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Numa reunião de negócios, o apresentador Rodrigo Faro se sentiu um pouco desconfortável. Era um encontro importante, para definir o patrocínio de seu programa. Um dos executivos presentes não parava de encará-lo. “Uma hora não resisti e perguntei o que era”, diz Rodrigo. “ ‘Você pintou o olho?’,ele me perguntou.” Rodrigo dá uma gargalhada. “Eu tinha sido maquiado um dia antes de Lady Gaga e não havia saído direito.” Agora, quando tem reunião, Rodrigo já sabe onde fica o demaquilante de sua mulher. Ele apresenta O Melhor do Brasil, aos sábados, na TV Record. Fica no ar das 17h30 às 23 horas, uma verdadeira eternidade em termos televisivos (para ter uma ideia, Faustão passa quase 2 horas a menos diante das câmeras). É o maior fenômeno de audiência e de retorno publicitário da emissora.

Seu programa é usado como alavanca para dois outros: o Jornal da Record, que entra num intervalo, e o humorístico Legendários, na sequência. O quadro Vai Dar Namoro, em que dança fantasiado de artistas famosos quando um casal de participantes se beija, já deu picos de 25 pontos de audiência e bateu o Jornal Nacional. Na média, O Melhor do Brasil crava 13 pontos. Um feito que tem sabor especial para um ex-ator da Rede Globo (nove novelas e uma minissérie) que só queria se tornar apresentador. “Ele sempre adorou atuar, mas seu desejo era ser um grande comunicador”, diz o irmão mais novo e empresário, Danilo. Rodrigo chegou a gravar um piloto na Globo como apresentador de Fama, mistura de reality show e programa de calouros, mas foi rejeitado. Em 2008, procurou a Record, que lançava uma atração semelhante, chamada Ídolos (atualmente às terças e às quintas). Foi contratado. E acabou também no comando de O Melhor do Brasil, porque o então apresentador, Márcio Garcia, aceitara um convite para voltar à Globo.

Desde que Faro assumiu O Melhor do Brasil, a audiência aumentou 40%. “Ele tem o toque de midas até nas aplicações bancárias que faz”, diz Danilo. Os publicitários perceberam. Em 2010, sua imagem foi exibida 4 072 vezes em intervalos comerciais, de acordo com uma entidade que monitora ações de publicidade na TV. Segundo uma pesquisa do Instituto Data Popular, Rodrigo é, ao lado de Ana Hickmann, o astro de maior ascensão no momento. Com exclusividade para ALFA, Rodrigo revelou que acaba de fechar um contrato com o Banco do Brasil para se tornar a cara da instituição no próximo ano e meio. Ele já é garoto-propaganda do sabão em pó Ace e das motos Kasinski. “Encontro amigos do tempo de Globo e eles

me falam: ‘Você arrumou um jeito de ganhar uma fortuna fazendo o que fazia nos bastidores de graça’ ”, diz. Sim, uma fortuna. Faro foi para a Record recebendo por volta de 70 mil reais. Hoje, estima-se que seu contracheque chegue a 400 mil. Somando-se salário e merchandising, sobe para 1 milhão de reais. Faz dezenas de campanhas publicitárias e atua como mestre de cerimônias em eventos até cinco vezes por mês.

Rodrigo é casado há oito anos com a ex-modelo Vera Viel, com quem tem duas filhas, Clara e Maria, de 5 e 2 anos, respectivamente (as duas, curiosamente, nasceram no mesmo dia: 18 de junho). A família está de mudança para uma mansão de 1 500 metros quadrados, quatro andares, elevador, salão de jogos e piscina no condomínio paulista de Alphaville. Faro diz que não consegue mais ir a shoppings e planeja comprar os eletrodomésticos da casa nova de madrugada. Quando sobra tempo, se manda para Angra dos Reis, onde tem um barco de 40 pés e constrói outra casa (por enquanto, costuma se hospedar na ilha do amigo Luciano Huck, seu rival no ibope. “A guerra é das emissoras, não nossa”, diz Rodrigo). Cultiva uma paixão por sapatos (tem mais de 100 pares) e por carrões. Há quatro em sua garagem: uma Mercedes CLS (500 mil reais), uma BMW X5 (300 mil), um Chevrolet Camaro (185 mil) e um Volkswagen Jetta Variant (90 mil). “A melhor coisa que ele fez na vida foi ir para a Record”, diz Ricardo Feltrin, editor de entretenimento da Folha de S.Paulo e colunista de TV. “Ele conseguiu fazer o que faz melhor, que é entreter usando seu potencial de dança e interpretação.” A crítica de TV de O Globo, Patrícia Kogut, concorda. “Rodrigo tem carisma, se entrega, dança bem, e isso funcionou.” Aliás, desde que começou a dançar, há mais de um ano, Faro já se vestiu de Madonna ao falecido Lacraia, de Chitãozinho a Elvis Presley.

ALFA encontra Rodrigo Faro num camarim nos estúdios no bairro da Barra Funda, em São Paulo. São 7 da noite e ele grava há 6 horas. Faro olha o próprio reflexo no espelho e vê de volta o travesti protagonista de Priscilla, a Rainha do Deserto. “A manchete dos portais depois desse programa vai ser: ‘Rodrigo Faro chega ao fundo do poço’ ”, ironiza. Suspira fundo ao ver chegando a coreógrafa, pronta para lhe passar os passos que fará ao som de It’s Raining Men e I Will Survive. Em 5 minutos, ensaia toda a sequência sentado na cadeira de maquiagem, pernas esticadas, mal tocando o chão. No ar, depois, aparenta ter praticado por horas.

Faro cita como referências em seu trabalho Jerry Lewis, Os Trapalhões, Família Trapo, Golias e TV Pirata. Em seu camarim, tem uma foto de Chacrinha e outra de Silvio Santos. Para Feltrin, o segredo de Rodrigo é ser um ótimo ator. “O melhor da Record”, aponta. Depois de uma situação vexatória no palco, por exemplo, ele olha no fundo da lente, esperando a claque que vem do sonoplasta Marcos Dutra dos Santos.

“É aquela olhada que o Coiote dá para a câmera quando o Papa-Léguas escapa”, diz ele. Faro usa todo o palco e parece se divertir muito em cena. Como Silvio Santos, sabe entrevistar pessoas da plateia com a mistura certa de interesse genuíno, sarcasmo e comiseração. Toparia voltar para a Globo um dia? “De jeito nenhum. A Record me deu tudo. Isso é o que eu quero para o resto da vida. E eu jamais deixaria as pessoas órfãs do comunicador Rodrigo”, diz.

Para o pesquisador de TV da Universidade de São Paulo Claudino Mayer, parte de seu triunfo vem de sua aura de “batalhador”. “O público sabe que a carreira dele teve altos e baixos e acha que ele subiu sem passar a perna em ninguém.” Descoberto por um olheiro numa padaria, ele começou a trabalhar, ao lado do irmão, Danilo, em campanhas publicitárias para compor a renda de casa. “Inicialmente, a carreira artística foi uma necessidade. Eu não podia olhar para trás. Minha mãe não fazia pressão, mas eu sabia que tinha essa obrigação. Eu me transformei no homem da casa aos 12 anos.” Essa era a idade dele quando o pai morreu, em um acidente de moto.

Na escola, era hostilizado por outras crianças que o viam em comerciais, como os do leite Batavo. “Eu não fico preocupado com o que os outros falam”, declara. Faro foi membro da segunda formação do grupo Dominó, uma armação inventada em 1985 pelo apresentador Gugu Liberato. Sua estreia na Globo foi com a novela A Indomada, em 1997. Quando recebeu o convite para a Record, havia sido um dos destaques do folhetim O Profeta, terminado em 2007. Era, porém, um a mais numa coleção de galãs. “Eu invisto minhas energias em explorar minhas possibilidades”, afirma. “Coloquei na cabeça que vou trabalhar para que essa onda não passe nunca. Tenho o sonho de ir para o domingo um dia. Mas eu sei que ainda não é a hora.” Atualmente, Gugu é quem domina as tardes de domingo na Record.

É engraçada a forma como Rodrigo lida com o fato de que ganhou relevância na TV porque pôs salto alto e maquiagem. “Minha filha me falou: ‘Pai, você é o melhor pai do mundo’. Eu perguntei: ‘Por quê?’ ‘Porque nenhum outro pai da escola coloca a minha roupa de balé.” Rodrigo lembra que as pessoas na Record se assustaram quando ele pela primeira vez sugeriu dançar no palco. “Mas você sabe?”, teriam perguntado seus superiores. Foi no dia em que Michael Jackson morreu que ele dançou pela primeira vez. Sem figurino, só precisou rememorar os números que desempenhava na infância, quando dançava break na porta do SBT esperando uma chance. “No fundo, no fundo, eu sabia que não daria errado”, diz. “Sabia que, quando eu começasse, não teria limite.” Os limites foram deixados de lado quando Faro bateu à porta de sua diretora com uma ideia: uma paródia do clipe Single Ladies, da cantora Beyoncé. “Pessoas próximas me diziam que isso poderia se virar contra mim.” Segundo Rodrigo, a diretoria da Record foi consultada e avisou que toda a responsabilidade seria dele próprio. “Ele banca?”, teria perguntado um dos bispos. “Eu assumi o risco. E isso mostrou um cara humano, que não tem vergonha de pagar mico”, diz. O bordão que o acompanha nas danças — uma voz histriônica gritando “Dança, gatinho!” — se tornou uma espécie de alcunha, que o segue aonde quer que vá. “Agora sou o Rodrigo ‘Dança Gatinho’ Faro.”

Alguém que coloca cílios falsos (“Pesam 3 quilos”), acertados com curvex (“É um instrumento de tortura”), precisa ter bastante segurança sobre sua própria sexualidade. “Nunca tive dúvidas a respeito disso”, diz. “Acabou? Tiro a maquiagem e domingo estou jogando bola. Nunca ouvi um comentário.” Segundo o psicólogo Klecius Borges, Faro não lida com caricatura ou preconceito. “Ele não traz o viés negativo, da imagem pejorativa, como normalmente acontece nos humorísticos”, aponta. Rodrigo Faro, 37 anos, paulistano da Vila Mariana, boa-pinta, heterossexual, rico, usa seu espaço na televisão brasileira para pregar a tolerância? “Por que me preocupar com o que os outros vão falar?”, indaga. “Acho que minha atitude desarma a bomba e encoraja as pessoas a não ter medo.”