O mais brasileiro dos boleiros

Força, Doutor!
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não está legal. E o mundo está preocupado com o médico que voltou ao hospital como paciente: jogue Sócrates no Twitter e perceba o tamanho do admiração e do amor que o mais brasileiro dos jogadores provoca na arquibancada, mesmo 30 anos depois de sua retirada dos gramados onde desfilou seu estilo peculiar que o colocou entre os maiores craques da história. Voltou ao hospital, em estado grave, para tratar de uma hemorragia causada pela cirrose – e esta, causada pelo alcoolismo. Sócrates nunca escondeu ser fã de birita. Nem quando era jogador. Ao contrário: mentor da Democracia Corinthiana do lendário time dos anos 80, preconizava que todo atleta seria responsável pela cerveja que cativa. Nada de passar uma de politicamente correto nem ficar se explicando à imprensa que bebeu menos caipirinhas do que todo mundo viu (é com você, Fred).
Hoje aposentado dos campos – embora vez ou outra tirando onda nos churras dos amigos; quase imóvel joga mais do que todo o atual escrete alvinegro –, o Doutor é raríssimo representante do clube dos ex-craques que pensam com a própria cabeça e ainda sabem escrever. Bom, fora o também médico Tostão, você lembra de mais alguém? Mas, ao contrário do abstêmio ex-10 do Cruzeiro, Sócrates descende da nobre estirpe de atletas e artistas boêmios, sempre viveu assim e tem orgulho de seu lifestyle. Se, jogando, o Magrão já parecia um homem de outro tempo – do tempo em que homens não fugiam da responsa e usavam a inteligência para driblar de beques a censores –, por que não o seria na arte de jogar conversa fora? Na tal entrevista que deu ao Fantástico, ao ser perguntado pelo repórter se seria alcoólatra, respondeu com um misto de bonomia e desfaçatez: “Sim, claro”. Certeza de que por pouco não mandou um “Tá me tirando, véio?”.
Encontrei duas vezes o Doutor. Na primeira, para uma entrevista ao meu documentário Só Quem É Sabe O Que É (co-dirigido com Phydia de Athayde e Artur Voltolini), sobre a torcida do Corinthians durante a queda na série B. Em duas horas matamos, creio, meia-dúzia de long necks enquanto o barba discorria sobre a identificação das torcidas organizadas de futebol e os reinos bárbaros europeus, além das diferenças entre a torcida do Flamengo (“ela baila, ela brinca”) e a do Corinthians (“ela é séria, ela joga”), os grandes clubes que defendeu no Brasil (fora uma furada passagem pelo Santos). Já na segunda vez, na Mercearia São Pedro, em nove horas de trabalhos ele certamente bateu o recorde mundial de cervejas derrubadas (por óbvios motivos não me lembro do astronômico número de ampolas que lotou nossa mesa). Na Merça ele é tratado como rei: tirando o tricolor França e o chapeiro Seu Antônio, torcedor do Náutico, todos os garçons são corinthianos – o Doutor nem precisa levantar o braço para receber a bola, que lhe é servida quase de joelhos. Nunca me esqueço do entusiasmo com que contava uma recente viagem à Amazônia. “O avião não chegava, nunca chegava, nunca que chegava, e eu morrendo de sede, olhava aquele mundããão de rios e florestas e ficava imaginando um oceaaano de cerveja”, ria, abrindo o erre ribeirão-pretano.
Ele afirmava – e eu acredito, porque o Calcanhar de Ouro é homem do tempo em que se fiava o homem pelo bigode – que só bebia cerveja. Sim, a mesma birita vendida pelo treinador Mano Menezes nos intervalos comerciais da nossa selecinha. Vinho, às vezes, com a namorada. Destilados, cigarros e outras substâncias, nunca – bem, pelo menos, não ultimamente. Uma hora a conta chega, e o Doutor tem ciência disso, tanto que ressabiava-se com os recentes exames que havia feito, constatando sua cirrose. Tinha moderado, de verdade, a manguaçagem, o que influenciou na acidez e na aridez dos comentários no Cartão Verde e na coluna na CartaCapital. Essa ranzinzice é jogo de cena: numa mesa de boteco, a timidez some, em meia hora vira seu amigo de infância. Mas, se você for tricolor, desculpe – vai ser zoado a noite toda, com direito a gozações estendidas ao irmão Raí, personagem onipresente em suas piadas. Havia trocado a onipresente cerveja pelo vinho. Xico Sá, seu colega de Cartão Verde, me revelou que, ao visitá-lo no hospital em sua primeira internação, os médicos lhe confidenciaram que o fígado de Sócrates havia sido bastante avariado não só pelo álcool como também pelas infiltrações de cortisona e xilocaína que lhe eram aplicadas para amenizar inchaços e dores das pancadas sofridas nas pernas.
Eu, que descobri o futebol o vendo jogar na gloriosa Copa de 1982, em que nossa derrota demonstrou o quanto o erro pode ser mais sublime que o acerto (“Nunca ter falhado/ Não importa/ Tentar outra vez/ Falhar outra vez/ Falhar melhor”, diria Beckett), torço sinceramente para que o Doutor vire a partida e saia outra vez tirando onda. Tenho certeza de que ele vai achar um caminho nesse jogo, vendo, como só ele via em campo, algo de que nunca suspeitamos. Ele vai descortinar, eu sei, um lance impossível no vazio entre o primeiro copo e o apito final. Cerveja sem álcool gostosa, quem sabe?










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[...] que parecem destinadas a desferir permanentes socos da cara da hipocrisia, e o Doutor Sócrates, o mais brasileiro dos boleiros, é uma delas. No segunda metade da década de 70, quando despontou no Botafogo de Ribeirão Preto, [...]
[...] que parecem destinadas a desferir permanentes socos da cara da hipocrisia, e o Doutor Sócrates, o mais brasileiro dos boleiros, é uma delas. No segunda metade da década de 70, quando despontou no Botafogo de Ribeirão Preto, [...]
[...] que parecem destinadas a desferir permanentes socos da cara da hipocrisia, e o Doutor Sócrates, o mais brasileiro dos boleiros, é uma delas. No segunda metade da década de 70, quando despontou no Botafogo de Ribeirão Preto, [...]