Senhor Flip
Há dez anos, ele criou o evento literário mais importante da América Latina. O arquiteto Mauro Munhoz, diretor geral da Flip, fala de seu amor por Paraty, de turistas qualificados e até de literatura
A cada Flip, 13 milhões de reais circulam na cidade. Nosso público médio é de 25 mil pessoas. Não atraímos o mesmo número de gente que na época de veraneio, mas trazemos um turista que faz Paraty reverberar como destino o ano inteiro. Turista tem de ser muito qualificado se você quiser preservar as características ambientais, culturais e sociais do local.
A Flip tem total autonomia. Não existe interferência de governo, universidade ou editora. A cada dois anos, temos um curador que traz sangue novo. Se houver um deslize e um escritor for escolhido por outro critério que não o literário, a Flip perderá valor.
Apostamos neste modelo: um evento em Paraty, por Paraty, feito por paratienses. Contratamos mais de 400 moradores a cada edição e existe uma relação forte com a cidade.
Nunca houve (um problema sério). Teve autor que não gostou da pousada onde ficou, mas trocamos por outra. Coisas leves. Em geral, as pessoas ficam superfelizes e de bom humor.
Não existe saneamento básico na cidade. Isso é uma prioridade para nós. Houve uma mobilização, o governo do estado colocou recursos e hoje Paraty tem um projeto nesse sentido.
Conheci a Liz Calder (editora inglesa e presidente da festa) quando ela foi a Paraty a convite do Amyr Klink. Liz ia editar o livro dele na Inglaterra. Convenci-a a ter uma casa em Paraty. Eu mesmo construí a casa.
Houve palestras antológicas, como a do (escritor israelense) Amós Oz e a da (escritora sul-africana) Nadine Gordimer. É gostoso ver os autores se envolverem, se soltarem e improvisarem, as ideias fluírem de um para outro. Hoje, a Flip tem um prestígio muito grande. Salman Rushdie lançou um livro lá, Ian McEwan também. É importante, um acontecimento internacional em primeira mão no Brasil.
O Itaú é patrocinador desde 2004. O BNDES revitalizou a praça da Matriz, com nosso projeto. O governo do estado entra nos patrocínios. A Casa Azul, que organiza a festa, é uma oscip (organização da sociedade civil de interesse público) sem fins lucrativos. A Flip, em termos econômicos, não é um bom negócio. Se fosse somente pelo dinheiro, eu não estaria ali.
Matéria publicada na Revista ALFA de julho de 2012.













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