Pode não querer ir ao cinema durante cinco meses mas ficar bravo quando eu não me mostro efusiva para comparecer àquela festinha de 3 anos da filha da prima.

Pode largar o saco do pão francês aberto em cima da mesa e não colocar a faca suja de margarina dentro da pia.

Pode ser sutil como uma zebra no cio na hora em que quer transar mas incorporar o boi de rodeio quando eu prefiro retirar meu time de campo porque não deu tempo de entrar no clima.

Pode até se irritar ao ver o melão apodrecendo na geladeira (e ele só come melão se eu cortar).

Várias pentelhices são suportáveis, mesmo porque, se não fossem, ninguém ficaria casado mais do que cinco horas. O único item absolutamente detestável, que pára na garganta feito espinho de sardinha, é aquela mania pestilenta de achar que sempre, por mais que se faça, o outro está aquém.

A coisa mais odiável numa relação é a cobrança.

Desde pequenininha, tenho bem claro para mim que a complicação das pessoas é tão intrínseca quanto o fato de terem duas orelhas e 20 dedos.  Por isso não exijo atitudes 100% coerentes nem paciência de enfermeiro o tempo todo. Mas acho imperdoável a insatisfação permanente que permeia a vida de alguns e transforma tudo, inclusive a existência dos outros, numa grande caca. Ninguém tem a função de fazer o outro feliz, apenas de tentar ser feliz junto ao outro. Tarefa complicada o bastante, aliás. Se não relaxarmos, tudo será, sempre, um grande problema, uma tarefa hercúlea, um sutiã apertado.

No final, todos sempre deixamos algo de lado, seja por falta de tempo, seja por puro e simples esquecimento. O que realmente importa é aquilo que lembramos e fazemos sem esforço, com naturalidade. Eu posso não ter cortado o melão, mas dei a ele o presente de aniversário que o deixou mais feliz que um garoto de 7 anos diante de um Playstation. Ele pode andar meio grosso e nada carinhoso, mas foi comprar colar cervical para mim no instante em que notei ter ficado avariada por fazer faxina na casa — e, na semana seguinte, pagou a faxineira.

É essencial ter consciência de que uma relação só tem alguma chance de funcionar se pararmos de ser chatos. Caso contrário, cobraremos eternamente. E, eternamente, seremos carrascos infelizes e azedos. Muito azedos.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
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