Este ano, se os fanáticos por filmes de heróis quiserem reclamar, será de barriga cheia. A garotada do McLanche Feliz teve uma boa surpresa com a versão rejuvenescida do Homem Aranha. A turma que gosta de X-Tudo, se empanturrou de ação do começo ao fim na reunião de super heróis em os Vingadores. Mas o hamburguer de gente grande, aquele com carne de primeira, dois dedos de altura, servido ao ponto, bem suculento, é o último filme da trilogia do Cavaleiro das Trevas.

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, até pode decepcionar alguns, e deve ser considerado pela maioria como inferior a segunda parte da trilogia dirigida por Christopher Nolan. Podemos apontar uma falha de continuidade ou outra, se quisermos ser detalhistas, e sim, o roteiro peca pelo excesso de exposição – a maneira forçada como personagens dão informações em diálogos pouco naturais, apenas para explicar ao público as motivações do que acabou de acontecer ou do que está por vir nas próximas cenas.

Isso parece ter se tornado regra nos trabalhos mais recentes dirigidos e escritos por Nolan. Em Inception, a trama é tão elaborada que os personagens tem uma jornada dupla e também atuam como guias para que o público consiga acompanhar o desenrolar da história. Algo muito diferente do que ele apresentou em Amnésia, com uma história contada de trás para frente, sem manual de instruções de como assistir ou artifícios para nos levar de mãos dadas até o final da história.

Nolan não é um mestre do cinema. Mas poucos vão assistir seus filmes com essas expectativas. Acredito que nem ele tenha essa ambição. Nessa fase atual, parece-me qie ele é muito bem resolvido na função de diretor de blockbusters hollywoodianos. E é indiscutível que ele domina o que faz e conquistou a confiança necessária para realizar filmes de US$ 250 milhões com um respeitável controle criativo. Provavelmente, perdendo a queda de braço quanto às últimas cenas de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Muito se fala sobre a transformação deste “novo” Batman, mais sombrio e real do que os interpretados por Val Kilmer e George Clooney. Essa mudança não é algo inventado por Nolan para o cinema. Se deve muito a Frank Miller e suas sagas nos quadrinhos, sobre o começo e o fim da carreira de Batman. A primeira delas, O Cavaleiro das Trevas, de 1986, conta a história de um Bruce Wayne aos 55 anos voltando a combater o crime depois de 10 anos do homem morcego ter se aposentado. Em 1987, o foco foi o começo de tudo, numa série que conta a origem do Cavaleiro das Trevas e a chegada do Comissário Gordon a Gotham City.

No filme que estréia hoje, novos personagens são apresentados que ainda não haviam entrado na trilogia. A Mulher Gato, interpretada por Anne Hathaway, vem toda sensual para fazer o vleho jogo de armadilhas e sedução com a dupla Batman/Bruce Wayne. Miranda Tate, vivida por Marion Cotillard, também faz um “quase” par romântico com o bilionário.

Bane, o super-vilão, interpretado por Tom Hardy, tem uma das origens mais interessantes dos quadrinhos, apresentado em 1993 na revista The Vengeance of Bane. Ele contrasta com o Coringa do filme anterior. Ao contrário do personagem imortalizado por Heath Ledger, o novo arqui-inimigo de Batman não usa o caos seimplemente como um meio para provocar medo e pânico. O caos para Bane é planejado para acontecer no fim, como seu objetivo final. Age como um ditador altamente estrategista, e tem seus planos pensados muitos movimentos à frente. Exemplo disso é a sequência de abertura. Sua apresentação na telona é uma das melhores cenas de ação e é ali que começamos a entender seu plano e sua forma de agir. Para ajudar no desenrolar do filme alguns aspectos de sua vida são misturados com outros personagens do universo DC, o que possibilita uma das maiores reviravoltas da trama.

Assim como no gibi de 1986, Batman também se aposenta. No filme Bruce Wayne ainda não chegou aos 55 anos como nos quadrinhos, mas vive recluso em sua mansão, sem nenhuma razão para ter uma vida – seja para formar uma família ou para continuar o eterno playboy durante o dia e quebrar o nariz de alguns bandidos durante a noite.

Não gostei do final, não vou entrar em detalhes, mas achei um tanto previsível, já anunciado por diversos diálogos durante o filme.

As atuações acompanham o que vimos nos filmes anteriores. Christian Bale está bem, mas mesmo com todo o trabalho para criar um Batman “mais humano” não chega no nível de seus melhores trabalhos como em O Operário, Psicopata Americano e O Vencedor. Os grandes atores Morgan Freeman, Michael Cane e Gary Oldman são subutilizados para variar, e mesmo assim são as melhores atuações no pouco tempo em que aparecem na tela, especialmente os dois últimos. Joseph Gordon-Levitt faz um jovem policial que nunca deixou de acreditar na figura do Batman, mesmo durante seus 8 anos anos de aposentadoria. Seu personagem se mostra proativo, positivo e não se esconde atrás de uma mascara para combater o crime. Talvez seja ele a tão sonhada esperança para a sempre cinzenta e depressiva Gotham.

Assim como Batman e Gotham City, diria que o filme é um tanto bipolar, cheio de altos e baixos, literalmente e metaforicametne durante os longos 164 minutos de exibição. Mesmo assim, não dá para negar a qualidade individual de cada um dos filmes da trilogia, e a forma como se integram numa amarração com os planos revelados nesta parte final. Mais uma vez a plateia agradece e aguarda uma nova releitura do Homem Morcego.