Autor

A Mulher Honesta

por Ailin Aleixo

Ela não tem medo de dizer o que pensa (só tem medo de apanhar na rua).



Tatuagem com nome de namorado = vaca marcada

 

Acho ridículo e absolutamente machista tatuar o nome do namorado/marido. É a versão humana de gado marcado com ferro quente, o aviso permanente e público “sou propriedade de”.

Não consigo enxergar nada de romântico no fato de ter um carimbo em que se deixa claro a completa falta de responsabilidade sobre a própria vida: ninguém é bicho de estimação para ter um “dono” que faz o que quer. Porque ser propriedade é isso, ficar à mercê das vontades alheias, ser uma “coisa” privada de livre-arbítrio e não um ser humano.

Não encontro um grama de sentido em eternizar alguém com tinta. Não acho necessário gritar, real ou figuradamente, quando o que se tem com o outro é real, sólido. Ficar na memória é muito mais importante, íntimo e relevante do que estampar um pedaço de pele—  âncoras, Betty Boops, índias de cabelos compridos, florzinhas toscas e golfinhos mal desenhados também estampam…

Mas tatuar “Xonildo, amor eterno” é, antes de tudo, ignorar as milhares e cotidianas surpresas da vida e crer, com um misto de ingenuidade e pretensão quase divina, que os sentimentos e os desejos continuarão sempre os mesmos, imutáveis. É colocar no outro todo o peso e sentido da sua existência— e, com isso, tirar dos próprios ombros a obrigação de comandar seus dias. É um desejo de voltar a ser uma criança guiada, cuidada, excluída de toda e qualquer necessidade de decisão. É triste.

Ser “de alguém” é o modo mais fácil e o caminho mais curto para não ser ninguém. E essa nulidade nenhum laser apaga.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo 

Chupa essa manga!

Nada mais insuportável do que gente que não diz o que sente. Ou que não sente e não diz. Tenho ganas de fazer engolir a faca de atravessado em quem demonstra tanta emoção quanto um sapo ornamental. Sempre aquele sorrisinho indecifrável grudado na fuça.

Não dá para confiar em quem se dá bem com todo mundo: parto da premissa de que quem é amigo da garotada não é verdadeiramente amigo de ninguém. Brother do peixe e camarada da isca. Insegurança travestida de simpatia, baita necessidade de aceitação. Um tanto patético em se tratando de adultos, vamos convir. Da mesma forma, não boto nem um tiquinho de fé em quem se dá fenomenalmente bem com seus exs: é sinal de que não se envolveu efetivamente com nenhum, que sai dos relacionamentos como se tivesse saído do cabeleireiro: impecável. Pessoas assim acham mais importante continuar sendo gostados do que amar, se entregar, e correr os riscos que isso envolve. Inclusive o de ser odiado. Por isso quase nada (a não ser ausência prolongada de orgasmos) é tão decepcionante, esfrangalha tanto os nervos de uma mulher, como dividir a vida com um sabonetão. Nenhum surto, nenhum grito, nenhum beijo, nenhum riso largo e sonoro. Tudo sempre é morno, tem explicação, está bom ou (se for o caso) pode ficar melhor, tem saída. Sempre aquele irritante, imbecil, pseudo-zen sorrisinho.

Confesso minha inaptidão para compreender esse cruzamento de estátua do Madame Tusseau com garoto propaganda de pasta de dente: gosto ou não, sem meio termo. Não existe esse troço de estado de suspensão amorosa, bem porque se fulano não faz diferença na minha vida está automaticamente fora dela.

Passionalidade é o que difere as relações humanas do cruzamento das minhocas, do namoro das iguanas. Quem passa pelo outro sem se intoxicar dele deixou de viver para se preservar (ô coisa besta), e vai ganhar o quê com isso? Histórias recheadas de momentos maravilhosos? Lembranças divertidas? Cicatrizes mentais e, em casos de exagero na dose, reais? Não, só vai perder: perder o próprio tempo e o do outro, privá-lo de viver com 100% da capacidade. Paixão de verdade, daquelas que valem a pena e o gozo, deixa vestígios. Qualquer coisa vivida por inteiro deixa vestígios: boa comida só é preparada sujando panela, quadros só viram obras-primas depois de muita tinta ter encardido as mãos do artista.

Amar, pra mim, é como comer manga: o prazer é diretamente proporcional à lambança e ao tempo que se demora pra tirar os fiapos. E daí se mancha? Tudo na vida tem seu preço.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo 

“Eu posso?”

Por favor, deixa vai?

 

Pedir permissão para ser você mesmo é algo que ultrapassa meu entendimento. Simplesmente não consigo processar.  

 Acho muuuuuito deprê assistir um marmanjo tirando do fundo do estômago um jeito razoavelmente meigo— mas no qual preserve o mínimo de dignidade– de pedir “autorização” para namorada para sair com os amigos. É tão incompreensível, irracional e amedrontador quanto só sair para almoçar depois de pedir a benção do chefe… Um relacionamento é o terreno no qual deveria me sentir completamente à vontade e poder exercer o direito de ser eu sem me preocupar com julgamentos—afinal, se aquela pessoa compartilha a vida comigo, nada mais óbvio do que ela saber, entender e aceitar que a tal vida inclui amigos, família, vontade de ficar sozinha, gatos/cachorros/iguana, desejo de mandar pra pqp o motorista da frente, anseio desesperado por uma tarde sonolenta e muda na rede. Mas tem gente que não compreende, e o faz por uma única razão: tem uma existência tão vazia que basta uma única pessoa para preenchê-la toda. Mas não dá pra ser a extensão de alguém: é triste demais.   

Viver um relacionamento baseado em “permissões” é como usar uma tornozeleira de monitoramento: você pensa ser livre e vive felizão nessa ilusão. Quando menos espera, no momento mais divertido, alertam que você passou dos limites e ordenam que volte para seu devido lugar. O equivalente humano do “junto!” canino. Quem necessita conhecer todos os passos do parceiro para se sentir bem, sofre de uma lamentável  insegurança travestida de dominação. Em vez de cidadão se tratar e descobrir a razão da necessidade doentia de controle, impõe sua condição ao outro— e ainda deixa implícito que isso é “natural” em qualquer casal. Natural é ligar para avisar que vai chegar mais tarde porque decidiu ir ao karaokê. AVISAR. COMUNICAR. DIZER. FALAR. Pedir, pra mim, é usado em duas condições: nas desculpas e na licença.   

É ridículo pedir permissão para viver a própria vida. O que dá, e pode ser delicioso, é vivê-la ao lado de alguém que também tenha uma.   

Porque só quem vê sentido em si mesmo– independente de você ou de qualquer pessoa– pode ser boa companhia para alguém.  

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo 

O atoleiro do passado

Tempos de definição são difíceis. Duros. Exigem de nós energia que por vezes não temos—não é todo dia que queremos lutar contra sentimentos díspares, complicados, que desejamos nos perguntar se realmente o amor acabou, se o que sobrou foi só carinho e preocupação, ou se ainda existe um resquício mínimo que guarda em si a possibilidade do renascimento. Não é todo dia que temos fôlego para questionar o que fizemos de nossa vida até aqui e qual o rumo que realmente queremos dar a ela. Cansa. Exaure.

Algumas cisões mudam toda a maneira de ver o mundo: lá se vai a crença de um amor que resiste a tudo e fica um gosto estranho de fracasso, como se as emoções, e as pessoas, pudessem ser avaliadas em termos tão maniqueístas. Separar-se de alguém que se amou demais é, antes de mais nada, triste. Mas tristezas, por mais fundas que sejam, passam. Desde que não as alimentemos.

A forma mais comum de alimentá-las é insistir em um contato nocivo por nos trazer alento, um tanto duvidoso, mas um alento: a voz conhecida, as palavras um dia tão queridas, o choro que sabemos como estancar, a risada que nos lembra dias mais ensolarados (você já reparou como nos sentimos mais acolhidos com a segurança do passado conhecido, com todos os seus problemas, do que com o vislumbre do futuro?). Alimentá-la é achar que isso pode, em algum nível, fazer bem para algum dos dois. Eu já participei dessa peça. É como manter vivo um paciente com falência cerebral na esperança de que um milagre o faça acordar sorrindo, inteiro. Dói todos os dias em que isso não acontece. E dói mais ainda quando, finalmente, ele morre— mas, então, pelo menos, todos estão livres para seguir a vida.

 A verdade é que enquanto não decidimos se acabou ou não, se queremos aquela relação de volta (com todas as idiossincrasias, neuroses e desgastes que nos fizeram partir) ou se ela faz parte do panteão do passado, nada anda. Atolamos. Ninguém novo pode entrar, arejar os dias. Nem sozinho ficamos bem. Só a vulto constante da tristeza nos acompanha, mesmo nas horas mais alegres—ela sabe que, a qualquer momento, a guarda baixará e haverá espaço suficiente para voltar a instalar.

Enquanto continuarmos a olhar para trás, o passado é tudo o que veremos– mesmo não significando que ele seja tudo o que existe.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

No final das contas, o que é amar alguém?

Jamais soube, verdadeiramente, o que significava amar. Não o amor de amigos, família – esse é fácil de distinguir, seja pela força do sangue, seja pelo poder agregador da história em comum. Nunca consegui identificar os indícios da existência do amor quando o envolvido era aquele que entrava na minha vida e permanecia, mudando tantas coisas, acertando outras tão desarrumadas há tempos, adicionando complicações e prazeres. A incerteza estava sempre lá, questionando se aquilo era amor ou apenas uma sensação prolongada de satisfação que, fatalmente, acabaria. E, se acabasse, teria sido amor?

Em algum canto de mim morava a certeza tolamente romântica de que, quando se tornasse realidade, ele curaria minha ansiedade inerente e instalaria a tranqüilidade tão desejada, necessária. Mas isso não aconteceu. Nunca uma pessoa apaziguou meu tumulto. Então teria sido amor?

Os fatos – tão repletos de ausência de sentido em tantos momentos – que me deixam incrédula, rancorosa, triste, seriam apenas pequenos contratempos sem importância comparados ao brilho e à dimensão que a entrada do amor daria a minha vida. Alguns homens passaram por mim, mas a ocasional frustração e a raiva causadas por palavras ferinas e atos escusos – e a inevitável decepção atrelada a eles – nunca deixaram de me assolar. Se a presença de nenhum deles tornou insignificante minha angústia, teria sido amor?

Jamais desejei, com urgência e paixão uterinas, ter filhos com um homem nem sonhei com uma grande mesa repleta de netos, noras e genros. Também não me imaginei, idosa, ao lado dele a passear pela rua. E me senti uma subespécie de mulher, isolada do resto da humanidade portadora de belos desejos a longo prazo: se nunca vislumbrei esse futuro conjunto, teria sido amor?

Demorei para aprender, mas hoje compreendo o significado de amar. O meu significado. Amar alguém é curtir o correr dos dias ao lado dele, tirando, a cada oportunidade, o peso devastador das expectativas, porque é da leveza que nasce a harmonia. É sentir (e não saber – o que faz toda a diferença) que ele precisará da minha ajuda tanto quanto eu de um ombro para descansar; que o fim não mede a beleza de uma relação, assim como a morte não anula quem fomos; que nada, nem ninguém, arrancará de mim as sensações que me fazem ser quem sou (e que precisarei, sozinha, não destruí-las, mas lidar com elas); entender que a obrigação de me salvar é absolutamente minha.

Amar alguém é ter a liberdade de ser.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Mulher que é mulher dá para quem ela quiser

Mulher que é mulher dá pra quem ela quiser e nem perde tempo pensando nesse assunto porque é algo tão natural e simples na sua vida quanto escovar os dentes ou ir ao cinema. Por isso acho bem esquisito essas meninas (independente da idade que tenham continuam meninas) cheias de preocupação, lendo livros e fazendo contas (primeiro encontro, terceiro, décimo segundo?) para descobrir o momento ideal de arriar a calcinha de renda. Saturno e Vênus deverão estar alinhados conspirando para um acontecimento pós-transcendental. Parece que elas são oferendas pra Quetzalcoatl! É só sexo. Passional, carnal e intempestivo como deve ser. Deixem as contas pro IBGE, as regras de bom comportamento para os colégios de freira, e vivam. Comprem camisinhas e mandem bala.

Apesar da aparente modernidade, tem muita mulher regulada por aí. E não porque não sintam vontade de liberar, não: esse motivo é respeitável. É porque tem medo do que os outros vão falar. Medo do que o cara vai pensar dela, vê se pode. Se uma garota teme o juízo que o cidadão vai fazer dela depois do bundalelê, é um aviso dos céus de que não deve dar pra ele de jeito nenhum—a menos que goste de transar com babacas moralistas.

Jamais me preocupei com o que o vizinho, o porteiro ou qualquer terceiro pensam de mim: se eles não tem nada mais importante pra fazer do que vigiar a vida alheia, pobre deles. O problema é que nossa sociedade é, feito lençol freático, permeada por um moralismo mais contaminador que dengue e, quando você menos espera, se pega censurando a conduta dos outros igualzinho sua avó. Comportamento herdado, sabe? Pior que isso, comportamento arcaico. Ou patético.

Homem que fica encanado com a vida sexual pregressa da namorada precisa tomar surra de frigideira pra parar de ser besta. O mais engraçado é que os machos rodados se acham os Tiger Woods do sexo (acertam o buraco cada vez com mais distinção), mas as mulheres viram roupa comprada em brexó? Ah, faça-me o favor. Dou o que é meu e ninguém tem nada a ver com isso. E, aliás, o número de pessoas que passaram pela minha cama, ou pela dela, não te interessa, não altera a BOVESPA, nem a minha personalidade ou valor. Muda, isso sim, a experiência. O que é, ao meu ver, ótimo: ter referencial é algo valiosíssimo nesses dias de propaganda enganosa…

Mas, veja bem: dar pra quem quiser não significa passar o rodo no time de basquete inteiro ou em toda sua turma de amigos, não. Isso é falta de respeito consigo mesma. Porque, como disse Leila Diniz a um babacão que, depois de tomar um sonoro fora, a chamou de vagabunda: “Querido, eu posso dar pra todo mundo, mas não pra qualquer um”. Isso é que é mulher.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Homem burro é como churro

 

Homem burro é como churro: pode até dar água na boca quando se olha, mas mal se acaba de comer e já causa indigestão. Sem falar na culpa que bate por não termos gasto as calorias em algo mais refinado…. coisa bem comum de acontecer quando aqueles drinques invadem os neurônios causando uma fome tão poderosa que espanca o raciocínio.

 Nunca fui fã de moços que pedem sanduíche de “mortandela”, muito menos daqueles que discutem a obra de Mohsen Makhmalbaf em oposição à de Jafar Panahi e a sua importância no cinema iraniano atual. Os dois tipos, apesar de separados por um oceano de bibliografia, sofrem de uma completa falta de noção do mundo e de quando calar a boca. Ambos, apesar das diferenças, são igualmente burros. E esse, pra mim, é o maior defeito que um homem pode ter.

Pança se perde diminuindo a ingestão do barril semanal de chope. Pelo na orelha se resolve com uma tesourinha. Mas, burrice, só nascendo de novo. Adquirir cultura até dá pra conseguir na mesma encarnação, mas não adianta nada saber tudo sobre a obra de Rachmaninoff e não perceber que boteco com os amigos não é ambiente, nem hora, de exibir os conhecimentos artísticos. Eis aqui meu ponto: a inteligência vai muito além de enfileirar conhecimentos. Um homem inteligente é aquele que sabe quando ser bocóo e contar a piada dos pontinhos e a hora de virar um gentleman e usar sua cultura e panca de bom.

Inteligência, nesse sentido, é um tesão. É uma delícia ser surpreendida por comentários sarcásticos, respostas inusitadas. Não saber de cor e salteado o discurso do outro, as reações. Não existe nada mais agradável do que uma pessoa cuja companhia é, mesmo depois de muito tempo, surpreendente.

Um homem inteligente sabe muito bem que dois vestidinhos pretos (por mais parecidos que sejam) não têm a mesma alma. Um homem inteligente discorda sem brigar e, se for preciso, briga, mas sem transformar a noite em uma longa disputa pela razão — ele sabe que, nessas horas, ninguém tem razão.

Peitão delineado e coxonas grossas são realmente apetitosos. Mas eu troco fácil um bíceps bem definido por uma conversa envolvente regada a álcool. Porque, no final, o que me excita é aquilo que está escondido não nas calças, mas por detrás daquele sorriso.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

A importância do beijo

Sem ele não há céu.

Não importa o quanto se insista baseado em racionalizações: sem ele, só restam justificativas.

O que poderia ser resplandecente torna-se opaco.

Nada resiste.

Quando esquecemos dele com a mesma displicência que esquecemos de tomar o remédio deixado em cima da mesa– na pressa, pressionado por urgências, nos cegamos– estamos nos dirigindo, infalivelmente, ao destino árido de uma convivência esvaziada de sutilezas.

Duas pessoas são capazes de passar por muito juntas: brigas, mortes, decepções, falta ou excesso de dinheiro. Mas sem o beijo, o que era um casal torna-se apenas dois seres coexistindo. Seres que podem, porventura, viver juntos e dizer que se amam.  Mas não se tocam seus lábios, o que dirá de suas almas.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

As mulheres assassinaram o cavalheirismo

Não preciso que ninguém pague a conta do restaurante: trabalho desde os 20 anos e posso muito bem arcar com o preço da minha almôndega.

Não preciso que ninguém puxe a cadeira para que eu sente: tenho braços e o mínimo de coordenação motora para realizar a tarefa.

Não preciso que ninguém abra a porta do carro para eu entrar: consigo usar minhas mãos pra isso. E, bônus, sem cair de cara no meio-fio.

Realmente  posso fazer tudo isso sozinha. Mas adoro quando um homem faz por mim.

Cavalheiros são uma raça superior; e mulheres que sabem receber essas delicadezas sem chiliques, também. Nada mais ridículo do que uma feminista ensandecida que interpreta uma simples gentileza masculina (chamar o garçom para servir o vinho, por exemplo) como uma ameaça devoradora à sua independência. Parece que ele está querendo extirpar o clitóris da cidadã. Ah, vá se catar! Beba o vinho e cala a boca: deixe o cara ser homem e cuidar.

Adoro mimos masculinos. Quanto mais flores chegarem ao meu trabalho, melhor. Curto que cedam a passagem para mim na escada rolante. Se ele quiser ficar do lado da rua enquanto andamos na calçada, tudo bem: não sinto minha liberdade ameaçada porque ele prefere que eu não seja atropelada. É uma tremenda mentira dizer que afagos cavalheirísticos não fazem falta nestes tempos de tantas obrigações, deveres infindáveis. Para que me privar de coisas tão boas quanto ter uma jaqueta colocada sobre as minhas costas numa noite de vento frio? Aceito ser a parte mais “fraca” se isso significa ser cuidada com carinho.

Mas homem cavalheiro é um troço difícil de achar. E a culpa é, em boa parte, das mulheres: se parássemos de reclamar da falta de modos e galanteios dos machos e nos tornássemos melhores professoras (seja como fêmeas, seja como mães), todas estaríamos mais satisfeitas. No final das contas, eles são frutos da nossa educação. Se a maioria tem o grau de gentileza de um hooligan é porque deixamos de mostrar que ser zeloso não é sinônimo de ser veadinho e que ser carinhoso não broxa; nos omitimos na hora de apontar a trilha certa e só saímos da moita no momento de dar bronca porque eles enfiaram o pé no estrume. Daí já é meio tarde: a merda está feita.

P.S: Da mesma maneira que as mulheres deixaram de admitir e achar natural serem subjugadas, está na hora de reivindicar sermos tratadas com gentileza. E tratar da mesma forma. Porque, pra mim, ser gentil não está associado a querer traçar alguém; apenas acho que o mundo, com um pouco mais de tato, se tornaria um lugar mais agradável para passar a vida. E como é o único lugar que todos temos…
 
Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Cobrança: o pior dos infernos

Pode não querer ir ao cinema durante cinco meses mas ficar bravo quando eu não me mostro efusiva para comparecer àquela festinha de 3 anos da filha da prima.

Pode largar o saco do pão francês aberto em cima da mesa e não colocar a faca suja de margarina dentro da pia.

Pode ser sutil como uma zebra no cio na hora em que quer transar mas incorporar o boi de rodeio quando eu prefiro retirar meu time de campo porque não deu tempo de entrar no clima.

Pode até se irritar ao ver o melão apodrecendo na geladeira (e ele só come melão se eu cortar).

Várias pentelhices são suportáveis, mesmo porque, se não fossem, ninguém ficaria casado mais do que cinco horas. O único item absolutamente detestável, que pára na garganta feito espinho de sardinha, é aquela mania pestilenta de achar que sempre, por mais que se faça, o outro está aquém.

A coisa mais odiável numa relação é a cobrança.

Desde pequenininha, tenho bem claro para mim que a complicação das pessoas é tão intrínseca quanto o fato de terem duas orelhas e 20 dedos.  Por isso não exijo atitudes 100% coerentes nem paciência de enfermeiro o tempo todo. Mas acho imperdoável a insatisfação permanente que permeia a vida de alguns e transforma tudo, inclusive a existência dos outros, numa grande caca. Ninguém tem a função de fazer o outro feliz, apenas de tentar ser feliz junto ao outro. Tarefa complicada o bastante, aliás. Se não relaxarmos, tudo será, sempre, um grande problema, uma tarefa hercúlea, um sutiã apertado.

No final, todos sempre deixamos algo de lado, seja por falta de tempo, seja por puro e simples esquecimento. O que realmente importa é aquilo que lembramos e fazemos sem esforço, com naturalidade. Eu posso não ter cortado o melão, mas dei a ele o presente de aniversário que o deixou mais feliz que um garoto de 7 anos diante de um Playstation. Ele pode andar meio grosso e nada carinhoso, mas foi comprar colar cervical para mim no instante em que notei ter ficado avariada por fazer faxina na casa — e, na semana seguinte, pagou a faxineira.

É essencial ter consciência de que uma relação só tem alguma chance de funcionar se pararmos de ser chatos. Caso contrário, cobraremos eternamente. E, eternamente, seremos carrascos infelizes e azedos. Muito azedos.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo