A culpa não é sua
O rótulo de homofóbico foi banalizado? Para o escritor GUY FRANCO, o problema é da patrulha que acha que, se você não apoia a causa, você odeia os gays

Eu deveria falar de casamento igualitário ou de adoção por casais homossexuais, mas tenho preguiça. Enquanto fazem marcha pela aprovação do projeto de lei que criminaliza a homofobia, estou pensando em comprar meias. Acabei de me dar conta de que preciso de meias. Antes de querer mudar a realidade, da qual entendo pouco, preciso dar um pulo no shopping. Não é só porque sou gay que devo lutar pela causa ou sequer me preocupar com ela. Os bullyings que sofri na infância por ser um pouco diferente foram resolvidos e revidados lá atrás, de modo que não cresci com essa vontade toda de mudar o mundo. Apoio a causa, claro, mas tenho mais com o que me preocupar. Ao defender o direito de tomar minhas urgências pessoais como prioridade, em vez de sair à rua para protestar exibindo meu abdome trabalhado, apareceu quem me acusasse na internet de ser um infiltrado na comunidade LGBT. Fui comparado por um ativista a um cara que matou um homossexual e um modelo, na Rua Oscar Freire, em São Paulo, no ano passado. Agora é assim: qualquer ideia sua que vá contra o pensamento de quem está na luta pelo fim da homofobia, e logo aparece alguém para acusá-lo de homofóbico; senão, de fascista. Fascismo, aliás, de acordo com a novíssima definição, é tudo aquilo que vai contra a opinião de alguém.
Essa mania de querer separar o mundo em dois, com simpáticos à causa gay de um lado e homofóbicos de outro, é de uma baixeza sem tamanho. Quem não está preocupado com uma causa não é contra a causa, só tem mais o que fazer. Se quiserem enfiar na sua cabeça que parte da culpa pelos crimes de ódio no Brasil é dos que se omitem, pode revidar dando petelecos no lóbulo deles. Um para cada crime sem envolvimento seu.
Há por aí uma gente de bem, transbordando de boas intenções, que põe a sexualidade antes dela mesma. Acreditam que dessa maneira estão contribuindo para o fim do preconceito. Falam do orgulho gay. Mas eu não gostaria de ser lembrado somente por minha sexualidade. Não sei você, mas tenho mais a oferecer. Penso quão deprimente seria, por exemplo, se tivesse uma avó falecida cuja única qualidade, ou ao menos a mais destacada, fosse sua heterossexualidade. Grande dona Ilda e sua heterossexualidade sapeca!
Acredito que homossexuais têm pelo menos dois momentos importantes na vida: sair do armário e desvencilhar-se da imagem de que são apenas gays. A preferência sexual pouco importa, fica em segundo plano. Fazer da homossexualidade algo extraordinário é pedir para ser tratado como ser de outro mundo. E não é exatamente contra isso que a militância luta? Antes de me lembrar que Oscar Wilde era homossexual, penso nele como autor. Também Proust. Ou Gore Vidal. Se saltitavam, não sei; o respeito que têm não veio daí. Torço para Laerte ter a mesma sorte e ser lembrado como cartunista.
O problema é exagerar, enxergar incitações à violência onde não existem; comprar picolés para tentar encontrar o palito premiado com homofobia, xenofobia ou racismo. Já me chamaram de tudo quanto é nome apenas por não concordar com algumas das maneiras como conduzem essa busca pela justiça, como se na causa LGBT não houvesse falhas. Espero que aprovem todas as reivindicações do movimento para que possamos mudar de assunto e falar de algo mais interessante. E se não aprovarem o casamento gay, tem sempre um jeito de trapacear o Estado. Por esse lado, é até bom que não saiam institucionalizando qualquer reivindicação. Quando o Estado concorda com um pensamento seu, fica sempre aquela sensação desagradável de que você não está no caminho certo. Ser gay está perdendo a graça um pouco por causa disso, querem oficializar tudo. Estou pensando em adotar uma minoria mais subversiva. Será que é muito tarde para eu virar boliviano?
NOVE MANEIRAS SIMPLES E INOFENSIVAS PARA VOCÊ EVITAR MAL-ENTENDIDOS
1. Não use o termo homossexualismo perto de um gay. O correto, vão lhe dizer, inflando o peito, é homossexualidade. Lesbianismo, até onde sei, pode. Lésbicas não têm essas frescuras.
2. Gays costumam ter fixação por barracos, principalmente envolvendo subcelebridades. Descubra algo a respeito de um barraco atual e você terá material suficiente para bater papo com um homossexual. Tombos de gente famosa também rendem.
3. Música pop é o futebol dos gays. Veja se o cara torce para o time Gaga, Britney ou Madonna antes de sair falando mal de alguma delas.
4. Pode ajudar: curtir a página de Almodóvar no Facebook; compartilhar qualquer texto falando mal do Bolsonaro ou do Silas Malafaia; saber, de cabeça, o nome das principais subcelebridades; ter maldade na hora de criticar a roupa dos outros.
5. Gays não são de outro mundo. Aja de modo natural. Eles têm imunidade contra a maioria dos palavrões, que surtem o efeito contrário justamente por eles gostarem da coisa. Use isso a seu favor.
6. Atualize-se, as expressões LGBT mudam a cada segundo. Em vez de dizer que apoia o casamento gay, diga que apoia o casamento igualitário.
7. Citar Foucault, por algum motivo, pega bem. Não importa o assunto, procure encaixar uma citação de Foucault. Logo virá um olhar de aprovação.
8. Todo mundo pertence a uma minoria, até você. Descubra a sua e conte, em solidariedade, como foi passar por situações difíceis.
9. Nunca fale mal de Glee.












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18 comentários
Dígno! Assim posso resumir minha “instiga” ao ler teu texto.
Váriossssss problemas no seu texto. Sem querer ser agressivo, mas já sendo, destaco:
1. Os bullyings que sofri na infância por ser um pouco diferente foram resolvidos e revidados lá atrás, de modo que não cresci com essa vontade toda de mudar o mundo.
Comentário: A luta contra a homofobia na escola não é uma terapia para os que dela foram vítimas. Mas sim uma tentativa de evitar que ela continue se repetindo. Percebe a diferença?
2. em vez de sair à rua para protestar exibindo meu abdome trabalhado
Comentário: hahaha vc precisa ler Bakthin, querido. Pra entender que carnaval e abdômen à mostra tb podem ser uma forma de política. A inversão da ordem, a liberdade no uso dos corpos, blá, blá, blá. Antes de fazer coro a essa idiotia que classifica as paradas gays como não políticas, estudeeeee.
3. Essa mania de querer separar o mundo em dois, com simpáticos à causa gay de um lado e homofóbicos de outro, é de uma baixeza sem tamanho. Quem não está preocupado com uma causa não é contra a causa, só tem mais o que fazer. Se quiserem enfiar na sua cabeça que parte da culpa pelos crimes de ódio no Brasil é dos que se omitem, pode revidar dando petelecos no lóbulo deles. Um para cada crime sem envolvimento seu.
Comentário: Baixeza é pessoalizar uma questão que é pública. Demandar uma tomada de posição diante da violência diária à qual estão submetidos os homossexuais é fazer uma apelo à cidadania. Infelizmente, no Brasil, viceja essa postura individualista e canalha dos que insistem em fechar os olhos e arrogar-se o direito de não tomar partido.
Eu passaria horas apontando seus tropeços. Mas encerro afirmando: é preciso ler mais antes de emitir opiniões tão equivocadas sobre o assunto.
Abs
Quanta bobagem…
Trabalho num departamento onde há um homossexual, sempre o tratei bem, com respeito, mas, ele confundiu tudo, falou de coisas que jamais aconteceu para um grupo, o boato espalhou-se empresa afora e eu fiquei numa situação constrangedora. Tomei as medidas mais sensatas e a partir dai fui ameaçado pelo homossexual dizendo ele que poderia me denunciar por homofobia sendo que eu não o agredi de nenhuma maneira por causa opção sexual, enfim, ainda existe uma enorme confusão por aqui.
Não odeio gays, mas a partir deste episódio tenho os evitado.
Anonimo7, eu sou gay e já tive alguns constrangimentos com colegas de faculdade/trabalho que confudiram gentileza, atenção, empatia com outras coisas tb. Foi mt chato pq eu nao sou afeminado, mas tb nao sou enrustido. De tanto imprensão, tive que abrir o jogo e me expor a comentários desnecessários de quem se sentiu rejeitada. Ou seja, gente carente e com problema tem em todo canto. Se esse gay que trabalha contigo agiu mal, tome cuidado pra não estender a antipatia a todos os outros.
Um texto inteiro tão bem feitinho para chegar no final e dar uma mancada dessa? Achei sua posição excelente e original, mas as generalizações da lista aí foram desnecessárias. Ou talvez eu seja do tipo que defende tanto a causa que acabam confirmando ainda mais a exclusão LGBT, vai saber…
Excelente ponto de vista, mesmo assim. (:
Citar Foucault pega bem porque Foucault é um pau de óculos.
Este texto é raso em tantos níveis que fica até difícil (e enfadonho) tentar rebater. Mas eu só queria deixar essa palavra mesmo: RASO.
“Não odeio gays, mas a partir deste episódio tenho os evitado.”
belo raciocínio! UM gay supostamente te sacaneou e você vai evitar todos?! bom, amigo, se você for esticar essa lógica (o que eu duvido) pra toda e qualquer espécie de ser humano você vai passar a vida… hum, não sei, evitando todas as pessoas do mundo? boa sorte, viu?
Eu estou frio para o que esse pessoal e as pessoas em geral pensam!
Sou contra casamento gay mas,não contra a união.
Sou contra um casal gay adotar filho.
E ainda mais contra essa banalisação da homofobia.
E a tentativa de amordaçar a sociedade para isso,com um lei anti homofobia, que,tentaram criar mas graças a Deus,foi vetada!
Nossa…que lixo de texto. Quantos estereótipos acerca de gays (realmente, todos se interessam por subcelebridades e…barracos?). Você também poderia ter começado seu relato edificante com não tenho preconceito, mas (insira aqui seu preconceito sob a forma de generalizações toscas). Se eu fosse uma pessoa que generalizasse como você diria que se trata apenas de mais um jornalistazinho medíocre querendo criar polêmica com uma opinião rasa e sem fundamentos.
A única coisa que você conseguiu com esse texto é provar que realmente é homofóbico e que o militante LGBT não errou no diagnóstico.
O bom é que, de agora em diante, vou usar o seu texto para exemplificar para meus colegas quando discutimos sobre o conceito de um oprimido reafirmar opressão, por esta estar enraizada no senso comum.
Não tome isto como ofensa pessoal, entendo seu papel de vítima no assunto, a alienação causada por se viver em uma cultura heteronormativa que é a culpada.
Guy, se você fosse, digamos, ruivo…
E aí todo mundo te odeia por ser ruivo. Por ser ruivo podem tentar te matar na rua com uma lâmpada quebrada. Se a sua família descobrir que você é ruivo, poderiam ficar muito decepcionados com a sua falta de caráter e te botar pra fora ou simplesmente nunca te tratar da mesma maneira. Ele vão encarar seu cabelo ruivo como uma coisa nojenta e na melhor das hipóteses a sua relação com eles vai ficar estranha (com a sua FAMÍLIA)… pra sempre.
Você não pode casar com quem você ama porque o governo não dá esse direito aos ruivos e você não pode adotar uma criança, porque, sendo ruivo, o governo prefere ver as crianças vivendo em orfanatos a sendo criadas e bem tratadas por uma pessoa que, como você, teve a ousadia de vir ao mundo com esse tom de cobre safado no cabelo. Você passa por todas essas injustiças e ainda tem de ler um texto ridicularizando os ruivos e dizendo que você bate demais da tecla na cor do seu cabelo, sugerem que você ESQUEÇA isso, apesar de todas as injustiças cometidas contra você. Dizem que você é chato por dizer que as pessoas são ruivofóbicas, mas você sabe que, e não fosse verdade, você teria todos esses direitos acima citados. Por sinal, você não tem. Além: a religião mais expoente do seu país é contra os ruivos, como se a violência física já não fosse o bastante. Você é reprimido em todos os lugares que vai e que percebem que você é ruivo. Você não pode beijar uma ruiva na rua, porque, EW! Dois ruivos se beijando. Que horror. Se uma morena beija um ruivo até vai. O problema não está exatamente em ser ruivo, mas em ter nascido ruivo. Faz sentido? Não? Pois é assim que vivem os gays.
E se os gays (ou os ruivos) fizeram a própria cultura para poderem frequentar meios/assuntos/rodas sociais onde se sintam confortáveis é porque o mundo não deu isso pra eles de outras maneiras.
Esse texto é uma pena. Um desserviço.
Eu espero que você esteja muito feliz brincando com uma questão muito séria, que pode não ser pertinente na sua vida, mas que afeta a todos os gays do mundo (e são muitos).
Ridicularizados.
Huilhados.
Diminuídos.
Por terem nascido como nasceram. Ruivos. Oops. Gays.
Parabéns pelo texto. Mesmo raso (como já disseram). Acho que a proposta do texto, curto e objetivo, não é pra ser analisado numa banca de academia. É mais um de sabafo e dicas de como se enquadrar num ambiente gay “médio”. Mas claro que as bibas não são todas iguais. Como em qualquer sexo, tem de tudo: gay educado/bafão, extrovertido/reservado, afeminado/machão, culto/fútil, leitor de Foulcaut/Men’s Health, etc. Rótulos são muito perigosos.
Raso, péssimo, cheio de generalizações ofensivas! Gostaria de curtir mil vezes o comentário do Rodrigo Dourado, excelente!
Parabéns por incentivar os gays a serem mais do que simplesmente gays. (Chega a ser absurdo parabenizar alguém por isso, por o problema mesmo ser absurdo, mas é o que temos.)
Só vim elogiar, não concordei com tudo, mas enfim… só passei mesmo pra deixar o elogio pelo texto.
Acho um total desperdício de espaço. Você não estuda sobre o que fala, você não reflete sobre o que escreve, você só ajuda a piorar o mundo.
A Alfa deveria rever sua linha editorial.