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Um belo dia, o cartunista canadense Chester Brown foi surpreendido pelo aviso de que sua então namorada, mesmo sem deixar de amá-lo, estava apaixonada por outro homem. Curiosamente, ele não se abalou. Meses mais tarde, inclusive, topou dividir o apartamento com a moça e seu novo par. Impassível diante de uma situação que deixaria boa parte dos homens de cabelos em pé, Chester só se incomodou quando percebeu que nutria dois desejos contraditórios: o de transar e o de não ter namorada. A solução? Recorrer à profissão mais antiga do mundo.

É justamente esta a história que Brown narra, de maneira objetiva e brutalmente honesta, na graphic novel Pagando por Sexo, recém-lançada no Brasil. Brown expõe desde seu medo de ser assaltado ao ir a um bordel até seus métodos para escolher uma mulher sem vê-la, passando pelas reações preconceituosas de seus amigos. E ainda analisa a situação legal e moral das garotas.

Ele, que se candidatou a deputado em 2011, defende a descriminalização da prostituição, mas rejeita uma regulamentação que incluiria, por exemplo, a distribuição de licenças e o recolhimento de impostos. “Desde que seja um consenso entre adultos, acredito que não deve haver envolvimento algum do governo na vida sexual das pessoas”, diz.

ALFA conversou com Brown (que manteve relações sexuais com 23 prostitutas diferentes) e mostra que nem só de super-heróis vivem as HQs.

É muito diferente escrever quadrinhos para o público adulto?
Definitivamente. Sempre existiram grandes quadrinhos para crianças, eu mesmo desenhei super-heróis, mas há muito mais. A própria sexualidade, normalmente considerada inapropriada para crianças. Sexo é uma grande parte da vida, e ignorar isso é ridículo. Devemos poder falar sobre qualquer coisa.

Por que a opção pelos quadrinhos mais longos, com conteúdo autobiográfico?
Eventualmente, vi outros cartunistas fazendo e achei uma maneira mais vigorosa e interessante de contar histórias. Histórias verdadeiras, que realmente aconteceram e que significam muito para você.

Em Pagando por Sexo, depois de um celibato de três anos, você percebe que tem desejos opostos: quer transar e não está a fim de ter uma namorada. Por que procurar prostitutas em vez de apenas sexo casual?
Sou uma pessoa tímida. Tive relacionamentos estáveis com minhas ex-namoradas, mas, no fim das contas, não tinha as habilidades pessoais e o traquejo social necessário para arrumar uma garota interessada só em transar.

A história e as questões são contadas de um jeito tão racional que, às vezes, mal parece ter te impactado. Você é tão racional assim?
Existe mais emoção no livro do que a maioria das pessoas reconhece, e menos do que todos costumam ver nos quadrinhos. Quanto à racionalização, acho que todo mundo que faz algo incomum tenta analisar a situação e acaba pensando muito sobre o assunto. Como a prostituição é um tema tão cheio de julgamentos, acho que refletir bastante é o melhor jeito de lidar com isso.

Você mostra a reação de amigos, ex-namoradas e de sua família sobre sua escolha pela prostituição. Quem te censurou mais?
Só depois da publicação do livro é que Sook-Yin, minha ex-namorada, admitiu que estava escondendo seus sentimentos durante o período retratado na narrativa. Ela disse que, no início, se incomodava com minha história com as prostitutas. Enxergava como algo extremo, mas depois começou a entender. Agora, meu amigo Joe Matt (também cartunista) definitivamente tinha um problema comigo transando com prostitutas. Isso incluía desde o fato de eu ter voltado a transar antes dele quanto aspectos morais. Apegado à ideia do amor romântico, ele não via como transar com prostitutas poderia ser satisfatório.


Depois de encontros com mais de 20 mulheres, você passa a ter uma relação mais séria com Denise, uma das prostitutas. Você ainda está com ela? Continua pagando?

Estamos juntos, sim. Temos encontros regulares, e continuo pagando por sexo. Denise é atraente. É uma boa pessoa, com temperamento doce – mas eu poderia falar isso ao descrever muitas mulheres. Não tenho certeza sobre o que achei de tão interessante nela para continuar encontrando-a depois de nove anos. Não tive desejo de encontrar outras prostitutas ou coisa do tipo. Estou muito feliz com a situação que tenho com ela.

No livro, você diz que a ama. E do ponto de vista dela, a relação cresceu?
Ela gosta de mim como pessoa, mas não me ama. Decidiu parar de sair com outros homens e continuar apenas me atendendo, mas não quis dar um salto e ser, por exemplo, minha namorada.

Muitos homens mantêm financeiramente suas amantes. Você não poderia ter um relacionamento assim?
Poderia evoluir a ponto de eu pagar o aluguel dela? Acho que poderia. Mas qual a diferença entre isso e pagar a cada encontro? Essencialmente, é a mesma coisa.

Depois de uma cruzada contra o amor romântico, você chegou à conclusão de que o problema é, na verdade, a monogamia possessiva. Ainda pensa assim?
Sim, e acho que essa descoberta teve a ver com o fato de encontrar Denise. Tive de reconhecer que tinha um sentimento que não era só amizade ou só sexo. Senti um carinho e algumas emoções por ela que se aproximam do que se classifica como amor romântico, e fez mais sentido ficar com ela. Mas continuo tendo a liberdade de transar com outras mulheres. E ela também.

 

Matéria publicada na Revista ALFA de agosto de 2012.