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Só agora (velho demais) li Na estrada, de Jack Kerouac, pouco antes de ver o filme que Walter Salles fez e que está passando no cinema. Uma vez, na adolescência, li um trecho que ficou na minha cabeça durante dias. Era Kerouac dizendo que o amigo dele pelo qual era obcecado, Dean Moriarty (citando de cabeça), “dirigia um carro como se dirigir fosse uma obra de arte, como se o volante fosse o pincel e a estrada fosse a tela”. Fiquei dias tentando dirigir como se dirigir fosse uma obra de arte. Não dá. Dirigir é só dirigir. Assumi que se tratava de uma paixão gay na qual o menor gesto da pessoa amada é “uma obra de arte”. Kerouac ficou conhecido pelo estilo que chamou de “prosa espontânea”: uma enxurrada não editada de parágrafos. Esse é o ponto em que Truman Capote é sempre citado dizendo que isso “não é literatura, é datilografia”. Não diria tanto. O estilo de Kerouac serve para blogs (mas só para posts enraivecidos) e para primeiros rascunhos, mais do que para um romance acabado – embora ocasionalmente seja responsável por uns trechos de leitura fluida na primeira parte. Se alguém me perguntasse se vale a pena ler Kerouac, eu lhe daria essas primeiras trinta páginas, poria de volta os nomes reais das pessoas para que o texto não seja lido como ficção, e diria: “Toma, lê como se fosse uma carta. Como carta, esse trecho é bom”.

Na Estrada é uma história de amizade masculina. Sal Paradise (não consigo escrever esse nome sem me contorcer de embaraço), o alter ego de Kerouac, conhece Dean Moriarty quando este abre a porta pelado (no livro ele está de roupa) para ele e outros dois sujeitos. Mesmo estando pelado, dois heterossexuais que nunca o viram antes não hesitam em abraçá-lo, o que me parece menos realista que James Bond atravessando um lago de crocodilos em Com 007 Viva e Deixe Morrer (1973). Na realidade o único que o abraçaria pelado é o poeta Allen Ginsberg, que no filme é um gay hipster que se parece com 90% dos críticos que viram o filme na minha sessão.

Dean Moriarty é um desses sujeitos que mesmerizam machos à sua volta porque é energético (no filme é um tanto macambúzio) e é o tipo de sujeito que bate palmas de repente quando os outros estão dançando e grita como um zorba o grego DANCE COMO SE ESTIVESSE VIVO!, e logo começa a dançar estrebuchando ao som de um batuque bebop, enquanto a câmera, amorosa e desmunhecadamente, se detém no seu abdome suado. Ele quer Viver a Vida Intensamente, e, como todos os que vivem a vida intensamente, é um chato — quase um Cazuza balançando num lustre.

O elenco é bonito como o de Felicity, embora apareçam esculhambados de um jeito chique, reminiscente de Dick Van Dyke com a ponta do nariz suja de carvão em Mary Poppins. A sensualidade do filme, que não é desprezível de todo, é um tanto Adrian Lyne. Nada disso é necessariamente um problema. Os problemas reais do filme são dois: um, nenhum traço das conversas noite adentro que eram típicas dos encontros daquele grupo. No livro é isso que atrai esses rapazes uns aos outros, pelo menos inicialmente: é como se fossem personagens especialmente tagarelas de Dostoiévsky. Pode ser que a conversa fosse um tanto pseudo, mas é charmoso que vivessem à base de ideias e se procurassem e se amassem por causa de ideias. No filme, quando falam, é num ritmo de meia frase por minuto.

Dois, talvez fizesse sentido escrever em 1951 um livro “contestador dos valores da sociedade burguesa”, quando esses valores eram reinantes e, vá lá, opressivos. Mas agora, quando todos os filmes, romances e séries de tevê – todos os estúdios e agências de propaganda – assumem a mesma posição contracultural, o filme perde a força. Qual o sentido de ridicularizar a velhinha coroca que faz o sinal da cruz por qualquer coisa? Ela já não é ridicularizada em todos os outros filmes?

Tendo dito isso, confesso que há alguma beleza, alguma pequena magia na ideia de Dean Moriarty. Ou pelo menos senti isso quando ouvi no filme as famosas últimas linhas do livro: “Eu penso em Dean Moriarty, eu penso até no Velho Dean Moriarty o pai que nunca encontramos, eu penso em Dean Moriarty”. Pena que essa ideia nunca se transforme num personagem de verdade. Por mais chato que Neal Cassidy (escrevi errado só para causar faniquitos nos fãs do livro; o correto é Cassady) fosse na vida real, dá uma certa pena que nem o ator que o interpretou, nem principalmente o escritor que escreveu sobre ele, tenham sabido insuflar vida em Moriarty. Mesmo só esboçado há algo nele que às vezes deixa de ser chato e se torna interessante. Talvez a verdade seja que qualquer pessoa que saiba o que quer da vida, mesmo algo tão banal e brega quanto VIVER! assim com maiúsculas, é melhor do que a nossa falta de energia e as nossas perpétuas hesitações sobre como viver a vida. Além disso, há uma poesia da estrada. E mesmo um diretor um tanto vazio como Walter Salles não consegue esconder esse encanto o tempo todo.

A pequena lista das coisas que realmente importam agora

Livros

O Corcunda de Notre-Dame
Escrito no estilo grandiloquente e soberbo de Victor Hugo, que nenhum contemporâneo nosso saberia imitar sem acanhamentos e ironias, o livro tem como personagem principal a catedral de Notre-Dame, em Paris – é o melhor romance sobre arquitetura de todos os tempos. Edição bonita da Leya com ilustrações de Pedro Franz.

Esse é Meu Tipo
Um livro sobre Fontes Simon Garfield conta a história de várias fontes – incluindo a Comic Sans. Divertido e surpreendentemente interessante.

Séries

Veep, HBO
Satírica, retrata uma vice-presidente (Julia Louis-Dreyfus) e sua equipe. Todos os políticos que aparecem são vagamente corruptos, pateticamente vaidosos, incompetentes e não ideológicos. Suponho que na vida real é o melhor que se pode esperar de políticos. De toda forma é mais realista do que os políticos enérgicos e idealizados de The West Wing – e mais engraçado.

Sites

The Spearhead (www.the-spearhead.com)
Dedicado ao movimento masculinista (grupo de homens que combatem o feminismo), os textos são às vezes um pouco paranoicos, às vezes um pouco misóginos, às vezes chorões; um ou outro texto é tão insuportável quanto as próprias feministas, mas muitos deles acertam o tom, vale dar uma olhada.

Ada Online
(www.ada.auckland.ac.nz) A melhor maneira de ler
Ada, de Vladimir Nabokov. Nesta página, várias expressões e referências são explicadas pelo maior especialista
no autor, Brian Boyd.

Matéria publicada na Revista ALFA de julho de 2012.