Calça jeans desbotada, camiseta cinza, tênis preto com duas listas brancas, Ricardo Darín recebe a reportagem de ALFA, em Buenos Aires, à moda local: com um beijo no rosto (tanto em homens quanto em mulheres) e um sorriso. Pede um minuto para acabar de ler uma mensagem no celular e logo depois está disponível e desarmado para falar sobre qualquer assunto: de Oscar a amor, de violência urbana a drogas.

Avesso a polêmicas, o ator virou notícia este ano quando a revista Para Ti publicou que usava maconha para fins medicinais. “Não falei isso. Disse que já fumei maconha e não acho que seja grave ou que tenha de me envergonhar”, conta o ator, gesticulando. “Também falei que a cocaína é o fim, que o álcool é terrível e o cigarro idem. Mas ninguém ataca as drogas legais porque existem muitos negócios por trás delas”, diz cravando os olhos azuis no interlocutor cada vez que quer enfatizar algo. Aos 54 anos, Darín defende que não se pode ter medo de dizer o que pensa. E o papo flui como seus papéis na telona. Ele, que recentemente encarnou um homem amargurado no filme Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein (estreou no Brasil em setembro), gargalha fácil e ri de si mesmo com frequência.

“Darín surgiu como galãzinho de TV, fazendo papéis superficiais, e com o passar dos anos foi se transformando em um grande ator. Primeiro de comédias, beneficiado por sua simpatia natural, e depois de dramas”, diz o crítico Pablo Sirvén, do jornal La Nación. No Brasil, o ator virou a personificação do cinema argentino e conquistou fãs ao protagonizar tipos comuns como o malandro de Nove Rainhas (de Fabián Bielinsky, em 2000) ou o oficial de justiça aposentado de O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. No dia da entrega da estatueta, Darín estava em Buenos Aires, encenando a peça ART. Saiu correndo do teatro para ver, em casa, pela TV, a cerimônia. “O resultado foi um milagre. Todos os outros eram muito bons”, diz, modesto. “Quando ganhamos o Oscar, as pessoas aqui enlouqueceram. Eu dizia: ‘Oh, que alguém venha me buscar. Me tirem daqui!’”, conta às gargalhadas.

O que não falta é gente querendo tirá-lo de lá. Ele tem três propostas para filmar no Brasil, uma na Espanha e ainda um convite de Walter Salles para filmar no exterior. Se tem vontade de trabalhar fora? “Eu não dependo de querer ir ou não para Hollywood. Dependo de que a história me agrade. Se a história não me apaixona é muito difícil”, diz. Segundo ele, interpretar um personagem que não o cative porque o filme pode ser conveniente para sua carreira está fora de cogitação. O diretor de Um Conto Chinês comprovou a tese ao enviar o roteiro a Darín. “Sei que é um cara muito requisitado. Por isso, esperava apenas uma opinião dele sobre a obra”, conta Borensztein. “Mas Darín se ofereceu para o papel principal.” O filho do ator, Ricardito, de 22 anos, até o recrimina por tal postura. “Ele acha que devo ser mais esperto com meu dinheiro, brigar pelos meus direitos”, diz Darín pai, rindo. “Sou um romântico, eu sei.”

Apesar do sucesso internacional, Darín não ficou rico. Mora há anos na mesma casa, no bairro portenho de Palermo, onde gosta de comandar a churrasqueira. Leitor de Cortázar e trabalhador contumaz, esse filho de atores que começou aos 10 anos nos palcos já participou de mais de 40 filmes. Darín ama atuar, mas assegura que esse é apenas um capítulo de sua vida. “Para mim, o maior prazer é terminar um dia de filmagem, deixar o personagem no set e vir para casa.” Ali encontra “o clã”, como o chama, que além de Ricardito inclui sua filha Clara, 17 anos, e a mulher, Florencia Bas, a Flor, com quem se casou há 23 anos. “Adoro estar casado. Flor é minha companheira, meu amor”, derrete-se.

Foi depois de um namoro com a apresentadora de TV Susana Giménez (uma loira platinada, mistura de Hebe Camargo com Ana Maria Braga, mais velha que ele) que Darín e Flor tiveram “um clique”, como diz. O casamento saiu mais rápido do que esperavam. “Pedi autorização ao pai de Flor para a gente viajar juntos. Eu tinha 31 anos, e ela, 20. O velho me disse: casa com ela. Se casar, você não precisa perguntar mais nada pra ninguém.” Assim foi. Hoje, longos papos, jantares e viagens fazem parte do roteiro dos Darín. “Qualquer dia vou acabar numa passarela, de tanto que tenho frequentado desfiles de moda para agradar minha mulher e minha filha”, diz.

Mais magro pessoalmente do que nos filmes, ele está tentando cuidar da saúde. Este ano, começou a fazer yoga, pilates e parou de fumar. Avesso a aparições na TV, participou de um programa sobre os malefícios do cigarro: “Fumei a vida inteira, mas não posso comemorar. Levo apenas 100 dias sem vício”, declarou à emissora C5N em 31 de maio, dia mundial sem cigarro. Também foi visto na telinha numa campanha do Greenpeace para impedir a construção de uma usina na Patagônia. Seja para defender uma causa ou a trabalho, Darín parece seguir a mesma máxima ao expor sua imagem: só se mostra se acredita no que está sendo dito.

Ele não gosta, porém, de encontrar pessoas da vida real que porventura interpretará. Evita ainda assistir a peças ou filmes que estrelará, encenados por outros atores. “Acho que, se eu me fixar muito em um modelo (faz aspas imaginárias com os dedos) vou acabar me condicionando e será difícil sair dessa cápsula.” Segundo ele, o ideal é “vestir” o personagem com credibilidade e assim “poder se mover”, usando sua criatividade. Quando lhe dizem que é um ator versátil, responde: “Eu sou um trabalhador. Versáteis são Edward Norton e Robert De Niro!”

A parte do trabalhador ninguém discute: ele protagonizou 14 filmes nos últimos 11 anos. E, por via das dúvidas, até que seu GPS intuitivo lhe diga qual o próximo personagem a escolher, vai tentando aprender algum português. Ao vestir a jaqueta para as fotos desta reportagem, por exemplo, perguntou: “Como se diz campera? Casaca ou casaco?”. O papo vai terminando. Darín vai atender uma apresentadora e modelo da TV argentina, chamada Pampita, que vem entrevistá-lo. “Ah, não, maquiada para falar comigo? Isso é covardia”, diz ele ao recebê-la, sedutor. Um curioso que acompanha a cena solta: “Darín es un grande”. Algo como “ele é o maior”. Pode até ser, mas nem por isso o ator perde a simplicidade ou atua com soberba. O que só nos leva a admirá-lo. E olha que se trata de um argentino.