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César Cielo não queria colocar o peixe na boca. Dez sardinhas bastante fotogênicas esperavam por ele, alinhadas sobre gelo picado numa folha de filme plástico. Pegou uma delas na mão, inspecionou-a: “É nojento demais”. Foi quando tive uma ideia: desafiá-lo publicamente. Peguei um dos peixinhos, bem na sua frente, e passei a destroçá-lo com os dentes. Um pouco radical demais, eu sei. Ele olhava, incrédulo. “Está uma delícia”, falei. Em cinco minutos, sem que ninguém pedisse, Cielo colocou o bicho na boca e começou a posar para as fotos. Naturalmente. Porque competir é a razão de viver de César Cielo Filho, a maior esperança brasileira de medalhas nas Olimpíadas de Londres e o maior nadador que o país já produziu. Absolutamente desconhecido até os jogos de 2008, debutou no Cubo d’Água pequinês com duas medalhas: um ouro e um bronze. Ele hoje é dono dos cobiçadíssimos recordes mundiais de velocidade nos 50 e 100 metros livres. Também é detentor de outros dez recordes sul-americanos e das Américas. No mês que vem, pode se firmar como um dos grandes velocistas da história. “Sou bem competitivo em todo lugar, de truco a videogame”, disse ele entre as colheradas que dava numa pequena caçamba de açaí com banana e manga. “Eu fico puto quando perco.”

A intimidadora presença física de Cielo se dissipa quando ele começa a falar. Tem o cacoete das pessoas altas (1,95 metro), que é se curvar para a frente, como que em consideração aos menos favorecidos verticalmente. Pergunto se algum parente não o coagiu a tentar basquete ou vôlei, por exemplo. “Claro”, ele ri. “Mas meu pai me colocou na natação porque na praia não queria ter a preocupação de ter de ficar me vigiando.” Ele foi então descobrindo que era bom, muito bom, dentro da piscina. Acima de tudo, percebeu que aos poucos vencia sua timidez (“acho que era meio nerd”, admitiu) com a ajuda de troféus e medalhas. O gosto pela vitória instalou no aparelho psicológico de Cielo uma peça muito importante: a crença absoluta de que todo esforço é recompensado. Convido-o a fazer uma conta: quantos metros de piscina teria percorrido na vida? Ele treina em média cinco horas diárias desde os 17 anos e faz por volta de 50 quilômetros por semana. Em um ano, são 54 mil piscinas de 50 metros. Nos nove anos de treinamento, foram 240 mil quilômetros, ou 20 voltas na Terra. Mais que muito transatlântico por aí.

Para ser o primeiro, Cielo precisa antes de tudo se convencer de que é o melhor. Não há outro jeito. É o que os americanos chamam de “get psyched” – o esforço para entrar num estado mental de foco intenso, algo próximo ao transe. Ele dá seus famosos tapas no corpo, que o deixam vermelho. Uma vez na água, não toma conhecimento dos competidores. “Não tenho satisfação em derrotar outra pessoa”, diz. “Ganhar de mim é mais legal.” Pergunto qual então seria o esportista que ele mais admira – mesmo que, no fundo, eu já soubesse a resposta. Só poderia ser o brasileiro que descrevia em termos quase religiosos sua relação com a vitória: Ayrton Senna. Era ele mesmo. Como Senna fez ao se mudar para a Inglaterra em 1980, Cielo foi em 2006 para Auburn, um fim de mundo no interior dos EUA, cuja faculdade tem a fama de formar os melhores nadadores do planeta. Aguentou um tranco violento sob a batuta de técnicos preconceituosos, suportou o marasmo de uma cidade com 23 mil habitantes e só dois bares, dividiu quarto com um nadador que descreveu como “meio maluco”. “Em vários momentos eu acho nadar uma merda”, confessa. “Tem dia em que olho para a piscina e quero me matar.” Por que, então, passar por tudo isso? “Porque sempre penso que tem um buraquinho ali em que dá para melhorar um centésimo. E é esse um centésimo, quando conquistado, que me dá satisfação e me faz pensar: ‘Eu sou foda. Eu sou o cara’.”

Quando está treinando, Cielo passa os dias pensando na marca que deseja bater. Escreve o tempo em pedaços de papel que cola pela casa. Em abril, superou sua melhor marca da era pós-trajes tecnológicos, fazendo 21 segundos e 38 nos 50 metros livres – está a apenas dois centésimos do recorde do francês Frederick Bousquet (também sem o traje; o recorde oficial é de Cielo). Avisou que conseguiria, mesmo depois de o jovem brasileiro Bruno Fratus cravar, nas eliminatórias, um tempo melhor que o dele até ali. Ficou satisfeito? Não. Saiu da piscina prometendo depilar o corpo inteiro para melhorar o tempo em Londres. Já não come sobremesa desde janeiro, também de olho no condicionamento. Peço a ele que fale sobre a sensação do triunfo: “Você se sente o maior cara do mundo. Sinto que fiz o que eu era capaz na frente de todos. Sinto-me acima dos outros. Essa onda dura uns cinco minutos”.
No dia da entrevista com ALFA, Cielo estava bastante relaxado. Havia acordado às 11 da manhã, almoçado arroz integral, feijão, legumes no vapor e filé de frango – o arroz ele próprio cozinhou. Sua rotina agora é treinar em São Paulo, onde mora, numa estrutura que ele próprio ajudou a construir, chamado P.R.O. 2016 (sigla para Projeto Rumo ao Ouro 2016). Para abandonar a gelada Auburn de vez, teve ajuda de Alberto Pinto da Silva, o Albertinho, com quem treinou na juventude, para montar protocolos de alto rendimento. Desde o início de 2011, exercita-se com outros atletas na piscina do Complexo Olímpico do Ibirapuera, em São Paulo. “Já me perguntaram se eu não tinha medo de um daqueles caras me superar. Falei que não. Sempre soube que por mais que eu ensinasse, o cara nunca ia fazer igual a mim nem a pau”, diz. “Não dava para ser só o Albertinho, eu e os azulejos. Tem de ter outras dores de cabeça para desviar de mim. Aí montei esse grupo nem só pensando em performance, mas também porque nadar ao lado de um chato é ruim demais”, diz.

O grupo elegeu cinco palavras como lema. Em ordem alfabética: ambição, comprometimento, excelência, positividade e superação. Decidiram que as palavras não seriam escritas em lugar algum da área de treinamentos. O técnico Albertinho, no entanto, chegou com uma surpresa: tatuou-as no braço direito. Cielo também quebrou a promessa de não gravá-las. Escreveu “excelência” num pedaço de papel e colou na geladeira. Ele gosta de palavras. Ler é o que mais faz quando está treinando pesado. Devorou as biografias de André Agassi e Roger Federer. Seu livro favorito é Coming Back Stronger, sobre a história do técnico de futebol americano Drew Brees, que aceitou o desafio de treinar os New Orleans Saints logo após o furacão Katrina deixar 80% da cidade submersa e acabou campeão. Durante a conversa, ele pediu um suco antissinusite – uma mistureba de hortelã, água de coco, gengibre e mel que prometia aliviar os sintomas da doença que o acompanha há muito tempo e faz doer a cabeça sempre que ele se abaixa para pegar alguma coisa. Para Cielo, como para qualquer atleta, tratar uma enfermidade é algo a se fazer com muito cuidado. “Sempre ligo para meu pai, que é pediatra, e temos um médico que nos acompanha. Se vou passar um colírio, telefono para eles”, declara. Muito se falou sobre o resultado positivo do exame antidoping antes do mundial da China, no ano passado. Ele alegou que as cápsulas de cafeína que tomava (tem problemas estomacais que o impedem de beber café) foram contaminadas pela substância furosemida, um diurético usado para mascarar doping, em uma farmácia de manipulação de Santa Bárbara d’Oeste. Se fosse punido, ficaria fora do Mundial e poderia até ser afastado da Olimpíada. Após algumas semanas de tensão, foi absolvido em todas as instâncias, inclusive no Tribunal Arbitral do Esporte, a mais alta da cadeia. A forma como ele lidou com a situação impressionou até os mais próximos. “Não sei por que tenho tanto prazer em competir. No tribunal foi a mesma coisa: eu sabia que seria absolvido e ganharia as duas provas.” Foi o que aconteceu.

Sob muitas críticas, Cielo saltou na piscina do Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos, em Xangai, na China. Venceu a prova dos 50 metros borboleta, modalidade que nem é seu forte. Na prova dos 100 metros, cravou o melhor tempo de sua vida, embora tenha ficado em quarto. Nos 50 metros livres, permaneceu invencível. “Eu sabia que tinha de subir no bloco e ganhar. Meu pai e minha mãe ficaram um mês sem comer, um mês sem dormir por causa disso. Não vou falar que estava tranquilo, mas eu sabia que tinha de subir lá e ganhar.”

Ele repete uma espécie de mantra contraditório na essência: “Não é que esteja faltando algo, mas é que dá para ser melhor”. Pergunto se é verdade a lenda de que atleta pode comer pizzas e macarrão o dia inteiro, como falou o americano Michael Phelps (vencedor de oito medalhas de ouro em 2008). “O volume de comida é grande, não vou mentir. Mas não dá para comer uma pizza antes de dormir”, esclarece. Ele não evita, no entanto, alguns prazeres. “Se eu achar que comer uma besteira vai fazer bem para a minha cabeça, vou comer.” Se é difícil para ele próprio suportar a obsessão com a perfeição, tente imaginar o que é para quem o circunda. Quando não alcança o tempo desejado após uma competição, como aconteceu nos 100 metros do Troféu Maria Lenk, ele fica isolado por mais de uma hora. “Quando não faço o que queria, fico muito bravo. Bem bravo mesmo.” Então, vou direto ao ponto: César Cielo, as pessoas acham você um chato? “Sim”, ele desabafa. “Meus pais já se acostumaram. No Pan-Americano ganhei o apelido de ‘garoto enxaqueca’. Dou esporro mesmo. Não trabalho muito bem com surpresa.” Se ele encana que pode deslocar o ombro carregando uma mochila – e isso acontece, às vezes –, pede que outra pessoa a carregue.
Outra peça no quebra-cabeça Cielo: os cinco anos de Estados Unidos. “Uma das coisas que mais me encantaram nos EUA é que se a reunião é às 5 h, às 5h5 está todo mundo sentado na mesa”, diz. E reflete por um momento para revelar que conhece também o lado ruim da caretice. “Às vezes eu me sentia meio tolhido, assustado. Passava dirigindo ao lado de um policial, sabendo que não fiz nada de errado, mas apertava o volante. Lá, o respeito e educação funcionam na base do medo e da repressão.” Para ele, o americano nasce “vencedor”. “Mas se o cara não suporta pressão, não vai para frente.” Ele, que é apaixonado por futebol americano (seu jogo preferido no videogame), revela que só há uma pessoa que gostaria de ser no mundo: “Tom Brady, quarterback dos New England Patriots e casado com Gisele Bündchen”. Cielo já foi fotografado ao lado de modelos e misses em casas noturnas e assumiu alguns namoros. Parece ter sossegado ao lado da Miss Brasil 2011, Priscila Machado. “Nunca tive um relacionamento longo. Só com a piscina. Essa não me larga. Eu brigo com ela, a gente discute, mas no fim sempre fazemos as pazes”. Ele evita sair em São Paulo por causa do assédio. “Muitas mulheres vêm puxar papo. Estou conversando com um amigo, viro para pedir um drinque e quando eu volto tem uma mulher parada na minha frente.” Mas não se importa de ser fotografado bebendo. “Com meu pai, tomamos uma garrafa de vinho na boa. No México, cada um da equipe comprou uma tequila porque diziam que aquela era a melhor. Tivemos de beber todas, não é?” Atleta pode beber, sim. “A galera da natação é a mais forte. A gente fica bêbado, mas não cai.”

Chega o momento de ir embora. Continuo com a impressão de que ele não entende muito bem por que tudo isso aconteceu em sua vida. Pergunto se esperava que as coisas chegassem tão longe, se tinha ideia de que aprenderia tanto – e de que seria cercado de tanto dinheiro (seis patrocinadores o bancam), atenção, polêmicas, fanatismo e, claro, mulheres bonitas. “Eu costumo falar para a minha mãe que só estou tentando nadar rápido. Só estou tentando nadar um pouquinho mais rápido do que nadava antes.”

Braçadas vencedoras
Onde e como ele encontra motivação? O que come? Como se preparar para o imprevisível? Por que tanto ódio de escritório? As lições de César Cielo para você

Corpo

“Às vezes você treina mal num dia e, só de raiva, passa num fast food depois. Aí você se ajuda a treinar ain­da pior no dia seguinte. Quando faço essa cagada, eu deixo passar e foco no próximo passo.”

Um almoço saudável: arroz integral, feijão, legumes no vapor e filé de frango.

“Não tenho problema em sair para a balada e ser fotografado bebendo. Faço tudo o que tenho de fazer. Sou um cara disciplinado. Se quiser falar mal, vem passar comigo os seis meses aguentando o que eu aguento.”

“Eu dirijo mais quando saio de São Paulo e vou para Santa Bárbara d’Oeste ver meus pais. Se quero acelerar, co­loco uma música mais alta. Senão, vou bem tranquilo, de Jack Johnson (compositor de rock surfista) e piloto automático para não tomar multa. É quando relaxo.”

“Se você treina, precisa comer direito. Mas vai comer três hambúrgueres? Uma pizza? Claro que não. Vai comer oito filés de peixe, por exemplo. Porque a quantidade de gordura que tem na pizza ou no hambúrguer você pode dividir em mais alimentos que tenham alto valor nutricional. No lugar de se entupir de fast food, você come um pratão de arroz com feijão, outro de carne e outro de legumes.”

“Se eu achar que comer uma besteira uma vez ou outra vai fazer bem para a minha cabeça, eu vou comer. O pro­blema é ficar dois dias se culpando depois, se martirizando.”

“Vou nadar até ter motivação. Queria ir até 2020, pelo menos no revezamento. Não sei como vai ser a transição de gerações. Se vier uma galerinha forte, vai ficar mais difícil.”

Mente

“Resultado ruim sempre tem explicação. Ou você estava nervoso, ou não treinou o quanto deveria.”

“Eu não tento ser melhor do que ninguém. Não há satis­fação em derrotar outra pessoa. Fazer o que eu projetei é o objetivo. Várias vezes fiquei em quarto lugar, satisfeito porque consegui o tempo que queria.”

“Tem dia que olho para a piscina e quero me matar. Mas aí penso no que estaria fazendo, talvez num escritório, e encontro motivação para nadar mais forte.”

“Atletas têm de estar preparados para o imprevisí­vel. Esperando o melhor mas preparados para o pior.”

“Você precisa eleger suas prioridades. Fui CDF até o segundo colegial, mas quando passei a fazer parte da seleção brasileira em 2004, escolhi o esporte.”

“Toda vida tem seus pontos baixos. Acha que eu adoro ficar seis meses isolado? É comum eu chegar em casa às 7 da noite, jantar e dormir às 8h15. Nesses dias dou graças a Deus pela casa vazia. Eu próprio não gostaria de ficar comigo.”

“Em vários momentos, acho nadar uma merda. Termino uma prova em que acho que fui bem e já penso: tem um buraquinho aí em que dá para melhorar um centésimo.”

“Não sei por que tenho tanto prazer em competir. Acho que, no fundo, sabia que ia ganhar tudo.”

“Se está todo mundo fazendo certo, por que tem um
esperto que quer passar na frente dos outros?”

“Se pego uma música de que não gosto, jogo fora. Se gosto, escuto por anos. Livro, a mesma coisa.”

Matéria publicada na Revista ALFA  em junho de 2012.