Tatuagem com nome de namorado = vaca marcada
Acho ridículo e absolutamente machista tatuar o nome do namorado/marido. É a versão humana de gado marcado com ferro quente, o aviso permanente e público “sou propriedade de”.
Não consigo enxergar nada de romântico no fato de ter um carimbo em que se deixa claro a completa falta de responsabilidade sobre a própria vida: ninguém é bicho de estimação para ter um “dono” que faz o que quer. Porque ser propriedade é isso, ficar à mercê das vontades alheias, ser uma “coisa” privada de livre-arbítrio e não um ser humano.
Não encontro um grama de sentido em eternizar alguém com tinta. Não acho necessário gritar, real ou figuradamente, quando o que se tem com o outro é real, sólido. Ficar na memória é muito mais importante, íntimo e relevante do que estampar um pedaço de pele— âncoras, Betty Boops, índias de cabelos compridos, florzinhas toscas e golfinhos mal desenhados também estampam…
Mas tatuar “Xonildo, amor eterno” é, antes de tudo, ignorar as milhares e cotidianas surpresas da vida e crer, com um misto de ingenuidade e pretensão quase divina, que os sentimentos e os desejos continuarão sempre os mesmos, imutáveis. É colocar no outro todo o peso e sentido da sua existência— e, com isso, tirar dos próprios ombros a obrigação de comandar seus dias. É um desejo de voltar a ser uma criança guiada, cuidada, excluída de toda e qualquer necessidade de decisão. É triste.
Ser “de alguém” é o modo mais fácil e o caminho mais curto para não ser ninguém. E essa nulidade nenhum laser apaga.
Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo



















