só fico da linha do campo para dentro.”

Nascido em Mogi das Cruzes, Neymar da Silva Santos Júnior, 19 anos, é um fenômeno. Seu futuro, se não perder o foco ou se machucar, será portentoso. “Ele tem tudo para terminar a década como um dos melhores, senão o melhor do mundo”, afirma o jornalista esportivo Juca Kfouri. Com um sorriso fácil e atrevido, o inconfundível topete moicano e a gola da camisa virada para cima, é a estrela do momento. Não apenas na opinião dos admiradores do esporte. Em suas aparições públicas e nos treinos do Santos, vive cercado por adolescentes ensandecidas, muitas delas com faixas com seu nome ou corações escritos na bochecha com batom. Um legítimo ídolo pop. Em março, meteu dois gols na Escócia. O segundo, de pênalti. O zagueiro Gary Caldwell descreveu o primeiro como “espetacular”.  “É um talento excepcional”, diz Gavin Hamilton, editor da revista de futebol britânica World Soccer. “Ele realmente mostrou ao pessoal na Europa o que pode fazer.”

Você tem alguma crítica ao seu pai, Neymar?

“Uma crítica?”, ele replica.

“Pensa bem”, diz o pai. Ambos riem.

“É chaaato”, diz Neymar, gargalhando. Ele junta as palmas com estrondo.

“Que crítica é essa?”, diz seu pai, jocosamente.

“Não tem nada”, fala Neymar. E eles riem mais.

É uma manhã quente de sexta-feira e o time do Santos está treinando. “Vamos abrir este jogo”, grita o técnico, batendo palmas. O sorriso de Neymar nunca se apaga. Seu estilo é rápido e fluido, caracterizado por arrancadas instantâneas, como se acionasse uma alavanca “turbo”, com fintas, cortadas e dribles que deixam defensores desamparados e goleiros plantados no chão. “Driblar. Driblar com velocidade”, diz ele quando perguntado sobre suas maiores qualidades. Após o golaço contra a Ponte Preta no Campeonato Paulista no fim do mês passado, explicou de onde vem parte desse instinto. “Se escurecer, tem de chutar forte”, falou. “Meu pai que me ensinou.” O Neymar que chega ao estúdio fotográfico em Santos, em um suntuoso Volvo branco com o adesivo “Força Ganso” na traseira, usa um berrante boné vermelho e óculos de sol de lentes enormes. Faz piada com algumas roupas usadas na sessão de fotos, um suéter com calça social e sapatos. “Vestido assim, nunca vou arranjar namoradinha”, resmunga. “Já namorei três vezes.” No ano passado, o Chelsea, um dos clubes mais ricos da Europa, fez uma oferta por seu passe e se mostrou disposto a pagar 35 milhões de euros de multa. Quem tomou conta de tudo foi, como sempre, o pai. “Poucas coisas chegam a mim para eu não ficar sufocado dentro de campo”, declara o jogador.

A história do esporte é pontuada por grandes atletas cuja carreira foi comandada por pais dominadores. “Kaká é um bom exemplo. Seu pai desempenhou um papel muito importante e deu a ele uma estrutura firme”, diz Gavin Hamilton, da World Soccer. Há, também, inúmeros exemplos negativos. Em sua autobiografia lançada em 2009, o tenista Andre Agassi disse que “odiava” tênis e que fora obrigado a jogar por seu pai. “Quando ganhei Wimbledon em 1992, a primeira coisa que ele me disse foi: ‘Você não tinha nada que ter perdido aquele quarto set’.” Juca Kfouri acredita que Neymar pai vive por meio do rapaz a glória que lhe foi negada enquanto jogava nas divisões inferiores. “Ele projeta no filho aquilo que queria ser e não foi”, observa. “Acho que isso não faz bem.” Numa negociação recente de uma campanha publicitária, Neymar pai perguntou se também participaria do filme — ele estava na campanha da operadora de telefonia Nextel. “A cúpula do Santos começa a ficar incomodada com o estilo Mãe de Miss”, diz a comentarista Marília Ruiz, blogueira do site de ALFA.

Por ora, é uma relação que traz mais benefícios que prejuízos. O futebol brasileiro está repleto de gênios que saem da miséria para a fortuna sem escalas e que se perdem, no meio do caminho, para as tentações do dinheiro. Os dois se amam e se admiram. Que pai não cuidaria para que sua cria (e seu patrimônio) não jogasse tudo no lixo? A questão é: qual a eficácia desse controle, tendo em vista a capacidade de Neymar de flertar com polêmicas? Por quanto tempo o pai poderá segurar um cara tão cheio de energia, talento e com uma queda para a indisciplina?

Seu pai critica você?

“Opa! Desde pequenininho.”

E se você joga bem, ele fala parabéns?

“Nãããão!”

“Na hora em que se joga bem é que é preciso apontar o erro”, diz o pai.

Aos 46 anos, Neymar pai é uma figura tranquila, solícita, educada. E de uma sinceridade desconcertante. “Passei por times pequenos e médios”, diz. A lista inclui a Portuguesa Santista e o Operário de Campo Grande. “Todo mundo quer chegar ao topo, ser brilhante, bem remunerado”, conta. Aposentou-se aos 32, quando não mais tinha vontade ou condicionamento. “Quando você para e não tem perspectiva, fica inseguro sobre o rumo que vai tomar.” Trabalhou como pedreiro e mecânico. Até seu garoto começar a ganhar dinheiro, nada foi fácil. “Era uma família bem humilde. Passamos por dificuldades”, diz Neymar Júnior.

“Já fiz tanta cagada que acabei adubando a vida. Servem de adubo todos os erros que a gente faz”, diz o pai. Em uma coisa, porém, ele acertou em cheio. Percebeu a genialidade do menino de 7 anos de idade. “Achávamos que ele tinha talento pra jogar.” Neymar começou no futsal. Aos 13, posava de modelo no material de divulgação do Santos. Aos 15, assinou um contrato de 20 mil reais. Em agosto de 2010, quando seu contrato foi renovado, o salário passou para 160 mil reais por mês e mais 330 mil de publicidade. Desse dinheiro, Neymar vê apenas uma mesada paterna de 10 mil reais, paga pela companhia familiar que tem o camisa 11 como a única fonte de renda. “Ele é a nossa empresa. Eu sou presidente, junto com minha esposa, e tem a minha filha que ajuda.” Essa combinação de papéis não parece simples. “Há dilemas como: devo priorizar carreira ou dinheiro? Como administrar as expectativas?”, afirma a doutora Rachel Andrew, psicóloga do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido especializada em relações familiares com foco em pai e filho.

Como equilibrar o lado homem de negócios e o lado pai? “É não desvincular uma coisa da outra. É aceitar e demonstrar que tenho meu filho, mas tenho também a minha empresa”, diz. “O segredo é o carinho.” Perguntado se é “filhinho de papai”, a resposta de Neymar é incisiva. “Não sou filhinho de papai porque fui criado em favela”, diz. “Mas tenho uma relação muito próxima com meu pai, porque é assim que tem de ser. Quando você mais precisar, quem vai estar do seu lado serão seu pai e sua mãe.”

Qual foi o melhor conselho que ele te deu?

“O melhor? São sempre bons. Não tem nenhum específico. Estou sempre aprendendo com ele, todos os conselhos são valiosos.”

Perguntamos sobre seus hábitos de beleza. Ele me disse, em outra ocasião, que raspa as pernas, usa hidratante e vai sempre ao cabeleireiro ajeitar o moicano. Desta vez, porém, Neymar desconversa: “Tomo banho e saio”. ALFA insiste em saber que produtos usa, mas o gerente de marketing da equipe da Vila Belmiro, Eduardo Dutra, se adianta: absolutamente nenhuma marca poderá ser mencionada, avisa. Qualquer endossamento é uma oportunidade de ganhar dinheiro desperdiçada.

Existem somas astronômicas e grandes investidores envolvidos em sua carreira. O Santos, a DIS (companhia dos irmãos Delcir e Idi Sonda, da rede de supermercados Sonda) e a Teisa (Terceira Estrela Investimento S.A., de um grupo de conselheiros santistas) têm participação no caso de uma venda futura do jogador. Wagner Ribeiro, definido como seu agente, leva 10% nas premiações (luvas) sobre transferências e renovações de contrato. Recentemente, a 9nine, de Ronaldo Fenômeno, negociou uma participação em contratos publicitários em troca de prospectar novas oportunidades de publicidade. Já José Berenguer, vice-presidente executivo do banco Santander, fechou um acordo para gerenciar seus investimentos. Todos eles respondem a Neymar pai. “É difícil. Você fala: ‘Caramba, estou tratando meu filho como negócio’”, confessa ele. “Claro. O Neymar até certo ponto é meu filho. Mas, a partir do momento em que ele sai de casa, é meu negócio. É nosso trabalho.” O filho concorda. “Somos colados um no outro. Eu sou um cara bem tranquilo, bem centrado, acho que todos me veem como ídolo, mas minha família me vê como o Júnior de casa.”

Ambos declaram que o clima está leve no Santos, mas sabem que cedo ou tarde terão de assinar com um grande clube europeu. “É inevitável. Pode ser em agosto, pode ser em 2014, pode ser em 2015”, diz Neymar Sr. “É uma visibilidade enorme, onde estão os grandes jogadores”, concorda o atleta. Quando perguntado sobre que time escolhe quando joga videogame, Neymar dá uma risada e responde de bate-pronto. “O Santos, né?” E europeu? “Depende do time que meu adversário escolher”, despista, rindo ainda mais. É aqui que entra um poderoso e polêmico empresário, o israelense Pini Zahavi. Neymar pai admite que ele toca os negócios fora do país e que poderia guiar tal transação na Europa. Zahavi é acusado de negociações suspeitas no Velho Continente, envolvendo nomes como Didier Drogba, Petr Cech e Roman Abramovich, entre outros. Neymar pai enfatiza que o filho está envolvido em todas as decisões tomadas em sua carreira e que seu bem-estar está acima de tudo. “Nós vamos ganhar muito dinheiro, mas primeiro queremos ser muito felizes. O resto é consequência”, diz.

“Eu não gosto de ficar sozinho. Sou um cara que curte estar com amigos. Vou pra casa, jogo uma sinuca, videogame, converso, assisto a filme, saio para comer um negócio, para dar risada, é uma vida bem tranquila. Nunca bebi álcool”, diz Neymar Júnior.

Seu mais famoso problema disciplinar aconteceu em setembro de 2010. Ele explodiu em campo após ser proibido pelo técnico Dorival Júnior de cobrar um pênalti contra o Atlético Goianiense e saiu xingando. Foi suspenso por um jogo. Dorival então decidiu deixá-lo de fora de mais uma partida, um derby contra o Corinthians. A cabeça do treinador rolou quase imediatamente. Dorival havia acabado de vencer o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil, com 37 vitórias em 61 jogos. Sentado no banco ao lado do campo de treinamento, Neymar Jr. não nega que esse foi o ponto mais baixo de sua carreira. “Uma hora a gente acaba errando, acontece. Todo mundo erra, eu fui um ser humano que acabou errando também.” Ele foi para o vestiário mais cedo ainda em outra ocasião: ao usar uma máscara produzida pelo patrocinador. “Fiquei chateado. Ao colocar a máscara você não está atingindo ninguém nem menosprezando alguém”, defende o jogador. “Não tinha por que tomar o cartão, mas tá na regra, tá na lei”, completa seu velho. A atitude, na verdade, fez parte de uma campanha publicitária cujo mote serão as mais originais comemorações de gol. No estúdio, o pai senta-se numa cadeira de couro, em pose solene, enquanto o filho fica de pé atrás. Neymar segura o queixo de seu velho. Claramente há muito carinho e respeito entre eles, embora, como com os carrinhos de controle remoto, pareça borbulhar uma constante e subliminar batalha de vontades.

“Meu pai sempre me deixou à vontade, sempre me deixou jogar tranquilo”, Neymar diz.

“Ele pode sair quando quiser”, conta o pai.
Para lidar com as três namoradas que teve, Jr. diz ter contado com os conselhos paternos. “É um cara vivido”, justifica o garoto.

“O orgulho da gente é saber que o Neymar tem dois ouvidos e uma boca, que ele ouve bastante. E é alguém que sabe o que quer”, diz o pai. Júnior não concorda nem discorda. Parece estar desconectado. A doutora Rachel acredita que relações assim podem frutificar se bem gerenciadas. “Mas, normalmente, há um ponto em que o filho passa a gerência para outra pessoa ou assume, ele próprio, o controle da vida.” Se isso acontecer, para onde irá Neymar pai? Ou, melhor perguntando: onde acabará Neymar Júnior?