Desde criança ouvia meu pai dizer que mesmo o filme mais fraco do Woody Allen pode ser considerado acima da média. Continui concordando com ele, um filme do Woody Allen, mesmo quando ruim é bom. Até Ned Flanders, o vizinho de Homer Simpson, diz que adora os filmes de Woody Allen, só não gosta do baixinho nervoso que sempre atua neles. Talvez o próprio Woody Allen seja o único a ficar desapontado com o resultado de todos os filmes que faz, incluindo aí os clássicos como Annie Hall, Manhattan e Hanna e Suas Irmãs.

Além de sentir-se insatisfeito com seus filmes — afirmando não estarem no mesmo patamar de Cidadão Kane ou Ladrões de Bicicleta, uma expectativa que assume ter ao iniciar um novo projeto –, Allen costuma se comparar a um cozinheiro, ao tentar explicar sua modéstia. Diz que, assim como um chef não tem vontade de comer a refeição que prepara em seu restaurante, ele, como diretor, não gosta de assistir seus filmes depois de terminados. E olha que ele não sai da cozinha. Tem uma média de um filme por ano. Foram 48 como diretor desde 1966, incluindo alguns projetos para TV.

A genialidade de Woody Allen não se resume ao talento de fazer filmes. Já conquistou tudo o que o sucesso e a fama poderiam lhe oferecer. Vive plenamente para o prazer de filmar, sem precisar se curvar para os padrões hollywoodianos. Pela sua idade, 76 anos, poderia até se aposentar e apenas desfrutar da glória conquistada. Mas esse nova-iorquino neurótico é um verdadeiro workaholic, e diz querer trabalhar enquanto tiver saúde.

E para garantir seu espaço no mercado, nos últimos sete anos, Woody Allen resolveu investir numa nova fórmula de sucesso. Meia Noite em Paris talvez seja o melhor exemplo. Levou um Oscar de Melhor Roteiro e arrecadou milhões em bilheteria no mundo todo. Em uma coletiva em Los Angeles, onde falava sobre seu novo filme, Para Roma, Com Amor, explicou o motivo de ter voltado a acertar a mão. Segundo ele, não se trata de um segredo, tem a ver com dinheiro. Tudo começou com a negociação do financiamento do filme Match Point, em 2005. Os patrocinadores exigiram uma única condição: deveria ser rodado em Londres. Desde então, surgiram várias propostas para filmar em diferentes cidades pelo mundo e deixar sua amada Nova York de lado. De lá para cá foram oito filmes. Quatro rodados em Londres, um em Barcelona, um em Paris, um em Nova York e o mais recente em Roma.

Esses convites o colocaram numa categoria especial. O de “Diretor Guia Turistico”. Para início de conversa, ter um filme do Woody Allen usando como cenários os cartões postais de uma cidade aumenta o fluxo de turistas. Mas isso é só um detalhe. Sua expertise acompanha o talento e criatividade que o consagraram. Os filmes do diretor americano tem um budget abaixo de US$ 20 milhões, algo pequeno se comparado às produções Hollywoodianas, um atrativo levado em conta pelos produtores. Outro ponto a favor é que qualquer ator famoso ou diva da vez não titubeiam em aceitar trabalhar pra ele, mesmo que seja por um cachê modesto. Além disso, seus filmes normalmente pagam as contas com o dinheiro de bilheteria e contratos de distribuição.

Com a ajuda de sua fiel escudeira e irmã Letty Aronson, que negocia todos seus contratos, Allen criou uma fórmula única para garantir a realização de seus trabalhos. Consegue o dinheiro de uma vez só, de um único investidor e tem o prazer de contar suas histórias em Londres, Barcelona, Paris, Roma e, quem sabe, até no Rio de Janeiro. Em 2009 a produtora Conspiração ofereceu US$ 15 milhões, com um adicional de outros US$ 2 milhões bancados pela prefeitura e governo do estado, para que o baixinho dirigisse um filme ambientado na cidade maravilhosa. Ou os valores não alcançaram o patamar desejado ou ele ainda não tem uma história que combine com a paisagem carioca. Até onde se sabe, nenhum acordo foi fechado. Mas já que o Rio vai sediar a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpiadas em 2016, não seria nada mal ter Mr. Woody Allen filmando no Brasil em 2015, por exemplo, para aproveitar o embalo entre os dois mega eventos. Ficaremos na torcida.

Nos próximos posts falarei sobre o último filme dele, rodado em Roma, com estréia prevista para os próximos dias. Para entrar no clima, vale a pena rever alguns dos seus trabalhos dessa última safra.

Londres

Barcelona

Nova York

Paris