Você já ouviu falar no doutor Natal Braver, professor de psicologia da Universidade de Washington, em St. Louis ? Nem eu. Pois é, ele e mais quatro colegas neurocientistas resolveram realizar uma experiência incomum. O grupo passou uma semana inteirinha numa área remota no sul de Utah, nos Estados Unidos, totalmente isolado e, principalmente, desconectado. Tudo com um único objetivo: entender quanto o uso abusivo de aparelhos digitais e de outros badulaques tecnológicos influencia o comportamento de nosso cérebro.

Ao ler outro dia mais essa “webobagem”, lembrei, de cara, de mim mesmo. E não é que todo ano, há quase uma década, faço um experimento similar, só que muito mais radical ainda? E o que é melhor: essa profunda investigação científica está, justamente, para iniciar-se mais uma vez. Dezembro já chegou e essa minha incrível aventura vai recomeçar. A fantástica jornada que chamo, carinhosamente, de… “minhas férias”!

Antes de mais nada, precisamos delinear melhor o significado do termo “férias”. Como trabalho alucinadamente combatendo meus “alemão” (e ganhando), toda semana, há quase duas décadas, correndo o campo todo e suando a camisa para fazer a galera rir, meu descanso é proporcional a esse esforço. Sei que vai dar inveja, mas vamos lá: são “marromeno” uns 45 dias de “bob” total.

Estabelecido o período de tempo, vamos agora ao conceito propriamente dito. Uso como definição o enunciado de um grande amigo e competentíssimo médico: “Férias são no sul da Bahia, o resto é viagem”. Como todos hão de concordar: 1 a 0 para minha experiência científica! Ou alguém aí quer comparar o sul da Bahia ao sul de Utah?

Desde que estabeleci (por motivos e carnavais ancestrais) a base das minhas vacaciones naquelas paradisíacas latitudes, me adaptei a um exótico way of life: a desconexão quase total e absoluta. Lá (por escolha) não tenho TV nem internet, muito menos celular. Só de dois verões para cá, capitulei e resolvi fazer uma concessão instalando um primitivo e rudimentar “telefone fixo” (lembra?).

Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que estou longe de ser um ludista (vão ao Google), um econatureba avesso às inovações e aos brinquedinhos tecnológicos. Nada disso, adoro uma tecnobesteira. Tenho iPhone, iPad, iPod, iPhod, tudo a que tenho direito. Mas também acho absurdamente libertadora a possibilidade de escapar das redes, sociais ou não. Ficar longe das notícias, deixar pra lá as incessantes ondas de informação para admirar somente as do Oceano Atlântico. Enfim, mandar todos os twitters e facebooks da vida tomarem bem no meio do orkut.

Dito assim, parece moleza. Mas, se fosse fácil, por que cientistas americanos iriam se isolar no cul… quer dizer, no sul de Utah só para pesquisar a fundo esse tema? Provavelmente a falta de sexo seja a melhor explicação. Afinal, cientista quase nunca arruma mulher. Porém, quando observamos seres desesperados, em total crise de abstinência, porque ficaram sem poder se conectar algum tempo, vemos que a coisa, realmente, pode ser séria e merece mesmo ser estudada.

Mas não por mim. Não tenho a menor pena de quem fica pagando mico girando a esmo, procurando algum sinal, como quem tenta fisgar um peixe que não existe. Adoro o que chamo, afetivamente, de “e-mailgrecimento”. É quase como perder peso. Deixar pra lá gorduras desnecessárias, fardos que carregamos sem necessidade. Vocês não podem imaginar que sensação maravilhosa é, na volta das férias, chacinar (sem ler) milhares de e-mails que estavam à sua espera. Dá até para sentir o gosto de sangue na boca.

Muito bem, mas aí você pode perguntar e, se não pode, eu pergunto a você: o que se faz durante 45 dias sem nenhum follower, nenhum amigo virtual, sem entrar no MSN, sem poder usar o celular e sem ver, nem ao menos, uma pornografiazinha na web? Vamos lá, use a imaginação, existem alternativas criativas e surpreendentemente prazerosas. Conversar, por exemplo. É gostoso e é bacana, “eu agarântio”. Dedicar-se a uma intensa prática de exercício da literatura também bate um bolão. Aliás, bater uma bolinha também bate um bolão. Além disso, poder alternar demoradas permanências na praia com inacabáveis banhos de rio, venhamos e convenhamos, não é nenhum tédio. Depois (ou antes), podem-se ver uns DVDs maneiros (DVD vale, inclusive, os com aquela pornografiazinha básica, afinal ninguém é de ferro). Namorar muito. Comer bem, em todos os sentidos.

Tá bão, não? Pra mim tá. Pra mim isso é o paraíso. Mas se pra você isso está mais perto de uma temporada no inferno… no problem. Melhor assim. Cada um na sua praia. Assim que é bom. Sobra mais espaço na minha.