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Ele age nos bastidores, no silêncio das horas fora do expediente. Com enorme intimidade com a empresa que o abriga, do porteiro ao presidente, anda com desenvoltura em corredores e salas. Fareja se há gente trabalhando ou se os chefões vão entrar num elevador e sabe aparecer à frente da direção nos momentos críticos, transmitindo a imagem de workaholic. Quando a maioria dos empregados está em casa, costuma acessar computadores e escaninhos. É o rato corporativo, também conhecido como ratocorp. Trata-se de uma espécie que desafia a própria extinção, mesmo após o surgimento da internet e do home office.

Não se trata de um ser abstrato. O ratocorp é tão real quanto você e eu. Neste exato momento, provavelmente exista um deles ao seu lado, que, com seu comportamento de roedor, está tirando proveito do trabalho dos colegas. Um ratocorp típico é em geral um cara legal, com inteligência mediana, desses indicados por headhunters e aprovado pelo departamento de seleção mais por repetir chavões e por ser afável do que por méritos intelectuais ou criatividade. A seu favor, ele domina bem um idioma estrangeiro e é discreto, ou seja, fica calado para não dizer bobagem. Suas características físicas peculiares (e principais vantagens competitivas) são olhos enormes, treinados para tudo observar, e orelhas imensas, com design perfeito para captar conversas e comentários de cafezinho que um dia poderão ser úteis.

A primeira coisa que um ratocorp faz quando entra na empresa é aprender tudo sobre manuais e procedimentos, códigos não escritos e idiossincrasias. Sabe que essas serão suas melhores ferramentas de trabalho e segue às cegas a burocracia e o formalismo para não correr riscos. Enquanto os demais dão sangue à operação, o ratocorp aplica energias em coisas bem menos produtivas, mas efetivas para a sua carreira. Observador obsessivo, descobre quem exerce o verdadeiro poder, quais são as agendas ocultas, os momentos certos para surgir. Tem a capacidade de ignorar o chefe imediato com categoria, de forma discreta e casual, pois seu olhar foca pelo menos dois níveis hierárquicos acima do seu.

Não pense que a voracidade do ratocorp o torna odiado por colegas. Ao contrário. Ele sabe agradar. Distribui simpatia e informações exclusivas sempre que é de seu interesse. Seu desempenho abaixo da crítica será sempre adjudicado a deslizes, fruto de problemas de saúde ou familiares. As decisões de negócio que vier a adotar, se obrigado a tal, serão óbvias, funcionais, dentro da mais perfeita transparência administrativa e de acordo com as melhores práticas de negócio.

Nas suas andanças noturnas ou feriados na empresa, o ratocorp abre portas e gavetas e, sem cerimônia, devora guloseimas estocadas por alguma assistente gorducha. São pequenos descuidos, em que o instinto fala mais alto que o remorso. Agora você sabe por que tanta comida some fora do expediente. Mas não pense que ele é um cleptomaníaco. Roubar alimentos não é seu core business, mas um hobby de quem exerce atividade solitária.

O ratocorp tem objetivos de longo prazo. E cedo ou tarde, a oportunidade de ascensão profissional chega. Um diretor decide promovê-lo a gerente, após observar sua tenacidade, lealdade e incrível domínio de informações sobre os negócios.

O ápice da carreira é quando se torna dirigente. Seja qual for a missão que receber, sempre vai adotar o papel de consultor. Essa é a melhor camuflagem para passar imune a avaliações. É promovido às mais altas funções de suporte, jamais executivas, para não se expor desnecessariamente. Em crises, quando consultado, dará uma resposta descompromissada. Confortável em sua posição de conselheiro, se algo que recomendou der certo, ótimo. Se não, a culpa nunca é dele, mas de quem desenvolveu aquela péssima execução. Com o tempo, o ratocorp se torna à prova de demissão, pois há consenso de que sua presença é imprescindível. Aposenta-se bem velhinho, com soluços de todos.

Como faz para sobreviver sem jamais ser denunciado? Primeiro, porque embora o identifiquem, ninguém gosta de delatar. Segundo, porque a empresa não é mesmo deles. Só que o pacto de silêncio tem seu custo: no fim de mês uma parcela invisível dos salários é abatida para sustentar o colega parasita.

 

Como enfrentar um ratocorp

Já que não dá para livrar-se dele, ao menos evite estragos na sua carreira

• Controle suas emoções: cabeça quente, raiva e indignação são matéria-prima para o ratocorp exercer seu poder maléfico.
• Seja realista: não espere mudança de comportamento em função de uma conversa séria sua com ele sobre desempenho inadequado.
• Nada de sermões: sua meta não é fazer dele uma pessoa melhor, mas sim evitar que um parasita venha a lucrar com o seu suor.
• Estabeleça regras: negocie com ele fronteiras de atuação e comportamento para não bater de frente.
• Prepare-se para o bote: uma crítica sua feita a ele ou ao chefe pode gerar revide. Antecipe os ataques.
• Não provoque a onça: evite atitudes que irritem o ratocorp ou que garantam a ele o respaldo de procedimentos da empresa.
• Torne-se indispensável: desenvolva competências em áreas que ninguém mais domina, principalmente se o ratocorp for seu chefe.
• Fuja de bate-boca público: não queira desmascará-lo diante de testemunhas para não transformá-lo em falsa vítima de agressão gratuita.
• Monitore a atuação: o ratocorp precisa saber que você está de olho nele. Deixe isso claro pessoalmente, pois ele tem preguiça de ler e-mails.

Matéria publicada na Revista ALFA de julho de 2012.