Haruki Murakami é louco por corridas de longa distância. Já tratamos do assunto aqui na ALFA 1, resenhando Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida – um livro ligeiro sobre cooper, auto-ajuda de altíssimo nível. Depois da maratona de Kafka à Beira-Mar (Alfaguara, 2006, 576 págs.), logo chega às livrarias a trilogia 1Q84, um verdadeiro Ultraman – os livros 1 e 2 têm 737 páginas, na edição em espanhol da Tusquets. A edição da trilogia em inglês sai em outubro, pela Knopf, em 928 páginas, capa de Chipp Kidd; em português, os livros 1 e 2 estão prometidos pela Alfaguara em 2012. No Japão, o primeiro livro vendeu um milhão de exemplares – só no primeiro mês.

Números à parte, não podemos nos apartar dos números para falar da obra. Os livros 1 e 2 foram estruturados tendo O Cravo Bem-Temperado, de Bach, como inspiração (cada um tem 24 capítulos, 12 com narrativa em Aomame, 12 em Tengo, 24 prelúdios e fugas em todos os tons, maiores e menores). Tengo e Aomame ão típicos personagens de Murakami, solitários, obsessivos, idiossincráticos, fascinados por música e pelo ideal da precisão. Tengo é um trintão, professor de matemática, que vive sozinho (mas tem uma namorada que é casada) e faz uns bicos como preparador de texto para um editor. Aomame é uma professora de artes marciais, trintona, que vive sozinha (mas costuma sair à noite para caçar homens maduros) e faz uns frilas como assassina de aluguel. A rotina de Tengo começa a mudar quando ele recebe a incumbência de reeditar – praticamente reescrever – um misterioso livro que chegou à editora, escrito por Fukaeri, uma sedutora adolescente de 17 anos: A Crisálida do Ar. A rotina de Aomame começa a mudar quando ela recebe a incumbência de matar um homem tão poderoso quanto bizarro. Rigorosa como um relógio, a máquina narrativa de Murakami vai sutilmente encadeando as narrativas vividas por Tengo e Aomame até o fim – quando, contrariamente ao teorema, as duas paralelas se encontram. O engenhoso modo de narrar praticamente impõe ao leitor à página seguinte, o que explica o seu imenso sucesso pop.

Já o sucesso de crítica se entende, além da precisão nipônica, pelas diversas intertextualidades que o pós-moderno Murakami evoca em sua escrita. A música, presente mais como princípio ordenador do que como mera trilha de fundo, comparece na obsessão pela Sinfonieta de Leoš Janáček, além do gosto de Tengo por jazz dos anos 40 e 50 (refletindo o gosto do próprio Murakami). Relatos obscuros de Checov – além da máxima checoviana “Se uma arma aparece no início de um relato, ele deverá ser disparado até seu fim” – além de, claro, George Orwell, agregam outras leituras à narrativa, que se passa no ano de 1984. Quer dizer, se passa e não se passa, ao mesmo tempo – por conta de um contato com enigmáticas criaturas chamadas Little People, citadas no livro A Crisálida de Ar, algumas personagens passam a viver em um tempo-espaço chamado 1Q84. Orfandade, seitas obscuras, conflitos entre realidade e fantasia, embates com a memória, crítica ao burocratismo japonês e pitadas de cultura pop são outros subtemas murakamianos.

Assim como os gatos, que surgem neste texto traduzido abaixo. Tengo vai a uma clínica visitar o pai, que tem Alzheimer. Ele desconfia não ser filho daquele homem, e está obcecado em saber quem é sua mãe. Após negacear suas respostas, o pai de Tengo ouve-o contar uma história sobre uma aldeia inabitada que é subitamente invadida por milhares de gatos. Boa leitura.

Tengo tirou o livro do bolso e começou a ler “A aldeia dos gatos” em voz alta. O pai prestava atenção à história, sentado, sem se mover, na cadeira ao lado da janela. Tengo lia devagar, com voz clara. No meio, fez duas ou três pausas para tomar fôlego. A cada vez, olhava fixo para o pai, sem notar nenhum tipo de reação. Não sabia se estava gostando ou não da história. Quando terminou de lê-la, o pai ficou quieto, com os olhos fechados, sem fazer um só movimento. Parecia adormecido, mas não estava. Simplesmente havia mergulhado no mundo do conto. Demorou um bom tempo para sair dali. Tengo esperou, paciente. A luz da tarde enfraqueceu-se e ao redor já podiam ser percebidos indícios do anoitecer. O vento que vinha do mar seguia mexendo os galhos dos pinheiros.

- Existe televisão nesse povoado dos gatos? – perguntou seu pai, de um modo bem profissional.
- A história foi escrita na Alemanha dos anos 30, naquela época não havia TV, mas rádio sim.
- Estive na Manchúria e ali nem sequer havia rádios. Nem emissoras. A imprensa havia chegado há pouco tempo, e líamos jornais com até duas semanas de atraso. Não tínhamos nada que colocar na boca e tampouco havia mulheres. De vez em quando, surgiam lobos. Aquilo era o fim do mundo…

Permaneceu um tempo calado, refletindo sobre algo. Talvez se lembrasse da vida difícil que tinha levado como colono na Mandchúria, quando era jovem. Mas as recordações em seguida se enevoaram e foram engolidas pelo vazio. Graças às mudanças na expressão do pai era possível entrever essa atividade mental.

- Foram os gatos que construíram o povoado? Ou teriam sido antigos humanos os que o construíram, e depois os gatos chegaram ali? – perguntou o pai olhando para o vidro da janela, como se falasse sozinho. Não obstante, a pergunta parecia dirigida a Tengo.
- Não sei – respondeu Tengo. – Mas suponho que foram os humanos que o construíram, muito tempo atrás. Por algum motivo, eles desapareceram e os gatos se fixaram ali. Talvez os humanos tenham morrido por conta de alguma epidemia.

O pai assentiu.

- Quando surge um vazio, algo tem que preenchê-lo. Todos fazemos isso.
- Todos fazemos?
- É assim – afirmou o pai.
- Que vazio você enche?

O pai ficou sério. Suas espessas sobrancelhas desceram e cobriram os olhos. Logo falou com em tom jocoso.

- Você não entende.
- Não entendo – repetiu Tengo.

O pai inchou as narinas. Tinha uma sobrancelha levemente levantada. Aquela era a expressão que sempre adotava quando não estava contente com alguma coisa.

- Se não entende sem que te explique, não vai entender por mais que eu te explique.

Tengo estreitou os olhos e leu a expressão no rosto do velho. Era a primeira vez que seu pai falava de um jeito tão esquisito e sugestivo. Ele sempre tinha falado de um jeito concreto, prático. Falar só o indispensável quando fosse indispensável: essa era a imutável definição de uma conversa, para seu pai. Mesmo assim, em seu rosto não havia nenhuma expressão legível.

- De acordo. Em todo caso, você enche algum vazio – disse Tengo. – Então, quem vai encher o vazio que você deixou?
- Você – respondeu lacônico seu pai, e apontou Tengo energicamente com o dedo indicador. – Não é óbvio? Eu enchi o vazio que alguém criou e, por sua vez, você vai enchendo o vazio que eu criei. Como se fôssemos nos revezando.
- Do mesmo jeito, os gatos encheram a aldeia despovoada.
- Isso, está perdida como o povoado – disse o pai, e ficou observando distraído o dedo indicador que havia apontado para Tengo, como se olhasse para algo estranho, fora do lugar.
- Está perdida como o povoado – repetiu Tengo.
- A mulher que te deu à luz já não está em nenhuma parte.
- Não está em nenhuma parte. Está perdida como o povoado. Quer dizer que ela morreu?

O pai não respondeu. Tengo suspirou.

- E quem é meu pai?
- Um simples vazio. Sua mãe se juntou a um vazio e te deu à luz. Eu enchi esse vazio.

Depois que disse essas palavras, o pai fechou os olhos e se calou.

- Se juntou a um vazio?
- Sim.
- E você me criou. Me engano?
- Já te falei – disse o pai com ar grave, depois de pigarrear. Como se ensinasse um raciocínio simples a uma criança preguiçosa. – Se não entende sem que eu te explique, quer não vai entender por mais que eu te explique.
- Saí de um vazio? – perguntou Tengo.

Não teve resposta.

Tengo juntou os dedos das mãos sobre os joelhos e voltou a encarar seu pai. Pensou: “Esse homem não é um despojo vazio. Não é uma simples casa desabitada. É um homem de carne e osso que sobrevive mais ou menos em um lugar do litoral, carregado com seu espírito estreito e obstinado e algumas lembranças sombrias. Se vê obrigado a conviver com esse vazio que vai se expandindo de forma contínua em seu interior. Neste momento, o vazio e a memória ainda lutam entre si, mas, queira ou não, logo o vazio o engolirá as últimas recordações. É uma questão de tempo. Será este vazio o que está combatendo o mesmo vazio que criou a mim?”.

Enquanto chegava o crepúsculo, a Tengo pareceu ouvir o longínquo rumor do mar misturado ao vento que soprava entre as copas dos pinheiros. Mas talvez tenha sido somente uma ilusão.
(Tradução do espanhol por RB.)