Impossível que ele não percebesse nada.
Suas chegadas em casa se adiavam cada vez mais. Suas saídas, adiantavam. Era o mesmo beijo ao acordar, o abraço antes de ir, até o carinho com a rotina e a paciência com os problemas eram os mesmos, mas algo estava errado. Eu, tranqüilamente deitado no meu canto, olhava tudo com a cara de quem não entende nada. Só eu via o desespero dela na ausência dele, a guarda baixa, o rosto, geralmente tão bonito e compenetrado, assolado pelas lágrimas e soluços. Também a vi com o outro– a questão, o estopim, aquele, o ser– aqui nesse sofá que durmo: não coloco em julgamento moral, de forma alguma, bem porque acho uma idiotice. O que é a existência além de curtir a vida da forma que lhe aprouver (mas que nem sempre apraz o vizinho), dormir no macio, ser agradado quando se quer e observar as pessoas de debaterem diante de sentimentos controversos? Tão covardes. E sofrem tanto com essa covardia que, se soubessem, optariam pelo risco de ser quem querem em vez de trilharem sempre e sempre a mesma calçada que leva, crêem eles, a um lugar seguro e sereno. Obtusos.
Mas a questão aqui é ela e não a humanidade. Em matéria de limites, os delas eram menos rígidos e escapavam da mediocridade, por isso mesmo a faziam sofrer feito o cão. Não que eles não mereçam: a extrema devoção ao dono, o fato de ter um dono, a eterna disposição em servir, a humildade ridícula, a falta de personalidade e a subserviência devem mesmo ser punidos— nada que abra mão da individualidade pode ser levado à sério. Mas ela não tinha nada a ver com os cães, exceto a dureza da punição que se impunha—isso sempre me irritou nela, esse auto-flagelo constante, como se ser punida por não aquiescer com a cegueira do rebanho fosse compulsório. Cristão demais, não combinava com ela. Pois então, ela sofria feito o cão.
A via crucis, com direito a coroa de espinhos na cabeça de todos os envolvidos, começou no instante em que notou que aquele almoço havia caído bem demais. E, pior: despertado uma vontade infernal de voltar lá o quanto antes. Agora você pergunta como sei dessas coisas. Não, ela nunca me contou—seria estranho se o fizesse, se bem que adora falar comigo, mas jamais sobre assuntos importantes, apenas amenidades. Também não chafurdei em informações através de terceiros: estou sempre por perto (ela adora minha companhia), e o vício em comentar a vida com sua única amiga mulher vem da adolescência: ela não suporta sozinha o peso de todos os acontecimentos e, como sacola pesada de feira, precisa dar uma alça pra outro carregar. E então, inevitavelmente, escuto.
Por dois anos ela vinha sorrindo e fingindo que tudo melhoraria no dia seguinte, com mais dinheiro, quando morassem juntos, se viajassem pra Europa, quando comprassem a cadeira certa pra combinar com a mesa de jantar, com lingeries novas, usando menos o cérebro, bebendo um pouco mais. Mas não melhorava e ela piorava e continua sorrindo. Fingindo, me escovando todos os dias enquanto eu ronronava só pra vê-la um pouco mais feliz, menos infeliz— é uma mentira que nós somos egoístas e auto centrados. Gostamos de quem gosta de nós, só não nos tornamos propriedade de ninguém. Essa nossa qualidade era o problema dela: não se sentia dele e precisava desesperadamente de um lastro, uma âncora que não a deixasse se perder daquele jeito, mas tinha menos peso a cada hora, mais etérea e presa à nada. Errava feito balão estourado e, numa dessas trajetórias, colidiu com ele, o almoço. À partir daí, a âncora que antes só a detinha no lugar (como se fosse pouco) começou a puxá-la pra baixo, afogando-a nas próprias águas. Águas que escorriam dos seus olhos. De vez em quando, pulava em seu colo pra tentar alegrá-la. Mas nem isso adiantava. A pressão aumentava e o oxigênio diminuía. Ela ia direto em direção ao colapso.
No instante em que a porta da sala foi aberta, com aquele familiar ruído do molho de chaves batendo na madeira, ela entrou no banho e num motivo bom o bastante para permanecer distante dele até que seus olhos absorvessem o vermelho e sua voz não saísse aos solavancos. Ele abriu uma brechinha do box, o suficiente para que a água respingasse em mim e eu precisasse sair do tapete e do cômodo calor do vapor, e deu um beijo no rosto molhado dela. Sabonete de erva doce, o mesmo cheiro da adolescência. O xampu caiu no olho, ela disse. Estava ardendo, estava vermelho, estava pronta mais uma desculpa. Ele foi pro computador, me carregou junto, colocou na sua perna direita. Até que a troca do tapete pela calça de veludo não foi de toda má. Mais uma noite boa, falsamente calma, necessariamente fingida porque a dor da verdade seria pior que viver na mentira. Será?
Uma grande soneca depois, ela entrou no quarto para pegar o telefone que ele insistia em manter perdido debaixo de pilhas de desorganização. Ela odiava desorganização. Ele me expulsou da calça, puxou-a pela cintura, beijou seu pescoço e perguntou o que ela gostaria que ele fizesse para comer. Não estou com fome, ela disse. Mas quero fazer algo gostoso pra mulher mais brilhante e cheia de xampu no olho. Então um risoto. E ele foi. Foi, sem saber, construir outro motivo para fazê-la sentir-se um lixo, culpada, podre, mentirosa, indigna daquele amor. Foi preparar a poção mágica que a transformaria instantaneamente na pior das mulheres diante do melhor dos homens. O melhor homem que ela já não amava—mas não confessaria isso naquela noite. Nem nas próximas sessenta.
Ouviu o resmungo metálico das panelas e foi consumida por um pânico que desconhecia até então. As paredes se moviam, estreitavam, espremiam e nem todas as janelas abertas daquele apartamento imenso faziam o coração voltar a batida normal, as pernas pararem de tremer, o soluço ser contido, o choro angustiado deixar de visitá-la pela terceira vez no dia. Estava tudo errado. Ela era toda errada. Jogou-se no sofá, enfiou a cara na almofada para abafar o som desesperado e chorou. Mais. Estava apaixonada por alguém que jamais seria seu apesar de ter estado nela há poucas horas durante muitas horas—a frase exata que ela usou para descrever a tarde para sua única amiga: “apesar de ter estado em mim há poucas horas durante muitas horas”. Acho que ela não estava apaixonada por ele, mas pela possibilidade de estar apaixonada de novo, de se sentir viva, ser vista com outros olhos, olhos sem dez anos de história, sem biografia em conjunto, sem tanto o que recordar. Estava diante de um papel em branco para escrever, desenhar, rasgar. Mas ela, apaixonada ou não, estava apaixonada, dilacerada, sentindo-se sabe Deus como, por um homem que jamais seria seu apesar da intensidade. Filhos e legítima esposa eram motivos fortes para ela saber que, por mais que a paixão dele crescesse, jamais danificaria a razão, a masculina razão que segmenta a vida em “casamento estável” e “mulher maravilhosa nas folgas da agenda”, como se fosse um daqueles porta temperos, foi o que ela disse. Jamais era uma palavra muito presente ultimamente. Jamais fora tanto.
Pode parecer mentira aos que, gratuitamente, não gostam de nós, mas vê-la naquele estado me fazia sofrer. Ela não era assim, era o oposto, a força, o riso, o sarcasmo, a fina ironia, mas (gradualmente) foi sumindo, sendo apagada dela mesma. E agora todas as vezes que ficava triste, muitas vezes, me pegava, passava a mão nos meus pêlos ou apenas me assistia a me lavar. Acho que a acalmava. Mas naquela hora fiquei distante, meio amedrontado com os soluços que não cessavam, o cheiro do salmão que vinha das panelas, o assovio despreocupado do cozinheiro alheio ao mundo que se passava debaixo do seu nariz, ao seu lado na cama, junto com ele na conta bancária.
Ele a chamou pro jantar. Segui a ela e ao salmão no ar; mais o salmão do que ela. A mesa estava romanticamente posta, fora de hora, lugar e tempo. Esquizofrenia pura: os sinais de morte sendo dados aos montes e ela ali, diante de uma celebração ao prazer, a um amor que já não existia e era empurrado com a barriga. As flores, que deveriam ser para o velório deles, tinham sido dispostas para uma festa. Uma festa que só existia dentro do cozinheiro, sob o semblante calmo e doce daquele homem que abria o vinho.
Os olhos dela estavam vermelhos.
Ele puxou a cadeira para ela, serviu o Merlot , colocou os pratos com risoto sobre a mesa, sentou-se à sua frente e só então a encarou. Observou seus olhos. Estavam vermelhos. Ah, o xampu. Como você é descuidada. Assim que terminarmos de comer vou comprar um colírio pra isso não piorar.
É impossível que ele não percebesse nada.
É possível que ele percebesse tudo e não tivesse coragem pra fazer coisa alguma.
Saí de perto e fui dormir em cima da tv. Tudo o que queria era um lugar quente, seguro e acolhedor pra me abandonar– exatamente o que ela queria, o que continuaria querendo por muitas outras noites.
É impossível que ele não percebesse nada. Mas isso não era da minha conta.
(Texto do meu livro de contos Só os idiotas são felizes-- infelizmente, não mais à venda)