Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida
é o melhor livro de auto-ajuda já escrito. Talvez porque foi escrito por um escritor de verdade: Haruki Murakami, autor dos clássicos pop Norwegian Wood e Minha Querida Sputnik. Japonês residente do Havaí, Murakami começou a correr aos 30 anos, em 1982, quando largou a boemia como dono de bar de jazz em Tóquio, abraçou a carreira de escritor – e parou de fumar. Um ano depois, completava a mítica rota entre Atenas e Marathona, na Grécia. Quase 30 anos depois, mantém a rotina de correr 10 km por dia e pelo menos uma maratona por ano. Neste livro, o triatleta prova como o exercício da corrida se associou ao exercício da escrita de modo tão bem-sucedido – mesclando autobiografia, filosofia a educação física, o livro oferece lições e reflexões tanto a leitores quanto a corredores. Selecionamos algumas pérolas do livro para conversar com três dos mais destacados atletas de longa distância do país: o ultraman Alexandre Ribeiro, a ironwoman Fernanda Keller e a triatleta de aventura Shubi Guimarães.

A primeira “lição” de Murakami é ter um mantra durante a corrida. O dele é: “A dor é inevitável. Sofrer é opcional”. “Sempre lembro de um filme chamado Tocando o Vazio (Touching the Void), um filme inglês que conta a história real de dois escaladores, Joe Simpson e Simon Yates”, conta a paulistana Shubi, 31. “Um deles cai em um buraco e o amigo vai embora porque pensa que ele morreu. Mesmo com a perna quebrada, ele consegue voltar para o acampamento depois de sete dias de luta. Desde então, quando fica difícil, penso: ‘Mas nem estou com a perna quebrada ainda!’.” Outro ponto destacado por Murakami como ligação entre escrita e corrida é o fato de seu único adversário ser o próprio corredor, o que faz da atividade uma prática 100% solitária – justamente o que motiva tanto escritores quanto atletas. “Quando está difícil, adoro a sensação ‘Se vira, é com você! Não falou que ia fazer ironman?”, afirma a fluminense Fernanda Keller, 47, única triatleta do planeta a correr todos os Ironman. “Sempre procurei, na hora do vamos ver, não depender dos outros”, diz o paranaense Alexandre Ribeiro, 44, tetracampeão de Ultraman. No seu mundinho, o que Murakami gosta quando está dentro de seus amado par de Mizuno é o silêncio: “Tudo que tenho que fazer é olhar a paisagem que passa por mim. E não penso em nada que seja digno de mencionar”. O estado zen é bisado por Fernanda: “O grande segredo do esporte de longa duração e alta performance é a mente limpa. Não pensar em nada, ficar concentrado em correr e respirar”, diz. Trilha sonora também é fundamental. Murakami adora “Sympathy for the devil”, dos Stones. Fernanda, U2 e Coldplay. Shubi gosta de hip-hop, mas notou que Groove Armada acelera suas passadas.

Correr, lembra o japonês, tem muito a ver com… tropeçar. Micos são inevitáveis. Dois de nossos esportistas tiveram embaraços semelhantes. Ribeiro precisou parar para um número 2 a poucos quilômetros do fim de uma prova. “Ainda bem que o estradão do Havaí estava deserto”, conta o ultraman. Já Shubi é desencanada: “Paro em qualquer moitinha. Quando corro com meu namorado na cidade, ele fica envergonhado e me segura porque quero fazer na rua mesmo”, ri a corredora. O embaraço do escritor é singelo: “Me sentia constrangido que os vizinhos me vissem correndo – a mesma sensação que tive ao ver pela primeira vez o título romancista colocado entre parênteses depois do meu nome”. Milhares de quilômetros e muitos livros depois, a vergonha ficou lá longe.

Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida
, de Haruki Murakami (2007). Tradução Cássio Arantes Leite. Editora Alfaguara. 150 páginas, R$ 44.