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Não estamos aqui para dizer a você como ser um homem. Você é um homem, você sabe como é.

Nós já ficamos sensíveis. Ligamos para a mãe dela no aniversário. Assistiremos, com ela, a Comer, Rezar, Amar.

Nós trocamos a fralda do bebê e não caímos no sono (imediatamente) depois do sexo. Nós somos bons de sexo oral.  Nós queremos que elas gozem. Nós colocamos as crianças para dormir. Nós apoiamos e respeitamos os avanços que elas fizeram em casa, no trabalho, na cama. Nós admiramos as mulheres. Nós amamos as mulheres.

Tudo isso sem deixar o papel de guerreiros, protetores e provedores.

Já aprendemos a cuidar do corpo na academia, fazemos ioga, limpamos a pele. Agora podemos voltar aos clássicos rituais masculinos sem que eles causem embaraço a ninguém — sobretudo a nós mesmos. A era do politicamente correto tentou transformar isso num crime. Não é. Temos o direito de encher a cara no boteco com os amigos e os inimigos, jogar bola no sábado à tarde, ir ao show do AC/DC, armar uma mesa de pôquer, levar o filho para cortar o cabelo no barbeiro do bairro e convencê-lo a torcer pelo mesmo time que o nosso. Temos o direito, às vezes, de nos comportar mal.

Não somos irresponsáveis. Não somos meninos. Somos homens.

Como dissemos: não queremos ensinar nada. Queremos levar inspiração, exemplos. O resto é com você.

Há vários tipos de coragem. Encarar de frente um perigo físico, digamos. O major Luciano Sarmento, bombeiro do Rio de Janeiro, ­ficou 9 horas dentro de um buraco segurando uma parede para salvar um garoto. E o que dizer da força de caras como Bear Grylls, astro do programa À Prova de Tudo, do Discovery Channel, que sobrevive nos lugares mais inóspitos do planeta? Alguns desafios são mais silenciosos e traiçoeiros. Para enfrentá-los, é preciso altivez e serenidade.

Isso parece um papo meio subjetivo até olharmos para José de Alencar saindo pela enésima vez de uma internação. Pense nisso: 16 cirurgias desde 1997. Cinco órgãos atacados pelo câncer. E ele está aí, ­firme.

Poucos têm a coragem de encarar desafios tão elevados quanto o escritor inglês Christopher Hitchens, que brigou com um sujeito complicado: Deus (sem contar quase todos os líderes mundiais desde Ronald Reagan, que destruiu em textos contundentes). Ateu fervoroso, conservador de boa cepa, Hitchens descobriu há pouco que tem um tipo de câncer no esôfago que muito provavelmente o matará em meses. Em sua única entrevista após a descoberta, Hitchens explicou por que vai defender sua (falta de) crença até que a dor ou os remédios o enlouqueçam. “Você se perguntou: ‘Por que eu’?”, indagou o repórter. “Não. Eu me perguntei: ‘Por que NÃO eu?’”

O jornalista australiano Julian Assange, do site Wikileaks, virou inimigo da CIA, do FBI e dos militares da maior potência do mundo ao vazar informacões que comprometem as campanhas iraquiana e afegã. Suas motivações, diz, são a defesa da democracia e a construcão de um mundo melhor. Num mundo povoado de cinismo e covardia, parece uma postura ingênua. No caso de Assange, é jornalismo. Caco Barcellos já denunciou os matadores da policia paulista, foi jurado de morte após publicar um livro sobre os traficantes do Rio de Janeiro e continua trabalhando duro, movido pelo espírito de indignação. A indignação nos levou a torcer pelo procurador Francisco Cembranelli, que virou um símbolo de justiça quando curou uma ferida moral de proporções nacionais no caso da morte da menina Isabella Nardoni.

Ser homem implica a capacidade de se reinventar, por determinação própria ou circunstâncias do destino. Lars Grael tinha duas medalhas olímpicas de iatismo e uma carreira promissora pela frente, até ser atropelado por uma lancha, em 1998. Ele nunca transformou a tragédia que o mutilou numa desculpa para deixar de seguir em frente. Ronaldo Nazário é outro fenômeno em superação, como atestam as oito cirurgias que teve de enfrentar em 16 anos de carreira profissional. Durante essa via-crúcis, aprendeu a conviver com as dores nos joelhos, virou o maior artilheiro de todos os tempos da Copa do Mundo (chupa, Klose!) e, no ocaso da carreira, desafi­ou os críticos e as leis da física provando que era possível fazer jogadas geniais mesmo pesando muito mais do que deveria.

Algumas vezes, o estopim da reviravolta é um con­flito existencial. Entre as décadas de 80 e 90, Beto Pandiani era um dos reis da noite de São Paulo, comandando casas lendárias, como o Aeroanta. Aos 43 anos, pelo simples desejo de mudar e reencontrar o prazer, encerrou a conta e se transformou em um dos maiores velejadores de grandes travessias do mundo. Para salvar sua empresa, o Grupo Pão de Açúcar, o empresário Abílio Diniz brigou com metade da família e demitiu mais de 20 000 funcionários em quatro anos. Outra marca tradicional, a centenária Hering também esteve prestes a ir para o buraco, até que um dos herdeiros do negócio, o empresário Fábio Hering, resolveu reinventar a companhia nos anos 90. A resposta foi o sucesso. Dave Grohl sentou quieto atrás da bateria da banda Nirvana por sete anos, sem roubar o show do gênio Kurt Cobain. Era de imaginar que, após o desaparecimento trágico de Cobain, Grohl fosse logo pelo mesmo caminho ou desaparecesse na irrelevância, como ocorreu com o baixista Krist Novoselic. Acabou fundando o Foo Fighters.

Toda vez em que pensar em desistir, lembre-se de quem chegou ao fundo do poço e deu duro para voltar à superfície. Walter Casagrande, que quase serviu sua vida de bandeja à cocaína. Fabio Assunção, vítima do mesmo mal, conseguiu retornar há pouco ao trabalho na TV. Eric Clapton está fora do inferno há décadas. Mickey Rourke fez o impossível para se autossabotar. Ficou vivo até ver seu talento reconhecido. Robert Downey Jr. ficou melhor do que já era.

É importante lembrar a batalha de caras que tinham o carimbo de loser estampado na testa, como é o caso daquele senhor sentado num dos cantos do Palácio do Planalto. O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva tentou ser presidente por três vezes, e foi derrotado sempre pela própria imagem ameaçadora. Aprendeu alguma coisa. Anderson Silva, há seis anos invicto e a ­figura mais importante das artes marciais na atualidade, no início da carreira tinha de dormir no chão da academia em Curitiba e trabalhar como atendente no McDonald’s. Cafu, titular da lateral direita da seleção brasileira em três Copas, foi reprovado no início da carreira em 12 peneiras.

Há ainda os caras que, apesar de estar no topo da profi­ssão já há algum tempo, continuam trabalhando como estagiários. Recém eleito pela revista Forbes o rapper mais “lucrativo” do mundo, Jay-Z talvez seja o músico americano mais poderoso da atualidade. Como cantor, vendeu mais de 30 milhões de cópias. Como produtor e presidente de gravadora, inventou fenômenos como Kanye West e Rihanna. E ele ainda acha tempo para dar conta de Beyoncé, sua mulher. Num país como o Brasil, onde muita gente cultua a malandragem e a indolência, trabalhar duro pode ser quase um insulto. Cesar Cielo é um desses “ETs”. Mesmo depois de uma medalha de ouro olímpica e de bater o recorde mundial dos 50 e dos 100 metros, o nadador continua agindo como um CDF. Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei masculino, trouxe para as quadras brasileiras uma ética de trabalho e de divisão de méritos entre os membros da equipe que lhe rendeu mais troféus do que ele consegue contar.

Dedicação e obstinação carregam adiante Luciano Huck e a dupla Victor & Leo. Num passado não muito distante, os dois irmãos tocavam violão numa pizzaria em São Paulo. Hoje, são os artistas que mais arrecadam direitos autorais no país. Você pode até achar brega dois homens cantando “borboletas sempre voltam e o seu jardim sou eu”. Mas é preciso reconhecer: Victor & Leo falam, como poucos, o que as pessoas querem ouvir. Principalmente as mulheres.

Muitas vezes, um homem batalha durante a vida inteira para chegar a um momento de velocidade de cruzeiro, aquela fase em que faz o que simplesmente lhe dá na telha. Vejamos a trajetória de um dos grandes heróis de nossos tempos, Clint Eastwood. Antes da maturidade, o que ele havia feito? Um punhado de faroestes-espaguete. Aos 40, foi Dirty Harry. E então vieram maravilhas como Bird, Caçador Branco, Coração Negro e Os Imperdoáveis, pelo qual levou um Oscar, aos 63 anos. O diretor Daniel Filho é uma espécie de Clint brasileiro. Era um deus na Rede Globo entre os anos 70 e 80. Saiu da emissora e caiu no ostracismo. Chegou ao fundo do poço com Espelho da Carne, em 1984, quando apareceu em cena sodomizando Denis Carvalho (mais um motivo para não ver o Canal Brasil). Daniel ressurgiu nos últimos anos como um dos mais bem-sucedidos produtores do cinema nacional. O técnico português José Mourinho ganhou tudo na Inter de Milão, submetendo o elenco de estrelas a um regime de pão e água, e agora faz o que quer no Real Madrid.

O matemático russo Grigory Perelman chegou a um estágio semelhante de realização profissional que lhe dá o direito de dar uma banana para o mundo. Em julho, recusou um prêmio de 1 milhão de dólares oferecido por uma fundação americana “por não concordar com as decisões da comunidade de matemática”. O velocista Usain Bolt já acumulou créditos. Muhammad Ali também.

Keith Richards, Paul McCartney, Bruce Springsteen, Angus Young — esses poderiam tocar o Hino Nacional brasileiro na versão de Vanusa e estariam soberbos. Entre os atores, Robert De Niro e Al Pacino ganharam o direito de figurar em abacaxis de Hollywood.

Inventar uma coisa que ainda não existe e que dá a sensação de que, antes dela, o universo era caótico. Foi o que fizeram Sergey Brin e Lawrence Page, que fundaram, na garagem de um amigo, a maior empresa da era da internet, o Google. Um dos únicos caras que incomodam Brin e Page se chama Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, a rede social que mais cresce no mundo. Nem sempre inovar significa criar um produto ou um serviço. Inspirado num modelo de um banco de investimentos americano, o empresário Jorge Paulo Lemann desenvolveu uma cultura empresarial baseada na meritocracia que se tornou marca registrada de seus negócios, como a Lojas Americanas e a cervejaria InBev, e passou a ser imitada por centenas de outras empresas. No comando da General Electric (GE), Jack Immelt dobrou nos últimos anos o orçamento para o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. Com isso, virou um símbolo do capitalismo que pode gerar dividendos sem destruir a natureza.

Ser homem hoje inclui cultivar a elegância, em suas mais diferentes facetas. Existe algo mais elegante do que o lançamento de 40 metros de Gerson para o gol de Pelé contra a Tchecoslováquia na Copa de 70? Os resquícios do mesmo padrão de elegância dos craques antigos do meio-campo pode ser visto hoje nos pés de Paulo Henrique Ganso. Na moda, a regra número 1 da elegância diz o seguinte: quando você usar uma roupa, não pense que é ela que está fazendo você ficar legal. É o contrário: você faz aquela roupa ficar legal. Não era assim com os astros de cinema? Todos podemos ser um pouco mais como Rodrigo Santoro. Fazer cara de ícone do cinema às vezes não é pecado. Pense na maneira como Ricardo Darín e Benicio Del Toro domaram a própria feiura. Inspire-se nas camisas sempre impecavelmente bem vincadas de Roger Federer, um dos poucos  seres vivos que ficam bem com uma faixa na cabeça. A elegância começa na voz. Falar ao pé do ouvido da mulher com uma voz de Sean Connery, usando a força de cada palavra. A voz de Paulinho da Viola, de tão pequena, parece inexistente.

Oskar Metsavat e Ricardo Almeida conseguiram manter sua elegância para si próprios e nos saúdam com coleções dentro das quais você dificilmente estará errado. O estilo pode vir de um tempo em que se fumava cigarro no quarto de dormir ou dentro dos restaurantes e os barmen sabiam servir coquetéis. Tempo do publicitário Don Draper, o personagem central da melhor série de TV do planeta, Mad Men.
Quantas vezes sentimos que teríamos deixado uma imagem melhor caso tivéssemos encerrado a conversa algumas frases antes. A arte de saber a hora certa de se manifestar. Chico Buarque talvez seja o sujeito com o maior controle sobre essa qualidade efêmera. Ele sempre deixa homens e mulheres querendo mais (cada um com sua própria razão, claro). Os escritores Luis Fernando Verissimo e Dalton Trevisan não são vistos desde a colonização das margens do Nilo. O recluso Rubem Fonseca apareceu nos jornais dando comida a uma pupila que fazia uma performance. Um acidente. Roberto Carlos faz show e especial de fim de ano. Só. Bill Murray passa uma década sem dar entrevistas e sem ir ao cinema.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso domina a arte da sedução e fez, como ninguém, o jogo político definido pelo cronista Rubem Braga como “a arte de namorar homem”. O que nos faz chegar a Aécio Neves que parece atrair tudo que se move (ah, Zé Serra…). Obama. Bill Clinton.

Talento, empreendedorismo, capacidade de inovar. Há homens que conseguem aliar essas características a outro dom: o de saber levar a vida com leveza. Mesmo depois de cinco décadas no ar, Silvio Santos ainda se diverte com seus programas. Eike Batista, entre uma e outra reunião, vive inventando brinquedos para se divertir. Teve a fase Luma de Oliveira. Depois, descobriu as lanchas de velocidade. Recentemente, aderiu ao Twitter. Nos textos, vem demonstrando algum senso de humor. Certa vez, reclamou dos faróis de seu Porsche, que retinham água, dizendo que era um carro de “classe média”.

Ser engraçado, ter leveza. Aos 68 anos, Gilberto Gil parece ter inventado a fórmula da alegria — e não mostrou abalo nem mesmo depois de perder um filho. Jack Johnson. Guga. Cid Moreira. Quem não adoraria tomar um chope com o Cid Moreira. Imagine-o depois do terceiro chope imitando Cid Moreira (jabuuuuulaaaaaniiiii)?


O mundo seria um lugar chato sem gênios como Steve Jobs. O cara é boquirroto, compra briga até com meninas de 9 anos — mas fez o mundo da tecnologia girar. Martin Scorsese deu credibilidade ao movimento que reinventou Hollywood nos anos 70, apesar de não ter tido o sucesso de Steven Spielberg e George Lucas. Quentin Tarantino não existiria sem Scorsese. Ainda bem que existe e que temos esse gênio maquinando diálogos como aquele de Cães de Aluguel sobre a verdadeirainspiração de Like a Virgin, de Madonna: “A música é sobre uma mina que vai transar com um cara com um pau muito grande, que a faz se sentir como uma virgem. É uma metáfora”.

Um homem precisa de heróis. Só os idiotas acreditam que ter heróis é ruim. Os gênios nos inspiram a chegar perto deles. Quantas crianças não tocaram sua primeira bola pensando num lance de Pelé, Maradona? Bob Dylan e Buddy Holly. John Lennon e Elvis. “É isso o que eu quero fazer para o resto da minha vida”, disse Lennon ao ver “The Pelvis” na tela. Lewis Hamilton e Ayrton Senna.

A trajetória dos grandes homens nos faz refletir e ser caras melhores. Basta vencer a inércia. Não importa a idade. Pode ser aos 30, 40, 50. Ou até mais que isso. Acima de tudo, ser homem hoje é entender e assumir que somos uma obra em contínuo estado de aperfeiçoamento. Jamais saberemos onde isso vai dar. Aí é que está a graça de ser homem. Como diz o mestre Clint: “Se você quer garantia de alguma coisa na vida, compre uma torradeira”.

Os destaques da Pesquisa ALFA do Homem Brasileiro

Você sente satisfação em ser homem?
Sim 91%
Não 9%

Top 5 do que mais gosta de fazer
1º Ouvir música
2º Estar a sós com a esposa
3° Refeição com toda a família
4º Ler para relaxar
5º Estar com os filhos

E quais são seus maiores medos?
1º Não ter condições de sustentar os filhos
2º Envelhecer sem grana
3º Que algo horrível aconteça aos filhos
4º Ser assaltado ou sequestrado
5º Ficar desempregado

Um exemplo

CLINT EASTWOOD, 80 anos, ator
Além de ser um dos primeiros astros de ação de Hollywood e um dos diretores mais premiados da atualidade, Clint Eastwood toca piano desde a juventude e compôs a trilha de quatro de seus filmes. Foi a paixão pela música que o levou a criar, em 1988, o filme Bird, sobre o saxofonista Charlie Parker. O carisma de Eastwood só é melhorado pela personalidade arredia e por uma modéstia desconcertante: “Um gênio para mim é alguém que faz bem uma coisa que ele odeia. Qualquer um pode fazer bem o que ama — é só uma questão de achar o assunto certo”.

A pesquisa foi realizada em dez capitais entre os meses de maio e agosto de 2010