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Cenas de lesbianismo, masturbação feminina e de thriller psicológico fazem de “Cisne Negro” a principal estreia dos cinemas nesta sexta-feira. São cinco indicações ao Oscar, incluindo a de melhor atriz para Natalie Portman. Esta é Nina, uma bailarina clássica com técnica apurada, mas que é desafiada pelos papeis que terá que realizar em “O Lago dos Cisnes”. Deverá fazer o papel de cisne branco, a delicada princesa aprisionada, bem como o de cisne negro, sua sedutora e perigosa irmã. Nina, recatada e pressionada pela mãe Erica (Barbara Hershey), terá que desenvolver a sensualidade necessária para não desapontar a si mesmo e Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da companhia de dança.

A volúpia de Nina e sua habilidade para interpretar o cisne negro crescem à medida que a personagem principal se afasta da mãe superprotetora e se aproxima de Lily (Mila Kinus), a nova dançarina da companhia que é ao mesmo tempo amiga e rival. É com Lily que Nina alimenta sonhos eróticos, os quais nos são felizmente mostrados na tela. É contra Lily que Nina alimenta o ódio, uma vez que percebe que a novata quer roubar seu posto no balé.

O filme é feliz em retratar a pressão e disciplina que artistas profissionais estão submetidos. A tensão e o stress de Nina para construir seu personagem transformam “Cisne Negro” em um thriller psicológico, quase um filme de terror. Sua mania de coçar as costas aumenta, sua imaginação se torna mais fértil. Alucinada, Nina passa a ver imagens que não existem. Seu reflexo toma vida própria. Até o ponto em que seu duplo se apodera completamente de sua personalidade.

O par oposto cisne negro/cisne branco corresponde ao Nina livre e má/Nina queridinha da mamãe. Um duplo que só pode levar ao final dramático e triste, uma vez que também é símbolo de mau agouro. É nesta relação entre o palco e a vida de Nina que reside a força do filme. O duplo, ou no alemão doppelgänger, da bailarina se mistura ao seu personagem no palco do teatro. De fato, em um das mais belas cenas do filme, sua sombra aparece refletida diferente no fundo do palco.

É claro que clichês são deixados pelo caminho, como o abandono dos ursos de pelúcia ou a antiga bailarina favorita vítima de um acidente de trânsito. Mas isso não tira a força do papel e dificilmente tirará o Oscar das mãos de Natalie Portman, que já ganhou o Globo de Ouro e o SAG Awards. As outras concorrentes (Annette Bening, Nicole Kidman, Michelle Williams, Jennifer Lawrence) fazem papeis com menor expressão e menor complexidade psicológica.

Natalie Portman havia feito poucas aulas de balé na infância e teve que se preparar para “Cisne Negro”. Dança em 90% do filme graças ao apoio de profissionais como Georgina Parkinson, do Teatro de Balé Americano (que morreu antes de ver o filme pronto) e Olga Kostritzky, que foi professora de Baryshnikov. Ninguém pegou leve ou poupou esforço. Durante as filmagens, a atriz sofreu uma lesão nas costelas e teve que atuar com dor. Sacrifício que a Academia adora prestigiar.

“Cisne Negro” também é um dos indicados por melhor fotografia. Há muitas cenas filmadas na mão. Imagens que balançam conforme acompanhamos os passos do personagem. Planos fechados destacam o que fazem do balé um balé: ponta dos dedos, sapatilhas, movimentos de pernas e o coque na cabeça. Destaque também para a primeira sequência do filme: um prólogo dramático com jogos de luz e sombra.

O diretor Darren Aronofsky, também indicado ao Oscar, soube trabalhar com oposições (luz e sombra, branco e negro, repouso e tensão) e com o famoso tema de Tchaikovsky para construir um filme cheio de som e fúria.

Saiba os horários das sessões na VEJA SÃO PAULO.