Autor

A Mulher Honesta

por Ailin Aleixo

Ela não tem medo de dizer o que pensa (só tem medo de apanhar na rua).



A pergunta inevitável

A paixão nos contamina com uma incurável visão seletiva e nos torna patéticos e miseravelmente felizes. Mas, como toda doença, um dia acaba. Ou mata.

Ao acordarmos entre os sobreviventes, nos rastejamos pela autocomiseração rumo à saída (desconhecida) e, talvez, alguma alegria – que, quando vem, insiste em ser tão sutil como o gosto de uma alface. Cansados, só conseguimos mais motivos para persistir no flagelo e lastimar a súbita ruína da felicidade eterna.

Contrariando o fim do mundo pessoal, e sem notarmos, o tempo vai deixando essas sensações mais e mais dispersas.

E, num dia qualquer, desaparecem.

Ficamos curados.

Tocamos a vida, rimos do que passamos e prometemos não mais nos apaixonar. A promessa não é cumprida, e a sensação de ser atropelado por um Scania se repete até que tenhamos o domínio sobre nossas expectativas ou que alguém faça o favor de nos dizer para deixarmos de lado a crença infantilóide de que a felicidade será entregue na porta de nossa casa por alguém lindo, inteligente, bem-humorado e charmoso – ele(a) nunca virá porque não existe.

Numa noite ou dia qualquer, surgido do nada, no meio da rua, no elevador, reencontramos sem querer (e com algum sobressalto) quem nos causou o inesquecível desprazer. E, pela primeira vez, sentimos um desapontamento, meio inexplicável, mas bem nítido. Durante os cinco segundos que nos separam do cumprimento, uma tonelada de sensações chegam juntas e misturadas. Até que, de repente, olhamos para alguém muito diferente de quem nos encantou. Um completo estranho. Pela primeira vez, enxergamos essa pessoa despida da perfeição com a qual a envolvemos. Despida das nossas quase arquetípicas aspirações românticas.

Então o que era quase divino se torna frustrantemente humano. E aí, com mal-estar e um tanto de rejeição à idéia, compreendemos que a paixão é o mais narcisista dos sentimentos: nos apaixonamos pelo que queríamos que alguém tivesse, fosse, agisse, pensasse. Nos arrebatamos por nossos sonhos projetados sobre outra pessoa – e nada pode ser mais humilhante que descobrir nossa própria fraude (a não ser perceber que tudo poderia ter sido diferente se fôssemos menos egocêntricos).

Não sabemos como agir. É muito repentina a mudança de visão e a reação adequada ainda não se formulou. Vendo a pessoa se aproximar, ao mesmo tempo que tentamos descobrir o que fazer, notamos pequenos detalhes até então invisíveis: o sorriso insistente, a sobrancelha direita ligeiramente mais baixa que a esquerda. Os sapatos velhos que odiávamos mas habitavam no setor “excentricidades” agora mudam-se pro “relaxo”. E vem o abraço. Já não é tão forte. Já não é tão macio. É um abraço de festa, impessoal. Nos vem uma certa aflição com o toque daquele corpo que já não reflete nosso desejo.

Onde foram parar o brilho, a beleza tão particular, a presença envolvente?

Eles estão onde sempre estiveram, só que agora esperam um novo corpo pra elegerem como abrigo. Ou um enterro oficial.

Então, passados os poucos segundos do contato, olhamos, sorrimos e lançamos um tolo “Oi!”, a única coisa que nos vem à mente. Mas o que pensamos sinceramente, e nunca será dito, é: “Como eu pude?”


O abençoado bar

Quando alguém sentencia “você precisa relaxar”, a primeira imagem que me vem à mente não é uma praia de areias brancas nem uma sessão de shiatsu, muito menos um laguinho de águas e patos calmos acompanhados por cânticos e mantras. Quando preciso relaxar, penso numa só coisa: uma mesa de bar.

Eu bebo. E digo mais: bebo melhor que muito macho porque não passo do meu limite para bancar a durona, não dou trabalho para os outros, não fico insistindo em assuntos que só interessam a quem já venceu a barreira do décimo chope, não viro vítima do copo que me consola nem entoo, num tom meloso pra lá de patético: “Sabia que te considero pra caramba?”

Bebo para ficar melhor do que sou, não pior. Bebo para superar minha timidez natural, porque gosto do sabor de um bom vinho, da ardência de uma cachaça pura, da pegada forte de um amaro. Bebo porque viver é um troço complicado e precisa, vez por outra, da simplicidade mental trazida pela graduação alcoólica. “Bebo para empatar com o mundo”, como diria Paulo Mendes Campos.

 Todos precisamos de embriaguez. Alguns a conseguem rezando, jogando futebol, fazendo sexo, pintando. Tudo é a mesma coisa: necessidade de sair da realidade, de dar um pause na roda incessante dos pensamentos. Por isso a mesa de bar é tão mágica: ela nos transporta para outra dimensão em questão de minutos, alivia o peso do cotidiano, dos problemas e prazos, reúne amigos que vivem enjaulados em suas existências. A mesa de bar é a grande responsável pela dose certa de irresponsabilidade de seus freqüentadores, é a redentora da happy hour, a testemunha de amores pós-escritório, de lágrimas disfarçadas, xingamentos lavadores de alma, risadas arrastadas do passado ou surgidas de desejos bizarros para o amanhã. A mesa de bar é a terapia mais divertida que existe.

 Também do Paulo Mendes: “A embriaguez é religiosa, e o altar das religiões antigas inventou de certo modo a mesa do bar. Aí, o homem punha-se em comunicação com o espírito divino, ligava céu e terra, transcendia-se”.

 Por isso não tenho paciência para abstêmios. Não consigo entender quem não se dá o direito de perder as estribeiras vez por outra, que supõe ficar sob controle período integral (presunção bem irreal, aliás). Que chato deve ser viver ao lado de alguém que não compreende o prazer do primeiro gole em um chope cremoso, a delícia de esquecer calorias, brigas e tempo ruim e largar-se a sociabilizar sem preocupações pessoais nem gramaticais. Não entra na minha cabeça quem prefere dormir cedo a curtir um animado papo bem regado até mais tarde.

 Quem é certinho o tempo inteiro é chato o tempo todo.

 E, além de tudo, a bebida traz a beleza. Não aquela invocada pela proporção de goró ingerido. Não, essa desculpa de “tudo é bonito depois da quinta dose” é coisa de gente que não tem coragem de fazer o que quer sob o peso da sobriedade. A bebida invoca uma beleza mais sexy e sutil. Masculina.

Não existe nada mais charmoso e instigante que um homem de barba cerrada com um belo Negroni numa mão– e outro, na outra, pra mim.


Faça terapia, não faça guerra

Algumas mulheres esquecem que chega uma hora em que sentir-se especial, quase superior, por ser ininteligível se torna uma piada. Não há beleza nenhuma em ser conscientemente volúvel e inconstante—isso apenas denota uma inaptidão abissal em aceitar que é na descomplicação e na coragem em ser transparente que reside o real crescimento. Mulheres que se orgulham de sua incoerência não passam de rascunhos de si mesmas.

Cansei de ler textos, filmes, regras, peças, livros, bulas e frases de banheiro escritas por moças que construíram sua “marca” em cima da própria incapacidade em lidar com as idiossincrasias e a dinâmica naturalmente complexa da convivência entre dois seres. São fracassos pessoais que, por personificarem a realidade de muitas outras, viraram sucessos comerciais.  Mas pior é a plateia de eternas adolescentes ovacionando essa autocomiseração travestida de esperteza. É triste uma mulher que passa dos 30 anos e ainda acha os homens uma raça alienígena a ser domada.

Realmente não me ofendo quando ouço “Mulher é um saco”. Às vezes eu  mesma me surpreendo como consigo me entediar/revoltar/odiar/surtar com minhas próprias cabecices, questionamentos, avaliações, variações hormonais e peitos grandes. Talvez por ter a dose suficiente de oscilações em mim, não tenho paciência para lidar com as das outras, principalmente outras que abusam do direito de serem chiliquentas, chatas, cobradoras. Por tudo isso quase não tenho amigas; as raras, que existem, não incrivelmente parecidas comigo em maneira de pensar e agir, aproximando-se muito de um… homem. Sempre me dei melhor com homens—adoro o fato de ouvir a verdade quando pergunto alguma coisa— e optei por estar rodeada por eles. Passar a amá-los foi inevitável. Amo-os por sua transparência até nas horas em que querem ser indecifráveis, por sua fidelidade aos amigos mesmo ao longo de vidas e histórias completamente diversas. Amo-os por não suportarem meias palavras e responderem a elas com evidente ódio, por continuarem moleques em algum canto de si mesmos até a morte, por ficarem tão vulneráveis (por dentro) e durões (por fora) quando apaixonados.

Amo os homens justamente por serem tão diferentes de mim.

Ailin também escreve sobre gastronomia: http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Não ignore o óbvio

Outro dia encontrei uma carta que escrevi, sei lá, em mil novecentos e noventa e alguma coisa. Relendo-a, ficou nítido que foi motivada por um rancor cortante que acompanha o desmoronamento do castelo de tentativas malfadadas que, juntas, muitos chamam de “relação”. E que quando acaba é um alívio, frustante, mas um alívio.

O envolvimento aconteceu por um erro absolutamente vulgar: o desejo de fazer com que tudo saia como queremos, vá pra onde guiamos. “O que você pensa possuir é o que te possui.” Frase vaga mas não menos realista por isso. Não há nada de errado com o óbvio – só é penoso vê-lo, mas, cedo ou tarde, paramos de tentar encaixar o redondo no oval. Seja por inteligência ou por puro cansaço.

Errar é um porre. O maior deles, talvez. Mas é uma das únicas maneiras para aprender de vez que não se deve enfiar o dedo na tomada, misturar destilados com fermentados, nem trair sem esperar que mudanças aconteçam. Alguns têm a sorte de o trem não descarrilar por causa de um capricho idiota (paixão temporária, imaturidade, chame como quiser). Outros, menos afortunados, vão parar em estações completamente diferentes, longe de tudo e bem pertinho do lugar para onde eles próprios têm vontade de se mandar quando notam a besteira feita, quando a nova paisagem perde a “magia”. Eu cheguei, apesar dos problemas no percurso, ao lugar que sonhei. E daqui não pretendo sair, por mais excitante que pareça a cidade vizinha, porque existe algo nela que sou incapaz de mudar: lá, eu nunca estarei em casa.

“Nunca me contentei com nada. De certa forma, a constante vontade de tudo era motivo de orgulho – me tornava especial, inquietante. Até o instante em que vi que algumas coisas simplesmente não valem a pena.
Não por serem pecaminosas nem por pertencerem ao terreno minado da moralidade.
Nem sequer se relacionam com consciência ou motivação menos racional.
Nem por serem tristes ou cômicas.
Não é isso.
Apenas, essas coisas são grandes e atraentes pastéis recheados de vento. ‘Como vai você?’ oferecido em esquinas barulhentas.
Não sei quantas vezes errei por achar que esperar era estupidez. Paciência confundida com covardia. Ação era o que importava – e eu sempre conseguia, no final, o prêmio pela empreitada. Mesmo não fazendo idéia de sua utilidade.
E por isso joguei pessoas no lixo.
Traí.
Menti.
E mesmo assim agradecia aos céus por ser tão espontânea, passional. Hoje, agradeço por ter aprendido que rogar atenção a quem não se importa não vale a pena.
Ou pedir amor.
Exigir amizade.
Tomar porre de pinga ruim.
Discutir com ignorantes.
Paciência é a maior virtude, agora sei. Ainda bem que a tive para perceber que seu lugar é mesmo do outro lado da rua, com outras pessoas. O bom senso me devolveu a paz que quase perdi por recear aceitar que minha felicidade está na calma e não na sua cama.
Sua infância mal ultrapassada.
Seu armário trancado demais.
A falta de palavras.
O excesso de ausência. Tudo minou até a minha incrível capacidade de persistir: não dá pra apostar o futuro numa mesa em que o maior prêmio é um orgasmo e um beijo na testa.
Pra mim, você simplesmente não vale a pena.”

Ailin também escreve sobre gastronomia: http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Mentira é essencial

Mentira é essencial. Ninguém vive sem ela. Sobreviver é até possível—  mas a qualidade da existência pode ser um tanto prejudicada (e a vida social, destruída).

Honestidade completa só existe na mente ideológica e iluminada de seres diáfanos (elfos, duendes, anjos da guarda), no medo congelante daqueles que temem o inferno ou no discurso de ingênuos o bastante para crer no maniqueísmo da psique. Mas a vida não é assim tão simples.

Sinceridade total é um mito criado por pessoas tão fracas que não conseguem arcar com o peso de seus desejos, decisões, da sua sombra. A angústia em lidar com o que não suportam e não controlam é tanta que a única saída é jogar, transferir o ônus da resolução. “Mas eu fui sincero” é frase corriqueiramente proferida por experts em se esquivar da própria culpa. É apenas um meio egoísta e vil de sair de uma história como o bonzinho corajoso. É uma necessidade patológica de sentir-se com a consciência tranqüila, não importando se o outro ficará devastado pelo que ouviu.

Já menti. Algumas vezes, para me poupar de dores de cabeça. Em outras, por simples malandragem (nessas, me arrependi: também não acredito que a mentira seja um vestido preto para ser usado em todas as ocasiões). Mas, a maioria, por saber que a verdade seria cruel— e, pior, inútil. Creio que uma relação precisa ser construída com base na confiança e traço o meu caminho desta forma.  Mas também creio que essa mesma relação precisa de espaços individuais, áreas nas quais o parceiro não entre, por puro respeito. Dois não viram um quando estão juntos—dois continuam dois porque, do contrário, serão aniquilados e transformados em uma massa amorfa, uma liga sem força nem identidade. Quando esse território privado é invadido pela insegurança alheia, ou por uma vontade incessante de agradar o parceiro, o que acontece, cedo ou tarde, é o nascimento da raiva. Porque, convenhamos, não dá pra ser feliz com a obrigação de partilhar cada pensamento. Não dá para ser feliz sendo monitorado, avaliado. Não dá para ser feliz estando, a todo instante, numa vitrine.

 Eu sei que o homem que está ao meu lado tem desejo por outras mulheres. Ele é humano, assim como eu. Se eu gostaria que ele me contasse em detalhes como sonha transar com sua musa? Não, odiaria. Por isso não pergunto. Evito ouvir uma verdade que me machucaria ou fazê-lo mentir para me agradar. 

 Honestidade absoluta é mais letal do que a mentira: é quase impossível odiar quem se põe na situação de ser desculpado. É muito fácil odiar a si mesmo por não desculpar.

 Mentira é um estrondoso tiro de fuzil. Honestidade absoluta, uma lenta intoxicação por chumbo. Mas ambas matam.

Ailin também escreve sobre gastronomia: http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Mesa-redonda: o lado feminino dos homens

Mesa-redonda de futebol é insensato, passional, redundante e tumultuado – igualzinho a mente feminina. Por isso não consigo compreender homens que dizem amar futebol e não entender as mulheres. Como assim, se os dois funcionam exatamente do mesmo jeito?

O jogo acabou. A partida foi 2 pro Piraporinha e 5 pro Grêmio das Bananeiras (um deles por pênalti). Minutos depois, um grupo de portadores do cromossomo Y se junta em algum estúdio de TV e começa a discutir, ferozmente, se aquele lance no 14o minuto do primeiro tempo foi mesmo impedimento. Manda o replay. “O juiz estava certo, imbecil!” Re-replay.

Lá pelas tantas, no meio de dezenas de frases amontoadas e arremate algum, uma segunda questão é levantada: foi mesmo pênalti aquela jogada do Maurinho Cearense? Porque, de acordo com o que podemos ver na câmera 2, o pé dele nem chegou perto da boca do Juninho Ziquizira. Ah, chegou! Isso é pura encenação! Encenação é o que o Pipoca fez na final do campeonato carioca de 78. E dá-lhe mais replay. Uma hora se passou. Milhares de homens acompanharam, atentos e raivosos, as certezas absolutas (também conhecidas por achismos) dos caras na tela e então chegaram à conclusão de que… a partida ficou 2 pro Piraporinha e 5 pro Grêmio das Bananeiras. Um deles por pênalti.

A mente feminina funciona com a mesma lógica de uma mesa-redonda: os pensamentos colidem o tempo inteiro (esquizóides berrando com voz aguda) e nada faz muito sentido no primeiro momento (ou para quem não está envolvido no assunto). Vivemos jogando na cara dos outros fatos passados que, apesar de mortos e imutáveis, continuam bem vivos em nós – tão vivos que ainda fomentam reações apaixonadas. Fazemos replays mentais sobre o que dissemos, como nos portamos, como agimos: ah, se eu tivesse feito diferente. Ah, se você não tivesse falado aquilo. Ah, se o juiz não tivesse visto o maldito chute na boca do Juninho Ziquizira. Mas viu, falou e agiu. Morreu. De que adianta brigar por isso? Talvez seja útil, como experiência, para um próximo campeonato, mas não vai mudar em nada o resultado dessa partida. Então pra que, meu Deus, discutir como se fosse a coisa mais grave da superfície terrestre?

No final das contas, nós todos, meninos cartesianos e meninas caóticas, somos irracionais – só que cada um num segmento. Se as mulheres os importunam com a necessidade (algumas vezes meio excessiva, concordo) de discutir a relação, vocês nos enchem o saco com essa masturbação filosófico-futebolística. Se nós parecemos irracionais quando fechamos o tempo só por vocês terem nos interrompido no meio de uma frase pra comentar o preço absurdo do charuto cubano, serei sincera em dizer que vocês também não parecem muito sábios ao agirem como ogros raivosos no final do campeonato.

Mulheres em geral odeiam tanto esses programas esportivos porque eles são a materialização da nossa falta de método mental. Mas tem mais (e pior): em nós, vocês odeiam essa particularidade. Xingam, se lamentam pros amigos como sua namorada é louca. Mas, naquele bando de marmanjos, acham graça e, pasmem, vêem sentido!

Então, meus caros, em questão de falta de lógica, surto e destempero, empatamos.

Ailin também escreve sobre gastronomia: http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

A chatice das pessoas sem segredos

Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas planas surtem o mesmo efeito que muitos dias de sol seguidos: podem até ser agradáveis, mas são certamente entediantes. Não há nada para aprender com quem nunca se arriscou. Nada a dividir com quem jamais saiu da segurança do previsível.

O que desperta a curiosidade, suscita encantamento, não é a simpatia avassaladora ou a educação exemplar. O que faz nascer um certo feitiço é a falta de obviedade. Não é à toa que os mitos não nascem de águas calmas, mas sim da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre fatos e entes: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda. No máximo, enternecido. Podemos dar educados boas-tardes diariamente, mas ele jamais será tema de conversas. Jamais sairá da quitanda.

Somos inerentemente fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido com um amor tão lancinante quanto arriscado — por isso mergulhu-se à noite, escala-se o Himalaia, doma-se leões, come-se fora de casa. São todas tentativas de descobrir temperos que despertem o paladar em vidas insípidas. Por isso amantes são vitais para homens obtusos, que pensam conhecer cada detalhe de suas mulheres e se entediam com eles (e mal sabem como são enganados por sua própria falta de visão): o terceiro elemento incita a conquista, os faz ser, pelo menos por alguns dias, homens mais interessantes. Escondidos atrás dessa muleta emocional, sentem-se especiais por ter um segredo a esconder, algo só seu.

É pela nossa atração intrínseca pelo incompreensível, busca pelo indomável, que mulheres boazinhas são repetidamente abandonadas e trocadas pelas garotas más, que vivem como bem querem e fazem dos homens o que bem quiserem. Por isso os vilões são mais tesudos que os mocinhos: é só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, mas completas. Mais complicadas, mas com um impagável autoconhecimento. Um tanto inescrutáveis, o que pode incomodar os rasos, mas infinitamente mais interessantes.

Ter segredos é efeito de viver intensamente, a prova de que a realidade pode ser muito maior e significativa do que nossos forçados sorrisos de bom-dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. É ter coragem de arcar com o peso de ser único, independentemente de nossos atos serem louváveis ou não, aprovados ou não. É preferir guardar para si o que causaria estrago em alguém, não por medo, mas por carinho.

Quem não se arrisca, não faz besteira e não erra, não vive, apenas desperdiça o sagrado tempo que deveria ser aproveitado com paixão. Apenas caminha, sem deixar pegadas, sobre os dias, rumo à morte.

Ailin também escreve sobre gastronomia: http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

A vital capacidade de esquecer

A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da terra, sob as nossas faces. Amar é  mais magnânimo, mas não tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la. A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer da excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos para nos encantarmos novamente dali a pouco.

Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me aniquilariam se terminassem. Às vezes cruzo na rua com fantasmas que já foram muito vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente. Algumas pessoas são apagadas da memória como filmes desimportantes. Apenas esmaecem até desaparecer. Mas é mesmo impossível nos lembrar de todos os que passaram por nós: gente demais, espaço de menos. Da mesma forma que minha história está repleta de coadjuvantes e figurantes que, irrefletidamente, se auto-proclamavam protagonistas, eu devo ser a personagem cômica da história de alguém. Ninguém se esquiva da experiência constrangedora de bancar o bobo da corte no reino de outro.

Mas esse oco de significado não vem sem um certo pesar. É dolorido ser olvidado: não é fácil encarar que não somos insubstituíveis e que nossa saída displicente abre uma possibilidade de entrada tão desejada por outros. Mas só nos desenroscamos e seguimos nosso rumo natural, em frente, quando eliminamos alguns seres que, caso contrário, nos prenderiam aos emaranhantes aguapés de recordações.

“Há pessoas que ficam doendo com a lembrança de outra pessoa, entra ano, sai ano, virando e revirando o caleidoscópio, olhando como caem e se dispõe as cores e os cristais do sofrimento” (Paulo Mendes Campos).

O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotado com os erros cometidos e alegrias jamais revividas. Para ser feliz é necessário pouca coisa além se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas. É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repetir como um mantra: absolutamente nada é pra sempre, nem sentimentos que parecem ser. Nunca mais haverá amor como aquele? Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse.

Todo mundo passa. E é bom que seja assim.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

Ninguém precisa

 

Ninguém precisa de interlocutor que fala cuspindo e termina a conversa com todos os seus perdigotos depositados sobre a cara alheia.
De quem tem certeza de que sua vida e predileções são o norte da civilização.
Da mistura de esnobismo e babaquice que resulta no diagnóstico: cerveja é bebida de pobre.
De sexo tântrico, pilha fraca no controle remoto, conversa de elevador, bafo matinal, ovo mexido seco.
De espertinho que anda pelo acostamento quando a estrada está cheia e ainda buzina pra abrir caminho.

Ninguém precisa de cidadão que maltrata garçom.
De gentinha preconceituosa, tão tacanha que desconhece que  preconceito apenas denota ignorância e tosquice.
De quem frequentou a escola e, mesmo assim, escreve “agente fazemos”, “talves dá certo”, “derrepente”.
De seres que ouvem música, qualquer que seja, no volume máximo sem se dar conta que ouvido alheio não é pinico e que vizinhança não é palco.
De gente que vive de herança e jamais ouviu falar em trabalho.

Ninguém precisa de perua que gasta mil reais em um par de sapato mas acha demais dar dois reais para o moço que carrega suas compras no supermercado.
De pessoinhas que dizem que amar animais e defendê-los é atitude de quem não se importa com crianças abandonadas ou algo “mais importante”.
De homem que paga qualquer coisa—um drinque ou um colar de pérolas—para uma mulher e pensa que isso dá o direito de agarrá-la, afinal o “pedágio” foi quitado.

De quem palita os dentes à mesa—e fazendo barulho.
De botox.
De absorvente com estampa.

Mas para aguentar tudo isso, preciso de um drinque. Constantemente.

Ailin também escreve sobre gastronomia em seu blog http://www.gastrolandia.com.br
Seu twitter é http://twitter.com/ailinaleixo

A invejável perspicácia felina

 

Impossível que ele não percebesse nada. 

Suas chegadas em casa se adiavam cada vez mais. Suas saídas, adiantavam. Era o mesmo beijo ao acordar, o abraço antes de ir, até o carinho com a rotina e a paciência com os problemas eram os mesmos, mas algo estava errado. Eu, tranqüilamente deitado no meu canto, olhava tudo com a cara de quem não entende nada. Só eu via o desespero dela na ausência dele, a guarda baixa, o rosto, geralmente tão bonito e compenetrado, assolado pelas lágrimas e soluços. Também a vi com o outro– a questão, o estopim, aquele, o ser– aqui nesse sofá que durmo: não coloco em julgamento moral, de forma alguma, bem porque acho uma idiotice. O que é a existência além de curtir a vida da forma que lhe aprouver (mas que nem sempre apraz o vizinho), dormir no macio, ser agradado quando se quer e observar as pessoas de debaterem diante de sentimentos controversos? Tão covardes. E sofrem tanto com essa covardia que, se soubessem, optariam pelo risco de ser quem  querem em vez de trilharem sempre e sempre a mesma calçada que leva, crêem eles, a um lugar seguro e sereno. Obtusos.

Mas a questão aqui é ela e não a humanidade. Em matéria de limites, os delas eram menos rígidos e escapavam da mediocridade, por isso mesmo a faziam sofrer feito o cão. Não que eles não mereçam: a extrema devoção ao dono, o fato de ter um dono, a eterna disposição em servir, a humildade ridícula, a falta de personalidade e a subserviência devem mesmo ser punidos— nada que abra mão da individualidade pode ser levado à sério. Mas ela não tinha nada a ver com os cães, exceto a dureza da punição que se impunha—isso sempre me irritou nela, esse auto-flagelo constante, como se ser punida por não aquiescer com a cegueira do rebanho fosse compulsório. Cristão demais, não combinava com ela. Pois então, ela sofria feito o cão.

A via crucis, com direito a coroa de espinhos na cabeça de todos os envolvidos, começou no instante em que notou que aquele almoço havia caído bem demais. E, pior: despertado uma vontade infernal de voltar lá o quanto antes. Agora você pergunta como sei dessas coisas. Não, ela nunca me contou—seria estranho se o fizesse, se bem que adora falar comigo, mas jamais sobre assuntos importantes, apenas amenidades. Também não chafurdei em informações através de terceiros: estou sempre por perto (ela adora minha companhia), e o vício em comentar a vida com sua única amiga mulher vem da adolescência: ela não suporta sozinha o peso de todos os acontecimentos e, como sacola pesada de feira, precisa dar uma alça pra outro carregar. E então, inevitavelmente, escuto.

Por dois anos ela vinha sorrindo e fingindo que tudo melhoraria no dia seguinte, com mais dinheiro, quando morassem juntos, se viajassem pra Europa, quando comprassem a cadeira certa pra combinar com a mesa de jantar, com lingeries novas, usando menos o cérebro, bebendo um pouco mais. Mas não melhorava e ela piorava e continua sorrindo. Fingindo, me escovando todos os dias enquanto eu ronronava só pra vê-la um pouco mais feliz, menos infeliz— é uma mentira que nós somos egoístas e auto centrados. Gostamos de quem gosta de nós, só não nos tornamos propriedade de ninguém. Essa nossa qualidade era o problema dela: não se sentia dele e precisava desesperadamente de um lastro, uma âncora que não a deixasse se perder daquele jeito, mas tinha menos peso a cada hora, mais etérea e presa à nada. Errava feito balão estourado e, numa dessas trajetórias, colidiu com ele, o almoço. À partir daí, a âncora que antes só a detinha no lugar  (como se fosse pouco) começou a puxá-la pra baixo, afogando-a nas próprias águas. Águas que escorriam dos seus olhos. De vez em quando, pulava em seu colo pra tentar alegrá-la. Mas nem isso adiantava. A pressão aumentava e o oxigênio diminuía. Ela ia direto em direção ao colapso.

No instante em que a porta da sala foi aberta, com aquele familiar ruído do molho de chaves batendo na madeira, ela entrou no banho e num motivo bom o bastante para permanecer distante dele até que seus olhos absorvessem o vermelho e sua voz não saísse aos solavancos. Ele abriu uma brechinha do box, o suficiente para que a água respingasse em mim e eu precisasse sair do tapete e do cômodo calor do vapor, e deu um beijo no rosto molhado dela. Sabonete de erva doce, o mesmo cheiro da adolescência. O xampu caiu no olho, ela disse. Estava ardendo, estava vermelho, estava pronta mais uma desculpa. Ele foi pro computador, me carregou junto, colocou na sua perna direita. Até que a troca do tapete pela calça de veludo não foi de toda má. Mais uma noite boa, falsamente calma, necessariamente fingida porque a dor da verdade seria pior que viver na mentira. Será?

Uma grande soneca depois, ela entrou no quarto para pegar o telefone que ele insistia em manter perdido debaixo de pilhas de desorganização. Ela odiava desorganização. Ele me expulsou da calça, puxou-a pela cintura, beijou seu pescoço e perguntou o que ela gostaria que ele fizesse para comer. Não estou com fome, ela disse. Mas quero fazer algo gostoso pra mulher mais brilhante e cheia de xampu no olho. Então um risoto. E ele foi. Foi, sem saber, construir outro motivo para fazê-la sentir-se um lixo, culpada, podre, mentirosa, indigna daquele amor. Foi preparar a poção mágica que a transformaria instantaneamente na pior das mulheres diante do melhor dos homens. O melhor homem que ela já não amava—mas não confessaria isso naquela noite. Nem nas próximas sessenta.

Ouviu o resmungo metálico das panelas e foi consumida por um pânico que desconhecia até então. As paredes se moviam, estreitavam, espremiam e nem todas as janelas abertas daquele apartamento imenso faziam o coração voltar a batida normal, as pernas pararem de tremer, o soluço ser contido, o choro angustiado deixar de visitá-la pela terceira vez no dia. Estava tudo errado. Ela era toda errada. Jogou-se no sofá, enfiou a cara na almofada para abafar o som desesperado e chorou. Mais. Estava apaixonada por alguém que jamais seria seu apesar de ter estado nela há poucas horas durante muitas horas—a frase exata que ela usou para descrever a tarde para sua única amiga: “apesar de ter estado em mim há poucas horas durante muitas horas”. Acho que ela não estava apaixonada por ele, mas pela possibilidade de estar apaixonada de novo, de se sentir viva, ser vista com outros olhos, olhos sem dez anos de história, sem biografia em conjunto, sem tanto o que recordar. Estava diante de um papel em branco para escrever, desenhar, rasgar. Mas ela, apaixonada ou não, estava apaixonada, dilacerada, sentindo-se sabe Deus como, por um homem que jamais seria seu apesar da intensidade. Filhos e legítima esposa eram motivos fortes para ela saber que, por mais que a paixão dele crescesse, jamais danificaria a razão, a masculina razão que segmenta a vida em “casamento estável” e “mulher maravilhosa nas folgas da agenda”, como se fosse um daqueles porta temperos, foi o que ela disse. Jamais era uma palavra muito presente ultimamente. Jamais fora tanto.

Pode parecer mentira aos que, gratuitamente, não gostam de nós, mas vê-la naquele estado me fazia sofrer. Ela não era assim, era o oposto, a força, o riso, o sarcasmo, a fina ironia, mas (gradualmente) foi sumindo, sendo apagada dela mesma. E agora todas as vezes que ficava triste, muitas vezes, me pegava, passava a mão nos meus pêlos ou apenas me assistia a me lavar. Acho que a acalmava. Mas naquela hora fiquei distante, meio amedrontado com os soluços que não cessavam, o cheiro do salmão que vinha das panelas, o assovio despreocupado do cozinheiro alheio ao mundo que se passava debaixo do seu nariz, ao seu lado na cama, junto com ele na conta bancária.

Ele a chamou pro jantar. Segui a ela e ao salmão no ar; mais o salmão do que ela. A mesa estava romanticamente posta, fora de hora, lugar e tempo. Esquizofrenia pura: os sinais de morte sendo dados aos montes e ela ali, diante de uma celebração ao prazer, a um amor que já não existia e era empurrado com a barriga. As flores, que deveriam ser para o velório deles, tinham sido dispostas para uma festa. Uma festa que só existia dentro do cozinheiro, sob o semblante calmo e doce daquele homem que abria o vinho.

Os olhos dela estavam vermelhos.

Ele puxou a cadeira para ela, serviu o Merlot , colocou os pratos com risoto sobre a mesa, sentou-se à sua frente e só então a encarou. Observou seus olhos. Estavam vermelhos. Ah, o xampu. Como você é descuidada. Assim que terminarmos de comer vou comprar um colírio pra isso não piorar.

É impossível que ele não percebesse nada.

É possível que ele percebesse tudo e não tivesse coragem pra fazer coisa alguma.

Saí de perto e fui dormir em cima da tv. Tudo o que queria era um lugar quente, seguro e acolhedor pra me abandonar– exatamente o que ela queria, o que continuaria querendo por muitas outras noites.

É impossível que ele não percebesse nada. Mas isso não era da minha conta.

(Texto do meu livro de contos Só os idiotas são felizes-- infelizmente, não mais à venda)