oão Grandino Rodas tira um pequeno pente do bolso do paletó e ajeita o cabelo, tingido de castanho-escuro. Ele se ajeita para as lentes do fotógrafo de ALFA na sala onde são pendurados os quadros com todos os reitores da Universidade de São Paulo. “Por mim, nem teria quadro meu aqui”, diz. “Não faço questão disso, não gosto de aparecer”. O reitor da USP é um homem discreto, mas está no centro de acontecimentos na instituição que vêm gerando polêmica nacional. A confusão mais recente ocorreu em janeiro, quando dois policiais foram afastados por agredir um aluno. A cena foi parar no YouTube. E este ano promete: há rumores de que a reitoria vai retomar em fevereiro o último espaço em poder dos estudantes, a “moradia ocupada”. Transformada em acampamento, trata-se de um bloco de escritórios que fica ao lado da moradia estudantil, o Crusp. “Durante anos, não reagir foi tido como democrático, mas os tempos mudaram e a comunidade acadêmica não aguenta mais”, diz ele.
No cargo desde janeiro de 2010, Rodas é um jurista de 66 anos (sendo 46 de USP), zelador do orçamento de 3,7 bilhões de reais, recolhidos em impostos, que banca a maior instituição pública de ensino superior do país, com 11 campi e 89 mil alunos matriculados, 50 mil deles no Butantã. Seu projeto de modernização inclui reformas e construções (estão previstos gastos de 120 milhões de reais até 2013); investimento em pesquisa (mil alunos vão receber bolsas para estudar fora este ano) e aumento dos convênios de cooperação com universidades internacionais. Para cumpri-lo, afirma que abrirá mão das férias até o final da gestão, não fará viagens internacionais e seguirá trabalhando em sua média diária de 12 horas. “Não dá para achar que nós somos os melhores e sempre seremos. Não quero que a USP vire uma Kodak, que deixou passar a máquina fotográfica digital e parou no tempo”, compara. Ele se mostra impaciente com a burocracia. “Não é possível passar quatro anos discutindo a troca de uma luminária.”
Também parece que terminou sua paciência para lidar com o grupo de radicais que mobilizam uma minoria na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), na Escola de Comunicação e Artes (ECA) e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Rodas é acusado por eles de truculento, antidemocrático e de “militarizar a universidade como nos tempos da ditadura”. Há uma revolta contra a presença da Polícia Militar. “Não fui eu quem chamou a PM aqui”, diz Rodas. A corporação sempre entrou e saiu livremente do campus, mas, após a morte de Felipe Ramos de Paiva, estudante da Faculdade de Economia e Administração (FEA), em maio passado, o conselho gestor da universidade — do qual o reitor não faz parte — elaborou um convênio para patrulhas. O acordo foi aprovado em setembro e, no mês seguinte, três alunos foram apanhados com maconha, o que acabou motivando a invasão da reitoria. “Você senta para debater com esse pessoal e não há uma pauta objetiva. Eles querem ‘uma nova ordem social’ e a cada reunião aparecem caras novas, reivindicando coisas diferentes”, declara Rodas. “A intenção deles é gerar o caos. Para eles, se morrer alguém, melhor.”
Segundo o economista e especialista em educação Claudio de Moura Castro, o reitor mostra mais coragem para enfrentar “assombrações” que sua antecessora no cargo, Suely Vilela. “Suas atitudes prestigiam a eficiência, enfrentam a demagogia e os barulhentos”, afirma. “Se não houver investimento em infraestrutura e uma busca pela internacionalização, há o risco de a USP ser superada em qualidade de pesquisa pelas Federais de Minas Gerais e Rio Grande do Sul”, acredita. Rodas foi nomeado para o cargo pelo ex-governador José Serra, mas nega ser seu amigo e se confessa apolítico. “Também fui indicado para cargos por Itamar, FHC e Lula. Adivinha quem foi o único que me convidou para viajar no avião presidencial? O último.” Ele se tornou o candidato favorito quando chamou a PM para expulsar 400 manifestantes de movimentos sociais que pretendiam passar 24 horas acampados na Faculdade de Direito, da qual era diretor, em agosto de 2007. Em maio daquele ano, Suely não impediu uma ocupação da reitoria que durou 57 dias, até os alunos se cansarem e saírem por conta própria.
Nas últimas duas décadas, a USP ficou parada por 400 dias (dois anos letivos inteiros) por causa de greves e piquetes. Com a PM, o crime no campus diminuiu — entre setembro e janeiro de 2012, comparado ao mesmo período de 2011, os roubos em geral caíram de 13 para 9 (menos 30%) e o furto de veículos de 24 para 3 (menos 87%). Por outro lado, estudantes, funcionários e professores passaram a lidar com a revista de mochilas, pastas etc. “Perdem os dois: a gente, que chega atrasado à aula, e a polícia, que poderia estar prendendo um bandido em outro lugar”, diz Renan Siqueira, estudante de Física. “Todos nós sabemos que a polícia tradicional comete abusos, por isso o plano é o de um policiamento comunitário”, afirma Rodas. “O policial deve ter um preparo diferente para suportar o tipo de provocação que os alunos fazem a eles aqui”.
Os invasores da reitoria responsabilizam Rodas pelo confronto na reintegração de posse, que acabou com 72 pessoas detidas. Dentre elas, 18 não tinham ligação com a USP. “Ele poderia ter resolvido por vias pacíficas, mas preferiu a repressão”, diz o estudante Rafael Alves, líder do grupo mais radical. Após a detenção, Rodas não apareceu e nem mandou representante. Há um vídeo em que os revoltosos perguntam se ele existirá mesmo. Na Faculdade de Direito, ele fez uma gestão elogiada — mas autorizou, no seu último dia de trabalho, a transferência de 160 mil livros de uma biblioteca para um prédio anexo. O que era para ser resolvido em dois meses virou um imbróglio de quase um ano. Após uma série de desentendimentos com o atual diretor, Antonio Magalhães Gomes Filho, que incluiu até uma briga sobre a tutela de tapetes orientais de 30 mil reais, Rodas foi declarado persona non grata em setembro, algo inédito na história da faculdade. “Ele nunca levantou a voz, tem um relacionamento cordial com todos, mas não é amigo de ninguém. Me parece uma pessoa insensível”, define o professor Sérgio Salomão Shecaira, que convive com o reitor há 20 anos. Mesmo o procurador-geral da USP, Gustavo Monaco, um de seus interlocutores mais próximos (o professor foi seu orientador de doutorado e padrinho de casamento), conta que nunca foi convidado para almoçar ou jantar em sua casa. “Ele falta ao meu aniversário, mas vai aos dos meus filhos”, diz Monaco.
Tanta reserva pode ter origem em duas tragédias pessoais. Rodas perdeu seu único filho, Omar, aos 16 anos, em 1990. À época, o adolescente morava num colégio interno nos Estados Unidos e teria sido baleado na cabeça com um tiro de espingarda — há a hipótese de ele ter cometido suicídio ou sofrido um acidente ao manusear a arma. Danuza Fontana, sua mulher, filha de Omar Fontana, dono da Transbrasil (onde o reitor trabalhou no começo da carreira), e neta do fundador da Sadia, Attilio Fontana, não conseguiu superar a depressão e cometeu suicídio em 1996. “Eu era muito apegado ao meu filho”, diz Rodas. “Superei a morte dele, mas não quis voltar a me casar ou ter filhos. Quando você passa por uma experiência dessas, não quer viver outra.” Ao ficar viúvo, voltou a morar com os pais. Ainda vive com a mãe, Josefina, de 87 anos, que eventualmente o acompanha em público. Sua presença limita-se a eventos “em que há uma razão para ir”. No tempo livre, gosta de cuidar do jardim de casa, no bairro do Morumbi, e tocar piano (além do Direito, tem diploma de Música, Educação e Letras). A residência levou sete anos para ficar pronta e tem vitrais feitos artesanalmente. Sete anos? Tudo isso? “Eu nunca peguei dinheiro emprestado”, orgulha-se.