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Há sete meses, Lawrence Wahba filmava um grupo de ariranhas no Pantanal Mato-grossense. Havia descido do barco atrás dos bichos e estava distraído. De repente, se deparou com uma onça macho de mais de 100 quilos, em posição de ataque, a menos de 10 metros de distância. Com um salto preciso, um felino desses é capaz de quebrar o pescoço de um búfalo. Wahba fez o certo. Manteve a calma e não correu porque, para a onça, quem corre são suas presas. Parado, colocou a câmera que carregava nas mãos, uma Panasonic HPX 3700, grandona, em cima da cabeça para parecer ainda mais alto e dissuadir o animal do ataque. A onça pintada vacilou. E Wahba recuou devagar, até voltar ao barco. Com isso, manteve seu histórico: nunca sofreu um ataque de um animal vertebrado (águas vivas e mosquitos não valem) em 20 anos de expedições pelo mundo. “Não tenho medo dos animais. Meu receio é colocar a onça numa situação de estresse, ela me machucar e isso virar notícia contra o bicho”, explica.

Lawrence quer contribuir para um melhor entendimento da vida animal e da necessidade de preservá-la. Seu trabalho o levou a passar oito anos e meio viajando. Praticamente metade do tempo, ele fica fora de casa. Teve um casamento desfeito e sofreu de saudades dos filhos. Acha, porém, que o esforço compensa. Na série de três episódios sobre o Pantanal, que vai ao ar em outubro nos Estados Unidos e será vista em 160 países, Wahba tomou um susto, mas ficou muito entusiasmado com as onças, especialmente com uma sequência inédita de uma família que flagrou perto de Porto Jofre. “Conseguimos filmar, pela primeira vez, uma mãe, um pai e um filhote do maior felino das Américas andando juntos pela mata”, afirma. A produção do programa, a cargo da Bossa Nova Filmes e da National Geographic, consumiu 33 semanas de filmagem (duas equipes de três pessoas fizeram o serviço) e custou 2 milhões de reais. Onças-pintadas, também chamadas de jaguares, são animais com hábitos ainda muito pouco conhecidos. Sempre foram considerados solitários, mas essas novas imagens provam que não é bem assim – pode existir uma convivência frequente entre vários indivíduos da espécie e até casais fixos.

Wahba não usa armas. Nem mesmo arpões dentro da água, onde se notabilizou como cinegrafista. Em terra, não leva rifles ou pistolas de ar e afirma que seu principal recurso de defesa para evitar acidentes é a própria experiência com os bichos e o conhecimento prático dos guias locais que sempre o acompanham. Ele busca inspiração nas ideias do cacique americano Dan George – que dizia que devemos falar com os animais para conhecê-los, pois o que não conhecemos, tememos, e o que tememos, destruímos. “Não sei se falo com eles, aliás, confesso: eu falo com eles, mas tenho vergonha de dizer.”

Paulistano, 43 anos, formado em cinema pela Faap e mergulhador desde os 7 anos, Wahba foi o primeiro cinegrafista brasileiro a ter a gaiola de proteção mordida por um tubarão-branco em águas australianas (e registrar o incidente) ou a filmar a nierpa, pequena foca de água doce, submersa no lago Baikal, na Rússia. São dele também as primeiras imagens de uma sucuri gigante debaixo da água. Em 2003, o documentário A Ilha dos Golfinhos, sobre os golfinhos roteadores de Fernando de Noronha, dirigido por ele e Rodrigo Astiz, ganhou a Palma de Bronze no festival de Antibes, na França. O prêmio abriu-lhe as portas do programa do Faustão, na TV Globo, onde passou sete anos fazendo reportagens sobre a vida animal e popularizou seu trabalho.

“Fui um aventureiro no começo da carreira, quando saí pelo mundo atrás de tubarões. Hoje o que faço são expedições”, diz. Um balanço dessas expedições poderá ser visto a partir do mês que vem na série Diários de Lawrence Wahba, com dez episódios de meia hora, no canal da National Geographic. Até o fim do ano, ele ainda vai filmar onças e animais aquáticos, para os projetos Biomas Brasileiros, da TV alemã, e Wild Brasil, da BBC, que irão ao ar na época da Copa. “A onça é um bicho muito difícil de filmar, mas hoje me sinto um especialista.”

 

Matéria publicada na Revista ALFA de agosto de 2012.