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O império dele não tem princesinhas frágeis, castelos mágicos nem ratos falantes. É tudo mais pé no chão: no lugar de Branca de Neve ou Cinderela, uma menina dentuça, plausível, que volta e meia resolve suas questões na marra — à base de coelhadas. A inspiração para seus mais de 400 personagens vem, em boa parte, de pessoas reais, como sua própria filha ou jogadores de futebol famosos. E foi recriando situações corriqueiras — e comandando os negócios de modo absolutamente centralizador — que Maurício de Sousa alcançou números portentosos.
Aos 76 anos, com 51 de carreira, ele pode ser chamado de Walt Disney brasileiro. Só em licenciamentos, a Turma da Mônica movimentou, em 2011, 2,6 milhões de reais. Os personagens estampam de macarrão instantâneo e cadernos até fraldas, além de dar forma a bonecos e brinquedos. Esses produtos representam, hoje, 70% do faturamento da Maurício de Sousa Produções. O restante vem dos quadrinhos (a MSP tem 80% de participação no mercado de gibis infanto-juvenis brasileiro e suas revistinhas são publicadas em 32 países), bem como de outras novidades.
Maurício vem arriscando mais. Experimentando. Desafiando-se. Tem transformado até a si mesmo em personagem. Um Maurício desenhado, criador que virou criatura, é hoje conhecido das crianças e pode ser visto em seu site, apresentando livros e até contando lendas em CDs. Numa associação inédita em sua vida empresarial, está lançando o desenho animado Turma do Penadinho, em 3D, que será exibido no Cartoon Network, com uma produtora de vídeos digitais. Especiais da Turma da Mônica também devem ir ao ar na TV Globo em datas especiais, como Páscoa, férias de julho e Natal. E só para ficar nas TVs, na Itália já está no ar a série de animação de Ronaldinho Gaúcho.
Mas Maurício pretende ampliar seu ramo de atuação. Vai criar um complexo com parque de diversões, escola de artes para formação de crianças, estúdio, teatro e um museu com a história de seus personagens. Essa “Disneylândia” ficará ao lado do novo Parque da Mônica, no futuro Shopping Nova 25, em São Paulo, previsto para inaugurar em 2013. Antes disso, um Parque do Cebolinha, mais radical, deve abrir as portas na zona oeste de São Paulo.
“A maturidade fez bem ao meu pai. Ele está muito mais solto, abrindo novas possibilidades na carreira e fazendo coisas novas”, afirma Mônica Sousa, filha e braço direito, inspiradora de sua mais conhecida personagem. Essa liberdade toda acabou desembocando no estrondoso namoro entre Mônica e Cebolinha — algo antigamente impensável.
Pai rigoroso, na vida real ele sempre impôs limites de horário às filhas e vigiou de perto os namoros. “Nunca bati, mas também nunca fui condescendente, principalmente com os mais velhos”, conta. Quatro casamentos, dez filhos, 11 netos e dois bisnetos depois, ele é mais permissivo. Principalmente com os caçulas — o menor tem 14 anos. “É o caminho natural, né? A gente acaba relaxando nos cuidados, vira pai-avô.” Pois foi esse Maurício mais leve que acabou abraçando a ideia de que sua principal personagem virasse adolescente e beijasse na boca – mais um plano infalível. As quatro primeiras revistinhas da Turma da Mônica Jovem, com personagens de traços inspirados em mangás, venderam 1,5 milhão de exemplares. “Maurício, tal qual Walt Disney, soube aliar seu apuro e qualidade artística a um ótimo faro para os negócios”, diz o pesquisador de quadrinhos Álvaro de Moya.
Ele não escapou de críticas, mas garante: “Não dá para voltar atrás. Os personagens vão ter de envelhecer, tirar carta, noivar e até quem sabe casar. Ao contrário da turminha, sempre com 7 anos, é inevitável que a turma adolescente cresça”, disse a ALFA em um dos três encontros que tivemos. Rendido ao Twitter (tem mais de 150 mil seguidores) e às facilidades de contato pela internet, ele acompanha diariamente os comentários do público e se inspira para conduzir as histórias a partir da opinião das pessoas. “Virou uma obra aberta, todo mundo quer in-teragir. Estou me sentindo um autor de novelas”, brinca.
Eis outro segredo de seu sucesso: assimilar muito bem modernidades e novos costumes. “Maurício é corajoso, gosta de inovar e sempre acompanha as tendências”, afirma o cartunista Carlos Ruas, das tirinhas Um Sábado Qualquer. Basta ler um dos gibis para perceber o esforço dos 18 roteiristas da equipe em pinçar gírias para incluir nas histórias. Mike Deodato, desenhista brasileiro que se consagrou no mercado americano trabalhando para a Marvel e DC Comics, diz: “Maurício está sempre evoluindo, antenado com as mudanças ao redor e com a inspiração de sempre”.
Inspirado, sim, mas sem perder de vista o negócio jamais. “Hoje somos uma empresa. Tudo precisa ser estudado. Está inspirado? E daí? Você tem de fazer alguma coisa que o público goste, engula, aprecie”, afirma. A empresa hoje dá trabalho a sete de seus filhos e também a irmãos, netos e sobrinhos, além de outros familiares. Maurício chegou a pedir que os filhos se mudassem para o mesmo bairro em que vive, Alto de Pinheiros, na capital paulista. “É meu sistema caipira de botar a família perto”, conta. “Moramos todos a dois, três minutos um do outro. Tento almoçar em casa todo dia e reunir a família na chácara (em Caçapava, a 109 quilômetros de São Paulo) aos finais de semana.” Com a família na empresa, ele passou a delegar algumas funções.
Mauro, um dos filhos, cuida da direção artística da Turma da Mônica no Circo, desde o treinamento dos artistas até os números e apresentações. Mônica é diretora comercial e responde pela divisão de licenciamento. Vanda toca a área de projetos especiais. Marina, de 24 anos, também desenha e já divide com o pai a avaliação das histórias criadas pelos roteiristas. “Ela está me ajudando em uma área que vai me permitir fazer uma das minhas aposentadorias”, conta. Agora, a ideia é reestruturar a empresa de modo a preservar a governança familiar, blindando os parentes e impedindo eventuais desavenças. Maurício até já começou a programar um lento processo de sucessão. Mas leva esses planos de aposentadoria a passos de Tarugo, aquela tartaruga de rodinhas que integra sua turminha.
“Eu sou um cara que desenha, que gosta de desenhar, e quer continuar desenhando”, diz. Depois de se curar de uma pressão alta que nem sabia que tinha e estava causando a insuficiência de sua válvula mitral, ele se diz mais regrado e fisicamente muito bem disposto. “No começo da carreira, eu era um pouco nervosinho. Hoje nada é dramático, tudo é um bom desafio para quebrar a cuca. Essa atitude contamina sua vida pessoal, sua relação com a família, e fica tudo mais tranquilo”, diz. “Mas minha cadeira ainda precisa ser bem dura, para eu não passar muito tempo sentado nela e querer buscar novos desafios. Como artista, eu sou um eterno insatisfeito.”