Eram 9 horas da manhã em Boulder, cidadezinha a 45 minutos de Denver. Eu não havia comido nada desde as 10 horas da noite anterior. Ao chegar a Avery, uma das melhores microcervejarias da região, perguntei se havia algum petisco para forrar o estômago antes de começar a degustação de seus 18 rótulos. O garçom respondeu categórico: “Claro!” Segundos depois, voltou com um copo de 450 mililitros repleto de um líquido amarelo-ouro, coroado por uma linda espuma cremosa. “Este é nosso café da manhã: cerveja de trigo fermentada com maracujá.” Refrescante, levemente ácida. Um ótimo jeito de começar o dia. Fiquei por lá durante 4 horas. Visitei a fábrica, bebi muito e, quando o lugar começou a ficar insuportavelmente cheio, por volta das 13 horas, saí trançando as pernas. Esse foi apenas o início do tour que realizei no final do ano passado pela meca das cervejarias artesanais americanas.

O percurso que vai de Colorado Springs a Fort Collins, no estado americano do Colorado, não impressiona: nenhuma floresta, praia, cânion, lago ou vulcão. Quem, desavisadamente, percorre os 200 quilômetros entre as duas cidades só nota as estradas perfeitamente pavimentadas e sinalizadas, os imensos shoppings e lojas de móveis e certa confusão no trânsito na entrada de Denver, capital do estado. Nada que as diferencie de outras milhares. Mas quem dirige por lá desavisadamente perde algo sensacional, uma constelação de maravilhas localizadas em saídas estreitas e galpões supostamente sem graça: 74 cervejarias artesanais. Em outros termos, o “Napa Valley da cerveja”.


A comparação com a famosa região de vinícolas na Califórnia não é à toa: em nenhum outro estado americano existem tantas cervejarias per capita e se ganha tanto dinheiro vendendo o líquido e tudo o que se refere a ele (camisetas, abridores de garrafa, porta-copos, copos, geladeiras e brincos, entre outros produtos). Há também vários serviços especializados para levar os turistas a expedições ao local (veja quadro ao lado). Fiquei três dias nesse circuito, um verdadeiro parque de diversões etílico, o mais perto que cheguei do paraíso. Bebi tantos rótulos diferentes que meu HD cerebral mal conseguia dar conta das classificações — pale ales, bitters, American-style sour ale, American-style malt liquors, wheat wine ales, wood and barrel aged strong stouts, British-style barley wine ale, pumpkin beer

Meu companheiro de viagem foi o cervejólogo belga Xavier Depuydt, radicado no Brasil desde 1998 e proprietário da importadora Belgium Beer Paradise, em São Paulo. Ele é uma das pessoas com maior conhecimento e capacidade de ingestão de bebidas que já conheci. Além da Avery e seu café da manhã genial, visitamos vários outros produtores locais, como a New Belgium. Fundada em 1991 por Jeff Lebesch, um americano louco por cervejas belgas, a empresa, sediada em Fort Collins, cresceu de forma estrondosa nos últimos cinco anos, puxada pela imensa aceitação de seu primeiro rótulo, a Fat Tire. Em 2008, a New Belgium produzia mais do que conseguia vender; hoje, mesmo com o quíntuplo do volume, não consegue atender a todos os estados americanos. Sua sede tem uma bonita sala de degustação que deixa à vista, por detrás de um grande vidro, uma parte dos barris de aço inox dos quais saem seus 30 rótulos. Dois deles, poderia beber pelo resto dos meus dias: La Folie (sour, ácida e intensa) e Sunshine Wheat (feita de trigo, com adição de coentro e raspas de casca de laranja).

O fato de o Colorado ter se tornado a meca da cerveja na América nasceu de uma conjunção de fatores. Um deles é a excelente qualidade da água presente nos lagos, no subsolo e nos rios das Montanhas Rochosas. Existem cervejarias no estado desde 1800, mas só de dez anos para cá houve a explosão da homebrewing nos Estados Unidos (a fabricação caseira), tornando-se o hobby de cerca de 750 00 aficcionados que compram kits para fazer sua própria bebida em mais de três dezenas de sites, com preços que variam de 100 a 500 dólares, ou nas 600 lojas espalhadas pelo país.

“Em Denver temos também a Associação Americana de Cervejeiros Artesanais e a maior festa da bebida no país”, diz Julia Herz, diretora da Craft Beer Association, instituição incentivadora da produção independente. A festa a que ela se refere é o Great American Beer Festival, eleito pelo Guinness Book o evento com a maior variedade de cerveja no mundo e realizado há 28 anos (em 2011, acontecerá de 29 de setembro a 1º de outubro). Na edição que acompanhei, no final de 2010, quase 60 000 pessoas viciadas em lúpulo esgotaram os ingressos (55 dólares por dia) dois meses antes do evento. Mas, diferentemente da Oktoberfest e de outras festas afins, o barato do Great American não é beber doses industriais, sair agarrando quem estiver pela frente e acabar a noite lambendo a sarjeta.

Um bom exemplo disso é o copo recebido na entrada, cuja marcação “dose de degustação” tem apenas 30 mililitros. O intuito é divulgar a cultura cervejeira artesanal, reunir pequenos produtores, eleger as melhores em 58 categorias e democratizar técnicas, sabores e experiências. Ele é a oportunidade de esses apaixonados entrarem em um mercado que movimentou quase 7 bilhões de dólares em 2009, ganharem prêmios por suas criações e fazerem delas sua principal fonte de renda. Para eles, premiações nacionais são as mais importantes: como produzem pequenas quantidades (só se enquadram como microcervejaria, ou cervejaria artesanal, produções abaixo de 15 000 barris por ano), jamais conseguiriam volume suficiente para exportar.

Ansiosa, cheguei 40 minutos antes de as portas abrirem no primeiro dia do Great American. Feito perua em começo de liquidação, queria ser a primeira a entrar para poder escolher com calma, pesquisar, provar sem ninguém me encoxar na fila. Durante a espera, imaginei de que forma me organizaria para dar conta de tudo: 2 000 cervejas em três dias. Numa matemática simples, cheguei à infernal média de 666 por dia. Mas, como o salão de degustação ficaria aberto somente das 17h30 às 22 horas, teria de entornar 148 cervejas por hora. Assim que foi autorizada a entrada, dei uns passos e fiquei parada no meio do imenso salão de eventos, abobada, olhando aquele mar de lúpulo nunca dantes por mim navegado. Vendo minha alegria quase infantil estampada desde o pé até a testa, um homem em seus 30 anos, vestindo short jeans, camiseta dos Rolling Stones e um colar gigantesco feito de pretzels — existe uma competição não oficial entre os frequentadores para ver quem veste o colar de biscoito mais elaborado e que, no final do dia, será inteiramente devorado como modo de evitar uma bebedeira homérica —, vira para mim e diz: “É, isto aqui é maravilhoso mesmo… Venho todo ano e é impressionante como aumentam o número de cervejarias participantes e a variedade de estilos”.


Nos três dias que durou a maratona do Great American, eu e meu companheiro Xavier batemos nossos recordes pessoais de degustação de cerveja. Em certa noite, mortos de fome e enjoados dos sanduíches vendidos nos pavilhões do evento, ele me fez a melhor proposta possível: comer. Quinze minutos depois chegamos a um… pub! O tradicionalíssimo Pints Pub, em Denver, é famoso nos Estados Unidos por servir uma variedade estarrecedora de uísque (210, de 15 diferentes países) e por fabricar 12 tipos de cerveja. Devoramos uma porção monstruosa de asas de frango apimentadas e um prato colossal de costela de porco defumada em carvão de maçã acompanhada de purê, e tomamos cerca de 1 litro cada. Depois disso, só restava uma opção: dormir.

“Mas não seja tão fraquinha!”, foi o que ouvi quando ousei dizer que iria colocar o pijama. O incansável Xavier me arrastou (quase literalmente) para outro bar da cidade: Falling Rock Tap House, o mais famoso e lotado do Colorado. Detrás do balcão, uma fileira quilométrica com 64 bicos de chope de todo o mundo (dos quais 45 americanos). No menu, mais de 100 rótulos de cervejas engarrafadas e trash food da mais alta estirpe: hambúrguer com bacon, batata frita com cheddar. No salão, o cheiro aconchegante de malte. No coração, só amor. No final da noite, um cálculo rápido me trouxe uma constatação chocante: até aquele momento, eu havia consumido quase 12 litros de cerveja. Sabe-se lá como. Meu deus, 12 litros!

Domingo, 8 da manhã. O telefone toca: era Xavier me chamando. Hora de conhecer mais um pouco do “Napa Valley”. Assim que botei os pés para fora da cama, notei que meu quarto estava com um cheiro fortíssimo de cerveja. “Será que deixei quebrar alguma garrafa?”, pensei. Mas não havia nem comprado uma garrafa. Eu tinha apenas suado. Eu exalava cerveja. Eu e outras 50 000 pessoas em Denver, muito provavelmente.

Horny Devil, Piranha Pale Ale, Java the Hut, Dos Pistolas, Van Damme, Bourbonic Plague, Fornicator. Pimenta, melão, bacon, goiaba, melancia, torta de limão… Os americanos são peritos em fazer experiências estranhas. No último dia do festival, indo contra todos os conselhos do experiente Xavier, me lancei no mundo dos nomes e ingredientes bizarros e ganhei uma azia fenomenal. Para rebater, dei um pulinho no pavilhão Farm to Table: com entrada cobrada à parte, o espaço é dedicado à harmonização de comida com cerveja e coloca à disposição dos famintos cinco entradas, seis pratos principais e três sobremesas, quantidade suficiente para fazer até o Rei Momo se empanturrar. Era exatamente assim que estava: empanturrada. Bem feliz depois de provar 123 cervejas, mas impossibilitada de encarar as outras 1877. “Quem sabe ano que vem”, pensei, resignada. Ao sairmos de vez do Great American Beer Festival, Xavier foi direto para uma loja comprar cervejas (claro!) para trazer para o Brasil. Eu, para um bar. Meu único pedido: uma garrafa, a maior disponível, de água. Até o paraíso enjoa.