Share

Por que odeio comédia stand-up? Primeiramente porque quase sempre começa com alguém dizendo que odeia alguma coisa. Deve ser uma técnica milenar do gênero. Mas enche os picuás. “Boa noite, eu odeio trânsito…”. Ou ainda: “Olá, eu estava vindo pra cá e caiu uma tempestade. Eu odeio chuva…”.  E logo seguem-se 47 minutos de histórias pernósticas – às vezes repletas do recurso fácil do palavrão – sobre como o cara se funhanhou todo pelas ruas da cidade, por causa do tráfego, das enchentes ou dos dois.

Esse modo de fazer rir tem muito a ver com a cultura “wasp” – branca, anglo-saxã e protestante. Existem artistas que são verdadeiros estetas da comédia “de pé”. Quem assistiu Eddie Murphy em seu “Raw”, no finalzinho dos 80, sabe do que estou falando. O sujeito em cima de um palquinho – já podre de rico – soltava o verbo em tudo e todos. Isso é stand-up comedy, o resto é fanfarronice. Ou pior: marketing. Justamente porque não existe humor a favor. E a parada precisa ser crua, cortante e cruel pra ter a sua graça. Mas o que vemos, por tantas vezes, nos espetáculos aqui da Baixa Botocúndia? Antes de mais nada, um tremendo embananamento sobre as regras da arte. Senhores palhaços, stand-up não é contar anedota, nem criar personagem. Também não é promover futricagens sobre a vida das celebridades e nem ofender negros, nordestinos ou judeus de maneira estúpida (e, ao ver que a “piada” não colou, botar a culpa na “ditadura do politicamente correto”).

Por essas plagas, o comediante stand-up parece ter virado o equivalente do pastor evangélico: fala de pé segurando um microfone, engana todo mundo e ainda leva uma grana lascada em dízimos da plateia. Não me admira que todo mundo esteja querendo trabalhar nessa área. Logo teremos mais humoristas stand-up do que engenheiros, médicos e advogados no país. Já dá pra imaginar os papos daqui a algum tempo nas famílias: “Celinha, nem te conto, o Tiago passou no vestibular!” “Pra Odonto?” “Melhor ainda! Entrou em Stand-up Comedy, na Federal!”

Num país onde uma determinada categoria de bufão passa a ter mais influxo do que as verdadeiras autoridades de qualquer assunto, as coisas não andam propriamente bem das pernas. Já reparou como, para qualquer tema, agora surge um comediante pra dar pitaco? De repente, no telejornal da noite vemos coisas que beiram esse nível: “Estamos aqui com o Fulano de Tal, integrante do Programa XYZ, e queremos saber dele o seguinte: considerando os níveis de microsieverts emitidos pelo Reator 2 de Fukushima, quais seriam as probabilidades do plutônio penetrar pelas fossas do oceano Pacífico?” E o pior é que o indivíduo, aposto, responderia: “Uma vez eu tava na rua e tropecei num treco desses, pô, eu odeio microsievert”.

Assim caminha o stand-up brasileiro. E, como toda expressão que traz em si a palavra “stand”, tinha que acabar virando mesmo essa feira. São festivais, workshops, cursos de extensão, eventos, palestras, speeches. Todos vendendo a ideia de que o stand-up é uma espécie de emplastro Brás Cubas do século 21. Mas eu sou da escola do Groucho Marx e do Eddie Murphy e não caio nessa. O que temos por agora está transformando o riso em algo totalmente risível – ou trágico.

E eu odeio dizer isso.

* Castelo é humorista, compositor e escritor: ccastelo1@me.com